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DEVELOPMENTAL CHANGES
OF GLYCOSAMINOGLYCANS IN THE HUMAN FETAL BLADDER WALL
LUIZ E.M. CARDOSO,
CRISTIANA LINS, FRANCISCO J.B. SAMPAIO, WALDEMAR SILVA COSTA
Unidade de
Pesquisa Urogenital, Centro Biomédico, UERJ, Rio de Janeiro, RJ
ABSTRACT
Objectives:
Glycosaminoglycans (GAGs) play key roles in the normal physiology and
pathology of the bladder. There is little data, however, on GAG composition
in the human fetal bladder wall. In the present study we aimed at establishing
the composition of GAGs in the bladder wall of human fetuses at different
gestational ages.
Methods: Bladder samples consisting of the
dome and front wall were obtained from 4 fresh, macroscopically normal
human fetuses aged 13 to 32 weeks postconception (WPC). GAGs in delipidated
tissue samples were extracted by papain digestion and cetylpyridinium
chloride/ethanol precipitation. The concentration of total GAG was assessed
by a hexuronic acid assay and expressed as mg hexuronic acid per mg dry
tissue, while the proportions of sulfated GAG species were determined
by agarose gel electrophoresis.
Results: At 13 WPC bladder GAG concentration
is about 2.2 mg/mg. It then decreases slowly, and at 32 WPC the value
is 1.8 mg/mg. Proportions of sulfated GAGs from 13 to 21 WPC are stable,
with 40% chondroitin sulfate, 50% dermatan sulfate, and 10% heparan sulfate.
At 32 WPC, however, the proportions of chondroitin and dermatan sulfate
are 48 and 42%, respectively.
Conclusion: Overall, the extracellular matrix
of the vesical wall does not undergo dramatic compositional changes between
the 13th and 32nd WPC. Still, the lower GAG concentration and the change
in the proportions of GAG species at the 32nd WPC suggest that major developmental
modifications in the vesical wall, which certainly bear on the mechanical
properties of the bladder, occur by this period.
Key words:
bladder, fetus, glycosaminoglicans, development
Braz J Urol, 26: 97-101, 2000
INTRODUÇÃO
Glicosaminoglicanos
(GAGs) são heteropolissacarídeos complexos que possuem quantidades
diversas de grupamentos carboxila e sulfato. Os GAGs portanto têm
alta densidade de grupamentos aniônicos, e in vivo esses polissacarídeos
existem sob a forma de glicoconjugados denominados proteoglicanos, cuja
parte protéica contem quantidades variáveis de domínios
de adesão. Os proteoglicanos têm, dessa forma, grande capacidade
de interações específicas com o meio circundante,
e suas funções fisiológicas são basicamente
decorrentes dessa propriedade. Essas funções incluem principalmente:
(1) retenção seletiva de íons e moléculas
difusíveis; (2) organização estrutural da matriz
extracelular; (3) regulação da interação célula-matriz
extracelular e célula-célula; (4) modulação
do efeito de citocinas; e (5) regulação da atividade de
proteases (1-3).
Os GAGs desempenham diferentes e importantes
funções na fisiologia da bexiga. Em virtude de sua bem conhecida
interação com o colágeno e outros componentes da
matriz extracelular (4), pode-se inferir que os GAGs têm participação
marcante nas propriedades de complacência da parede vesical, embora
tal fato não tenha sido ainda apropriadamente investigado. Uma
função que vem sendo bem estudada, e que tem implicações
clínicas imediatas, é participação dos GAGs
na permeabilidade do urotélio. Resultados de diversos trabalhos,
utilizando tanto métodos morfológicos como bioquímicos,
têm mostrado que a camada de glicocálix sobre o urotélio
é enriquecida em GAGs (5,6). Outros experimentos revelaram que
essa camada não apenas impede a difusão de componentes da
urina para dentro da parede da bexiga (7), mas também dificulta
a aderência de bactérias ao urotélio (8,9). Baseados
nessas propriedades, tem-se correlacionado alterações de
GAG do urotélio com a cistite intersticial (10,11). É importante
notar que essas alterações limitam-se, provavelmente, à
composição de GAGs, pois não foram detectadas diferenças
morfológicas em relação ao tecido normal (6).
Existem poucos trabalhos sobre a composição
de proteoglicanos e GAGs na bexiga de humanos, e estes utilizam apenas
tecido de adultos (12,13). Embora alguns estudos tenham sido feitos sobre
as alterações com o desenvolvimento do colágeno em
humanos (14) e em animais (15,16), dados semelhantes sobre proteoglicanos
e GAGs, os quais forneceriam informações funcionais importantes
sobre esses componentes, são inexistentes. Essa questão
foi abordada no presente trabalho, no qual se investigou a concentração
e composição bioquímica de GAGs em bexigas provenientes
de fetos humanos de diferentes idades gestacionais.
MATERIAL E MÉTODOS
As
amostras consistiram da bexiga de 4 fetos masculinos com idade gestacional
variando entre 13 e 32 semanas pós-concepção (SPC),
segundo o método de medida do pé mais longo (17). Os fetos
estavam macroscopicamente bem preservados e não apresentavam sinais
externos de malformações congênitas. Após dissecção,
a cúpula e a parede anterior da bexiga foram removidas e imediatamente
fixadas em acetona. As amostras foram então delipidadas por meio
de duas trocas de 24 horas cada em clorofórmio:metanol (2:1, v/v),
e depois secas a 60C. A parede vesical foi analisada por inteiro, sem
se fazer distinção entre urotélio, lâmina própria,
e camada muscular.
A extração de GAGs seguiu
um protocolo previamente descrito (18). Resumidamente, cerca de 30 a 100mg
de tecido delipidado e seco foram incubadas com papaína bicristalizada
(Sigma) em tampão acetato 100mM, pH 5,0, contendo cisteína
5mM e EDTA 5 mM, por 24 horas a 60C. Após centrifugação,
cloreto de cetilpiridinio (CPC) foi adicionado ao sobrenadante para precipitar
os GAGs. As amostras foram centrifugadas e o complexo CPC-GAG no pellet
foi dissociado com NaCl 2M. Os GAGs foram por fim precipitados ao se adicionar
2 volumes de etanol absoluto às amostras, que foram então
mantidas a 4C por 24 horas. Após uma série de centrifugações
e lavagens do pellet, obteve-se a preparação final de GAGs
totais, a qual foi utilizada nas análises subsequentes.
A quantificação de GAGs totais
foi feita por meio da dosagem de ácido hexurônico, utilizando
o método do carbazol (19), no qual as amostras purificadas de GAG
são primeiramente tratadas com H2SO4 a 100C. A concentração
de GAG no tecido vesical foi expressa em microgramas de ácido hexurônico
por miligrama de tecido delipidado e seco.
A quantidade relativa dos GAGs sulfatados
(condroitim sulfato, dermatan sulfato, e heparan sulfato) foi determinada
por eletroforese em gel de agarose a 0,5% em tampão 1,3-diaminopropano
50 mM, pH 9,0 (20). Após corrida a 80V, o gel foi fixado em brometo
de N-Cetil-N,N,N-trimetilamônio 0.1%, corado em azul de toluidina
0,1%, e a proporção dos GAGs foi determinada por densitometria
das bandas seguida de integração dos picos usando o programa
Scion Image (Scion Corp, Maryland, USA). A identificação
das bandas na placa de agarose foi feita com base na comparação
com a migração de padrões de GAG comerciais (Sigma)
e na susceptibilidade à degradação por GAG-liases
(18).
RESULTADOS
As
amostras de bexiga fetal estudadas indicam que a concentração
de GAG total nesse tecido diminui ligeiramente entre a 13a e a 32a SPC
(Figura-1). Nesse período, a concentração de GAG,
expressa como microgramas de ácido hexurônico por miligrama
de tecido delipidado e seco, passa de 2.2 a 1.8 em valores médios.

Os GAGs sulfatados majoritários na
parede da bexiga fetal, como mostrado pela eletroforese em gel de agarose,
são o dermatan sulfato e o condroitin sulfato, havendo, além
disso, em torno de 10% de heparan sulfato (Figura-2). O conteúdo
relativo desse último GAG sofre poucas alterações
entre a 13a e a 32a SPC. De maneira similar, as proporções
dos outros GAGs se mantêm estáveis nas amostras de 13 e 21
SPC, nas quais se observa uma predominância do dermatan sulfato
(49-51%) quando comparado ao condroitin sulfato (40-41%). Na amostra de
32 SPC, no entanto, essa relação se inverte, e o conteúdo
relativo do condroitin sulfato (48%) passa a ser maior que o do dermatan
sulfato (42%).

DISCUSSÃO
Os
resultados obtidos no presente trabalho mostram que, de uma maneira geral,
a composição de GAGs na parede vesical não sofre
grandes alterações no período estudado, que se situa
entre a 13a e a 32a SPC. Nesse mesmo período, estruturas de tecido
conjuntivo associadas ao testículo, por exemplo, apresentam modificações
muito mais marcantes (observações não publicadas).
Por outro lado, nossos resultados indicam que as modificações
mais acentuadas na composição de GAGs ocorre mais para o
final do período analisado, em torno da 32a SPC. Nessa idade gestacional,
a concentração de GAGs é menor do que em idades mais
iniciais, e há uma inversão nas proporções
do dermatan e condroitin sulfato. Esses 2 GAGs estão associados
principalmente aos proteoglicanos decorina/biglican e versican, respectivamente,
os quais têm distribuição predominantemente intersticial
(3).
A imunomarcagem de elastina e de colágenos
tipo I e III em bexigas normais e não complacentes sugere que a
lâmina própria é um componente fundamental para essa
propriedade mecânica (21). Como decorina/biglican e versican ocorrem
tipicamente na lâmina própria de epitélios, as modificações
em concentração e composição de GAGs em fases
mais tardias do período fetal, como mostrado por nossos resultados,
estão provavelmente relacionadas de maneira estreita com as propriedades
de complacência da parede vesical.
Outros estudos utilizando a mesma técnica
de imunohistoquímica revelaram que o sindecan-1, um proteoglicano
de heparan sulfato, predomina no urotélio (22). Dessa forma, a
ausência de variação na concentração
relativa do heparan sulfato, no período fetal estudado, sugere
que a camada de GAGs do urotélio está presente desde idades
gestacionais iniciais.
________________________________
Pesquisa financiada por CNPq e FAPERJ
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Received: January 10, 2000
Accepted: February 10, 2000
RESUMO
COMPOSIÇÃO
DE GLICOSAMINOGLICANOS DURANTE O DESENVOLVIMENTO DA PAREDE VESICAL EM
FETOS HUMANOS
Objetivos:
Os glicosaminoglicanos (GAGs) desempenham papel fundamental na fisiologia
normal e patológica da bexiga. Existem poucos dados, entretanto,
sobre a composição de GAGs na parede da bexiga fetal de
humanos. O presente estudo teve por objetivo estabelecer a composição
de GAGs na parede vesical de fetos humanos de diferentes idades gestacionais.
Métodos: As amostras consistiram
da cúpula e parede anterior de bexigas de 4 fetos macroscopicamente
normais e com idade entre 13 e 32 semanas pós-concepção
(SPC). Os GAGs em amostras delipidadas de tecido foram extraídos
por digestão com papaína e precipitação com
cloreto de cetilpiridínio/etanol. A concentração
de GAG total foi determinada pela dosagem de ácido hexurônico,
e foi expressa como mg de ácido hexurônico por mg de tecido
seco, enquanto que as proporções de GAGs sulfatados foram
determinadas por eletroforese em gel de agarose.
Resultados: Com 13 SPC a concentração
de GAG na bexiga é de 2.2 mg/mg. Esse valor então decresce
lentamente, e com 32 SPC é de 1,8 mg/mg. As proporções
dos GAGs da 13a à 21a SPC são estáveis, com 40% de
condroitin sulfato, 50% de dermatan sulfato, e 10% de heparan sulfato.
Com 32 SPC, entretanto, as proporções são 48 e 42%,
respectivamente.
Conclusões: A matriz extracelular
da parede vesical não sofre grandes mudanças de composição
entre a 13a e a 21a SPC. No entanto, a concentração de GAG
mais baixa, e a alteração nas proporções dos
GAG na 32a SPC sugerem que modificações importantes na parede
vesical com o desenvolvimento, que certamente se relacionam com as propriedades
mecânicas da bexiga, ocorrem nesse período.
Unitermos:
bexiga, feto, glicosaminoglicanos, matriz extracelular
Braz J Urol, 26: 97-101, 2000
______________________
Correspondence adress:
Luiz E.M. Cardoso
Unidade de Pesquisa Urogenital
Caixa Postal No 46.503
Rio de Janeiro, RJ, 20562-970
Fax: (21) 587-6121
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