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HIGH-ENERGY TRANSURETHRAL
MICROWAVE THERMOTHERAPY
RICARDO L.V. NUNES,
JOSÉ CURY
Division
of Urology, Paulista School of Medicine, Federal University of São Paulo
(UNIFESP), São Paulo, SP, Brazil
ABSTRACT
Purpose:
The High-Energy Transurethral Microwave Thermotherapy (HE-TUMT) has assumed
in the last decade an important role as a minimally invasive alternative
in the treatment of benign prostatic hyperplasia (BPH). In this paper
we reviewed and discussed the mechanism of action, technique, patient
selection, results and complications of this procedure in patients with
BPH.
Material and Methods: We reviewed the literature
and evaluated the results of HE-TUMT in the management of benign prostatic
hyperplasia (BPH), using the Targis (T3) and Prostatron devices, the latter
with the software 2.5 and 3.5.
Results: Significant improvements were showed
in the subjective evaluation, demonstrated by the presence of better rates
on the scores analyzed, as well as in objective parameters, accessed by
the presence of higher mean peak urinary flow rate, decrease in the mean
post void residual volume, decease in the nocturnal urinary frequency,
and relief of bladder outlet obstruction. The association of these results
with long-term efficacy of the procedure, low necessity of new treatment
and the possibility of its application in the office setting allow the
indication of HE-TUMT as an alternative to transurethral resection of
the prostate (TURP) in selected cases. Some adjuvant and neoadjuvant treatments,
as alpha-blockers administration, may improve the results of HE-TUMT.
The morbidity of the procedure is significantly lower than that observed
after TURP; however, ejaculatory dysfunction can occur occasionally, as
well as thermal injuries.
Conclusion: The use of HE-TUMT is safe and
effective and may be an alternative method of BPH treatment for patients
at high risk for TURP.
Key words:
prostate; prostatic hyperplasia: thermotherapy; high-energy transurethral
microwave
Braz J Urol, 27: 589-598, 2001
INTRODUÇÃO
O
tratamento da hiperplasia prostática benigna (HPB) vem apresentando
na última década novidades terapêuticas, com o desenvolvimento
de novas técnicas de cirurgia minimamente invasiva. O tratamento
cirúrgico de escolha para a HPB continua sendo a ressecção
transuretral da próstata (RTUP), que embora eficiente para a maioria
dos pacientes, apresenta certa morbidade e não está isenta
de resultados insatisfatórios. As novas modalidades terapêuticas
visam simplificar e reduzir a morbidade e o custo do tratamento. Entre
estas alternativas está a termoterapia transuretral por microondas
de alta energia (TMAE), que consiste na aplicação de calor
profundo na zona transicional da próstata com resfriamento das
estruturas adjacentes através de água circulante. Esta técnica
é utilizada eletivamente em pacientes com adenoma dos lobos laterais,
resultando em necrose hemorrágica da próstata com danos
mínimos à uretra (1). Foi demonstrado clinicamente que a
TMAE apresenta melhora nos padrões urodinâmicos e de qualidade
de vida de maneira significativamente maior que o observado na termoterapia
transuretral por microondas de baixa energia (TMBE) (2), passando então
a ser considerada uma alternativa terapêutica atraente com eficácia
semelhante aos tratamentos tradicionais da HPB.
MECANISMOS
DE AÇÃO DO CALOR
A
aplicação da energia de microondas aquece o tecido pelo
aumento da energia cinética molecular. Essas microondas propagam-se
através do tecido, transferindo energia pela oscilação
eletromagnética de cargas livres de elétrons, de íons
e pela polarização de moléculas pequenas, sendo a
da água a mais importante. A freqüência da energia de
microondas e o tipo de tecido-alvo afetam a profundidade de penetração.
Devido ao fato da água diminuir a penetração das
microondas, esta penetração será maior no tecido
adiposo do que no tecido muscular. Os tecidos normais são protegidos
através de resfriamento durante o procedimento. Enquanto o aquecimento
das microondas depende do tecido penetrado pela radiação,
o resfriamento depende da condutividade, que tem ação limitada.
Os objetivos do aquecimento são destruir tecidos através
de temperaturas que excedam o limite citotóxico e que induzam à
morte celular, com danos aos elementos neuromusculares e ao suprimento
vascular. Este limite varia de acordo com o tipo celular e no caso da
próstata, que é heterogênea, não são
destruídas todas as células expostas ao calor, a mucosa
uretral é preservada e o tratamento pode ser realizado sem a necessidade
de anestesia geral. O que parece realmente acontecer com as células
estromais da próstata é a apoptose induzida, um processo
fisiológico de morte celular programada que mantém a membrana
plasmática celular íntegra, sem liberação
de substâncias tóxicas e sem desencadear alterações
inflamatórias, evitando-se, portanto, a hemorragia e o edema. Na
TMAE, este processo é induzido e desencadeado por estímulo
endógeno ou exógeno, provavelmente devido ao calor, à
liberação de substâncias tóxicas pela necrose
de células adjacentes, à isquemia ou a uma combinação
destes, ocorrendo perifericamente às áreas necróticas.
Isto foi demonstrado em estudo onde se verificou que uma hora após
exposição à TMAE com 47 a 48oC, aproximadamente 75%
das células eram apoptóticas, com baixa taxa de células
necróticas, e que a atividade da caspase-3- like, enzima
proteolítica que cliva importantes proteínas prostáticas
e que parece ser o evento inicial da apoptose, estava bastante aumentada
(3).
A temperatura tecidual adquirida durante
a TMAE é determinada principalmente por três fatores: geração
de calor através da absorção da energia de microondas;
dispersão do calor pela sua condução no tecido; e
perda de calor através do fluxo sangüíneo. O primeiro
é específico do aparelho a ser usado, o segundo depende
da composição tecidual, e o terceiro varia durante curso
do tratamento. Em próstatas volumosas o fluxo sangüíneo
pode ser menor pelo fato destas próstatas serem pouco vascularizadas
em comparação com próstatas pequenas. Recentemente
a TMAE por feedback vem sendo avaliada como um método
mais aperfeiçoado, onde a temperatura intraprostática é
medida por uma agulha fina conectada ao sistema de transferência
de energia, o que permite regular o calor aplicado à próstata
e compensar eventuais e consistentes variações no fluxo
sangüíneo prostático (4,5). Os aparelhos mais utilizados
na TMAE são o Prostatron, com programas (softwares)
de 2.5 e 3.5, e o Targis.
SELEÇÃO
DE PACIENTES
Vários estudos mostram uma relação
significativa entre os melhores resultados com a TMAE e pacientes com
próstatas volumosas, com pelo menos 25 cm³, o mesmo podendo
ser dito em relação a pacientes portadores de moderada a
grave obstrução ao esvaziamento vesical (4,6). Do mesmo
modo, pacientes que já apresentavam sintomas obstrutivos crônicos
e desenvolvem episódio de retenção urinária
aguda também são beneficiados com o tratamento pela TMAE.
Outro fato que pode levar o urologista à escolha desta opção
terapêutica é a vontade do paciente em preservar a função
sexual (7). Devido à menor morbidade e mortalidade, a TMAE é
considerada a melhor indicação de tratamento para pacientes
de alto risco cirúrgico (ASA III e ASA IV) que, mesmo quando submetidos
a menor carga energética devido aos problemas cardiovasculares,
apresentam resultados semelhantes, baseados no Students t
test quanto aos valores urodinâmicos e de escores subjetivos,
aos de pacientes ASA I e ASA II (4,8,9). Em relação à
energia a ser aplicada durante o procedimento, estudos clínicos
comprovam ser este um fator preditivo de boa resposta, tendo impacto positivo
em todos os critérios utilizados nos nomogramas; esta energia pode
atingir 70W na versão 2.5 e 80W na versão 3.5 (10-12). Já
o valor do PSA pré-operatório tem sido utilizado como fator
prognóstico de boa resposta ao tratamento. Quanto maior o valor
do PSA, melhores são os resultados, refletindo diferenças
individuais quanto à abundância de células epiteliais
produtoras de PSA na zona transicional da próstata, idade e distribuição
da vascularização da próstata, tendo sido demonstrado
que valores de PSA acima de 4 ng/mL estão associados a melhores
respostas (9,13). Devido a estas diferenças, parâmetros histológicos
foram analisados e os resultados sugeriram que estes achados tinham um
importante papel na variedade de respostas à TMAE. Através
de biópsias nas zonas periférica e transicional, concluiu-se
que homens com próstatas volumosas e com maiores valores da relação
estroma/epitélio (E/E) são aqueles que melhor respondem
ao tratamento, uma vez que esta relação em próstatas
normais é 5/1, mas se o homem evoluir de maneira obstrutiva, esta
relação passa a ser 5/2, 5/3 e até 5/4. Por outro
lado, a microdensidade vascular das próstatas biopsiadas mostrou-se
maior quanto maior a queixa obstrutiva, sendo que estas próstatas
apresentam respostas ruins ao tratamento com TMAE (14).
TÉCNICA
Na
realização da TMAE o paciente é submetido a cateterização
transuretral e a sondagem retal, e tais cateteres são conectados
ao aparelho. O cateter transuretral é composto por uma antena que
permite a emissão da radiação de microondas, 2 canais
de resfriamento que permitem a circulação de água
ao redor do cateter, termosensores de fibra óptica que realizam
a monitoração dinâmica da temperatura uretral e um
balão tipo Foley, que estabiliza o cateter no colo vesical. A antena
do Prostatron é monopolar, enquanto que a do Targis é bipolar,
gerando um padrão de aquecimento em dimensão antero-posterior,
com a conseqüente elevação da temperatura na próstata
posterior menor do que na próstata ântero-lateral. Foi demonstrado
que o padrão de aquecimento do Targis é simétrico,
enquanto que o do Prostatron é assimétrico, levando, neste
último caso, a um importante retorno do calor através do
eixo do cateter em direção ao aparelho gerador, ou seja,
há dissipação de energia térmica (15). Estudo
com o Targis demonstrou que temperaturas intraprostáticas de até
80oC provocam pouca ou nenhuma elevação nas temperaturas
retal e uretral (16).
A posição do cateter é
confirmada por ultra-som abdominal. O fluxo e a temperatura do resfriador
são controlados por um microprocessador. A sonda retal tem 3 termosensores,
situados geralmente a 8, 9 e 10 cm da margem anal, permitindo monitoração
contínua da temperatura retal. O tratamento tem 3 fases: durante
a primeira fase a uretra é resfriada através da sonda transuretral;
na segunda fase, a emissão de microondas se inicia automaticamente,
e quando a temperatura uretral atinge o limiar a temperatura do resfriador
circulante diminui; a terceira fase consiste no aumento progressivo da
temperatura de resfriamento para ampliar o campo térmico terapêutico
da periferia para o centro do tecido prostático.
A duração total do tratamento
é geralmente de 60 minutos, embora alguns estudos tenham concluído
que mais pacientes estavam satisfeitos com o tratamento de 30 minutos,
devido a menor necessidade de cateterização pós-operatória
e à menor irritabilidade vesical nos primeiros 30 dias, não
havendo diferença significativa nos valores urodinâmicos,
escores de sintomas e nos resultados de estudos de imagem ou cistoscópicos
(17-20).
Geralmente o paciente é liberado
do hospital com um cateter uretral de Foley, mantido durante duas semanas
na maioria das séries envolvendo a TMAE. Atualmente um novo tipo
de stent biodegradável de ácido poliglicólico
vem sendo utilizado, evitando a retenção pós-tratamento
(4,21). Outra novidade que começa a ser utilizada é a locação
de um cateter de ponte prostática, que permanece por
um mês, e parece ser uma opção efetiva e bem tolerada
para a prevenção da obstrução prostática
no período imediato após a TMAE, evitando a inconveniência
e o risco de infecção dos cateteres de demora e da aplicação
da auto-cateterização intermitente (22).
Muitos trabalhos têm discutido qual
seria a temperatura ideal a ser utilizada na TMAE, sabendo-se que os primeiros
efeitos começam a partir de 45oC e obtendo-se bons resultados com
temperaturas de 55 a 60oC (23). Temperaturas acima de 60oC ocasionam maiores
danos aos tecidos muscular e nervoso da próstata, aliviando os
sintomas obstrutivos, porém com um grau maior e indesejável
de necrose (24). Um melhor controle da temperatura intraprostática
vem sendo considerado indispensável para a obtenção
de melhores resultados, o que tem siso obtido com a técnica do
feedback, na qual a energia das microondas é ajustada
de acordo com a temperatura intraprostática monitorizada, possibilitando
uma compensação para as grandes variações
no fluxo sangüíneo prostático (25). Todo este procedimento
pode ser realizado sob anestesia local, uma vez que foi demonstrada uma
boa tolerância dos pacientes através de uma escala visual
de dor, sem a necessidade de sedação com medicações
que necessitem de monitoração, o que aumentaria os riscos
de efeitos colaterais e adicionaria custos ao tratamento (26,27).
RESULTADOS
Na
presente revisão, os resultados com a TMAE para a HPB evidenciaram
melhoras significativas tanto nos aspectos subjetivos quanto objetivos.
Os escores de sintomas, como o International Prostatic Symptom Score (I-PSS),
o Madsen Score, o AUA Score, o DAN-PSS e a avaliação da
qualidade de vida, foram os parâmetros subjetivos utilizados na
maioria dos estudos. De modo geral, a boa resposta aos quesitos foi o
fator que mais contribuiu para a boa aceitação deste tratamento,
uma vez que os resultados avaliados entre 3 meses e 5 anos após
a TMAE, mostraram melhora que variou de 50 a 89% (23,28-39), utilizando-se
tanto o Prostatron como o Targis. Os mesmos estudos mostraram que as taxas
de melhora foram bem próximas daquelas obtidas com a RTUP.
Os parâmetros objetivos avaliados
nos estudos clínicos foram a média do fluxo urinário
máximo (Qmáx), o volume residual pós-miccional (PVR),
o tamanho prostático, a reversão da retenção
urinária aguda (RUA), o alívio da obstrução
ao esvaziamento vesical e a freqüência urinária noturna.
O Qmáx apresentou melhora de até 71% em 1 ano de acompanhamento,
caindo para 38% após três anos, com resultados intermediários
neste período (28,29,32,34,36,39). O volume residual pós-miccional
foi reduzido em até 70% de seu valor inicial em 1 ano de acompanhamento
(28,38). A pressão do detrusor apresentou diminuição
de 35% em 3 meses após a TMAE (23). O alívio da obstrução
ao esvaziamento vesical foi observado em 60% dos pacientes em 6 meses
e em até 78% em 1 ano, melhorando o resultado inicial de 40% dos
pacientes em séries antigas (23, 28). Foi observado em um dos estudos,
que a diminuição da freqüência urinária
noturna após o tratamento estava bastante correlacionada com a
percepção de sucesso do método pelos pacientes (17).
O tamanho prostático teve seu tamanho reduzido em 20% após
1 ano da TMAE (28), e evidenciou-se através de cistoscopia a formação
de cavidades na uretra prostática em até 42% dos pacientes
(6,28). O valor do PSA total também se encontrou significantemente
elevado após a TMAE, o que é um indicativo de destruição
de tecido adenomatoso, tendo retornado próximo de seu valor basal
após tempo variável (40). Foi verificado em outro estudo,
que após 4 semanas da TMAE, 94% dos pacientes que tiveram RUA readquiriram
a função de urinar espontaneamente (41), embora exista uma
revisão clínica que demonstrou que a TMAE não reverte
a obstrução urinária (42). Já em relação
à retenção urinária crônica (RUC), 72%
dos pacientes readquiriram a função miccional espontânea
após o procedimento (43). Uma boa maneira de avaliar a eficácia
da TMAE consiste em observar a necessidade de retratamento e a durabilidade
do método. O índice de retratamento pôde ser estimado
através da análise de Kaplan-Meier e os estudos mostraram
que este índice atingiu 20-25% em 1 ano, 13% em 2 anos, 16% em
3 anos e 30% em 4 anos de acompanhamento (Figure), sendo a maioria das
reintervenções indicadas por dados subjetivos (32-34,38,44,45).
A durabilidade de bons resultados tanto objetivos quanto subjetivos com
a TMAE atingiu 98.4% dos pacientes após 6 meses de acompanhamento,
levando-se em conta a melhora sintomática, urodinâmica e
da qualidade de vida (34), 93% após 2 anos, em relação
ao alívio da obstrução (30) e 75% após 5 anos,
através de parâmetros urodinâmicos e de qualidade de
vida (45), representando que embora haja uma diminuição
da boa resposta com o tempo, esta ainda mantém-se satisfatória.
A TMAE foi considerada de melhor relação custo-benefício
comparada à RTUP em um estudo de 2 anos, apresentando menores custos
no tratamento primário e na manipulação das complicações;
por outro lado, em relação ao retratamento e à manutenção
dos equipamentos, seus custos são maiores que os da RTUP (35).
A colocação temporária
do cateter de ponte prostática intra-uretral mostrou
ser bastante útil no alívio de sintomas e melhora da qualidade
de vida, sendo verificada melhora importante do Qmáx já
em 2 semanas após a TMAE; entretanto, houve relato de necessidade
de retirada precoce do cateter devido à retenção
urinária secundária à migração deste
ou formação de coágulo (46). Uma estratégia
que vem sendo adotada é a associação da TMAE com
tratamento farmacológico neoadjuvante e adjuvante, através
dos bloqueadores alfa-adrenérgicos. Estudos confirmam que a terapia
com alfa-bloqueadores confere melhores resultados precoces do que a TMAE,
com alívio dos sintomas e melhora da qualidade de vida e da função
miccional logo após o início do tratamento; porém,
a partir de 3 meses estes resultados se revertem, com a TMAE apresentando
a longo prazo melhora significantemente maior e menor taxa de falha terapêutica
que os alfa-bloqueadores (47-50). Como conseqüência destas
avaliações isoladas, foi estudado o uso conjunto dos alfa-bloqueadores
antes e após a aplicação da TMAE, proporcionando
significante melhora no pós-operatório precoce, com ótimos
resultados em longo prazo e uma redução da taxa de complicações,
como a diminuição na ocorrência de RUA após
12 semanas de acompanhamento (49).
COMPLICAÇÕES
A
TMAE é considerada um procedimento de baixa morbidade, e de melhor
índice que a RTUP, apresentando, porém, algumas complicações
mínimas, principalmente em relação à função
sexual. Estudos confirmam que a principal ocorrência é a
ejaculação retrógrada, que foi observada após
3 meses de acompanhamento em 26% dos pacientes submetidos à TMAE
e em 73% dos submetidos à RTUP, e após 1 ano, em 33% e 63%,
respectivamente. Entretanto, os pacientes submetidos à TMAE possuíam
maior taxa de preservação da função sexual
do que a RTUP (83% x 64%) (7). A disfunção ejaculatória
foi observada em 23% dos pacientes após 6 meses do procedimento
(37), sendo também descrita a anejaculação em 5%
logo após o procedimento (45) e em 29% após 1 ano de acompanhamento
(36). Vale ressaltar que embora ocorra a disfunção ejaculatória,
não foi demonstrada qualquer alteração na análise
do sêmen (volume, número total, zinco e frutose totais) ou
na morfologia espermática, tanto nos pacientes com ou sem função
ejaculatória alterada após o procedimento (51). A morbidade
da TMAE, levando-se em conta a ejaculação retrógrada
e a ocorrência de RUA no período pós-operatório,
é maior em comparação com a da termoterapia por microondas
de baixa energia (TMBE) (52). Outro problema que deve ser considerado
é a necessidade de sondagem prolongada, chegando a atingir valores
médios de 16 dias, após o tratamento com o Prostatron 2.5
sem o uso de alfa-bloqueadores, acompanhado de sintomas irritativos miccionais
de até 3 semanas (28). Há relato de 16 casos de lesão
térmica relacionada à TMAE, sendo 10 casos de formação
de fístula uretro-retal e 6 casos de danos aos tecidos peniano
ou uretral, os quais levaram horas a dias para manifestar-se e requereram
colostomias, amputação peniana parcial ou outra intervenção
terapêutica. Foi verificado que estas lesões foram causadas
principalmente pelo calor excessivo produzido pela rotação
axial da sonda retal, resultando no prejuízo da monitoração
da temperatura retal, o que ressalta a atenção que deve
ser dada ao posicionamento desta sonda, especialmente em próstatas
de pequeno volume; pela supersedação do paciente, o que
o impede de manifestar dor, impossibilitando a interrupção
do procedimento e pela aplicação em pacientes previamente
submetidos à radioterapia da região pélvica, o que
torna os tecidos regionais suscetíveis à fistulização
(53,54). Por fim, foi verificada uma incidência desprezível
de infarto agudo do miocárdio (IAM) e de mortalidade por doenças
cardiovasculares tanto após a TMAE quanto a RTUP, sugerindo, mas
não comprovando, a associação dessas complicações
com o aumento prostático (55).
CONCLUSÃO
Nos
últimos 5 anos, inúmeros trabalhos têm sido apresentados
confirmando o alcance dos parâmetros que a pesquisa clínica
necessita para aceitar um novo procedimento como modalidade terapêutica:
eficácia, morbidade, durabilidade e relação custo/benefício.
Todos estes itens necessitarão da confirmação definitiva
ditada pelo tempo. Se os resultados obtidos com a TMAE mantiverem-se equiparados
aos da ressecção transuretral da próstata (RTUP),
poderemos então contar com mais um procedimento para o tratamento
minimamente invasivo de homens com sintomas do trato urinário baixo
conseqüentes à HPB.
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___________________
Received: April 2, 2001
Accepted after revision: October 26, 2001
________________________
Correspondence address:
Dr. Ricardo Luís Vita Nunes
Rua Albuquerque Lins, 818/62
São Paulo, SP, 01230-000, Brazil
Tel: + + (55) (11) 3667-3720
COMENTÁRIO EDITORIAL
A
ressecção trans-uretral da próstata (RTUP) tem sido
o padrão-ouro do tratamento cirúrgico da hiperplasia benigna
da próstata já há algumas décadas, e permanece
hoje como o tratamento mais eficaz. No entanto, em virtude das potenciais
complicações clínicas e cirúrgicas associadas,
e da necessidade de anestesia e de internação hospitalar
na maior parte dos casos, vários métodos alternativos minimamente
invasivos têm sido testados ao longo dos anos como potenciais
alternativas à RTUP ou aos tratamentos farmacológicos disponíveis.
O uso de energia térmica a partir
de microondas situa-se hoje como uma das únicas técnicas
sobreviventes dentre as muitas alternativas ao tratamento da hiperplasia
prostática testadas no início da década de 90 (1),
e portanto a revisão publicada no Brazilian Journal of Urology
é oportuna. De fato, o Journal of Endourology dedicou recentemente
(outubro de 2000) uma edição especial exclusivamente com
artigos versando sobre a termoterapia transuretral com microondas, ressaltando
que se trata de uma modalidade terapêutica que poderá crescer
e manter-se. Na realidade, o conceito de aplicação de energia
térmica ao tecido prostático define hoje duas modalidades
distintas: a hipertermia (com temperaturas que não ultrapassam
os 45oC) e a termoterapia (com temperaturas superiores a 45oC). A termoterapia
é capaz de causar ablação tecidual (necrose) e é
sabidamente mais efetiva do que a hipertermia no alívio dos sintomas
relativos à hiperplasia e na avaliação de parâmetros
objetivos como fluxo máximo, redução do volume residual
e resolução de retenção urinária aguda
(1,2).
Contudo, ainda há vários problemas
a serem resolvidos para que a termoterapia seja universalmente aceita
como uma modalidade terapêutica viável. A necessidade do
uso prolongado de cateteres de Foley ainda é um problema, e o uso
de stents biodegradáveis ainda permanece em investigação.
Adicionalmente, pacientes com lobo mediano patológico não
se beneficiam do tratamento. Além disso, como bem ressaltado pelos
autores na seção relativa às complicações
associadas aos métodos, os mecanismos de proteção
uretral e retal ainda precisam ser aperfeiçoados para que a segurança
da técnica seja plena (2).
Vários tratamentos alternativos para
os sintomas da hiperplasia prostática benigna têm ido e vindo
ao longo dos últimos anos. O tratamento farmacológico e
a RTUP fornecem parâmetros difíceis de serem substituídos
por técnicas que não tenham efetividade e segurança
realmente superiores. As pesquisas atuais sobre termoterapia, todavia,
fornecem perspectivas não somente no tratamento da hiperplasia,
mas também de outras condições prostáticas,
como as prostatites crônicas (3). O teste do tempo é sempre
o melhor juiz para definir se o investimento nestas técnicas alternativas
é aconselhável.
Referências
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J Endourol, 14: 603-609, 2000.
2. De Wildt MJAM, Wagrell L, Larson TR, Eliasson T: Clinical results of
microwave thermotherapy for benign prostatic hyperplasia. J Endourol,
14: 651-656, 2000.
3. Liatsikos EN, Dilenc CZ, Kapoor R, Smith AD: Transurethral microwave
thermotherapy for the treatment of prostatitis. J Endourol, 14: 689-692,
2000.
Dr. Gustavo Franco Carvalhal
Assistant Professor, Section of Urology
Catholic University of RS
Porto Alegre, RS, Brazil
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