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EFFECTS OF L-ARGININE
AND L-NAME ON RENAL ISCHEMIA - REPERFUSION IN RATS
ERNANI L. RHODEN,
CLÁUDIO TELÖKEN, CARLOS A.V. SOUTO, CLÁUDIA R. RHODEN,
MÁRCIO L. LUCAS, A. BELLÓ-KLEIN
Divisions
of Urology and Pharmacology, Federal Foundation School of Medicine of
Porto Alegre (FFFCMPA), and Laboratory of Cardiovascular Physiology, Federal
University of Rio Grande do Sul (UFRS), RS, Brazil
ABSTRACT
Introduction:
Nitric oxide (NO) is a very important peripheral and renal vasodilator
derived from L-arginine in a reaction modulated by nitric oxide synthase
(NOS). We here analyze the role of L-arginine/NO in the renal function
and oxidative stress in rats submitted to renal ischemia-reperfusion.
Material and Methods: For the renal function,
we used four groups of animals: control group; ischemia-reperfusion group;
a group pretreated with L-NAME (an inhibitor of NOS); and a group pretreated
with L-arginine. Serum creatinine was measured in the 24, 96, and 192
hours of reperfusion. In another six groups, we analyzed the oxidative
stress through chemioluminescence initiated by tert-butyl hidroperoxide
(QL). We used ANOVA, followed by Bonferronis t test (p < 0.05)
for statistical analysis.
Results: Renal ischemia-reperfusion significantly
increased both renal dysfunction and oxidative stress, when compared with
the control groups, in 24 and 96 hours of reperfusion (p < 0.05). L-NAME
increased the levels of serum creatinine in 24 and 96 hours (p < 0.05),
and also increased the oxygen species activity (p < 0.05) during renal
ischemia-reperfusion. Furthermore, L-arginine significantly protected
the renal function and also inhibited the increase in chemioluminescence
induced by L-NAME (p < 0.05) during 24 and 96 hours of reperfusion.
Conclusion: Our results suggest that Nitric
oxide (NO) has a protective effect against renal ischemia-reperfusion-induced
injury in rats.
Key words:
kidney; renal ischemia; nitric oxide; free radical; L-NAME; L-arginine
Braz J Urol, 27: 78-83, 2001
INTRODUÇÃO
No
rim, a injúria tecidual decorrente da síndrome isquêmica-reperfusional
é uma causa importante de disfunção orgânica
em transplante renal, cirurgias de revascularização da artéria
renal, nefrectomias parciais, bem como no tratamento cirúrgico
de aneurismas da aorta supra-renal (1,2). Os mecanismos propostos para
explicar a lesão secundária à isquemia-reperfusão
tecidual são diversos: liberação de espécies
ativas de oxigênio (EAO) durante a reoxigenação tecidual;
acumulação leucocitária; e subseqüente liberação
de EAO adicionais e enzimas líticas (1,3). Fisiologicamente, o
processo isquêmico, no rim, é caracterizado por diminuição
do fluxo sangüíneo renal, decréscimo da filtração
glomerular e diminuição do coeficiente de ultrafiltração
renal, além de disfunção tubular secundária
à obstrução e dano do epitélio tubular (1,3,4).
O óxido nítrico (NO), conhecido
como fator relaxante derivado do endotélio (FRDE), é um
substrato do aminoácido L-arginina resultante da ação
enzimática da óxido nítrico sintase (NOS). Revisões
recentes têm demonstrado que o NO, além de ser um importante
vasodilatador endógeno, parece exercer papéis relevantes
dentro do contexto fisiopatológico do organismo humano (5-7). Além
disso, supõe-se que o NO tenha papel ambíguo durante a isquemia-reperfusão
tecidual: na isquemia, ele parece proteger o tecido devido sua propriedade
vasodilatadora e ação contra o acúmulo leucocitário;
contudo, durante a reoxigenação do tecido isquêmico,
o NO pode reagir com moléculas de superóxido (O2-) e formar
o radical peroxinitrito (ONOO-), um importante agente causador da lipoperoxidação
de membranas celulares (6).
O objetivo de nosso estudo é verificar
o comportamento da função renal de ratos pré-tratados
com L-arginina (precursor do NO) ou com L-NAME (NG-nitro-L-arginina-metil-éster
- um inibidor da NOS) e submetidos à isquemia-reperfusão
renal. Além disso, deseja-se estudar a participação
do NO sobre a atividade das EAO na mesma situação. Com isso,
pretende-se avaliar, indiretamente, a importância da via L-arginina/NO
durante o evento isquêmico-reperfusional no rim.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram
utilizados 97 ratos Wistar, adultos, pesando entre 250 e 330 g, criados
no Biotério da Disciplina de Farmacologia de nossa Faculdade. Durante
o experimento, os animais foram mantidos em condições controladas
de luz (ciclo claro das 7 às 19 horas) e temperatura (22 ±
2oC), recebendo água potável e ração padronizada
ad libitum. Todos os experimentos foram aprovados por um Comitê
Institucional de Uso e Cuidado de Animais em Experimentação.
Para o estudo da participação
do NO sobre a função renal, no evento isquêmico-reperfusional,
39 animais foram divididos, aleatoriamente, em quatro grupos. Grupo C
(controle/n = 10): ratos em que se dissecou o pedículo renal esquerdo,
expondo-o por um período de 50 minutos (operação
simulada). Grupo I-R (n = 10): grupo submetido à dissecção
e clampeamento (com pinças vasculares atraumáticas) do pedículo
renal esquerdo (com exceção do ureter) por um período
de 50 minutos, seguida de reperfusão tecidual. Grupo L-NAME + I-R
(n = 10): animais pré-tratados com L-NAME (Sigma, Brasil) (20 mg/kg;
via intraperitoneal) 20 minutos antes da cirurgia de clampeamento da artéria
e veia renais esquerdas, por um tempo de 50 minutos, com reoxigenação,
logo a seguir, do rim isquêmico. Grupo L-arg + I-R (n = 10): grupo
pré-tratado com L-arginina (Sigma, Brasil), na dose de 200 mg/kg
(via i.p.), 20 minutos antes da cirurgia conforme o grupo anterior.
Todos os animais foram anestesiados com
tiopental sódico (Cristália, Brasil) (50 mg/kg; via i.p.).
O fechamento da cavidade nos animais, foi feito por planos, utilizando-se
fios absorvíveis para o músculo e fios inabsorvíveis
para a pele. Logo após as cirurgias, os animais foram acondicionados
em gaiolas de plástico (17 x 34 x 18 cm), em número de 3
ou 4 ratos por gaiola, nas condições do biotério
conforme citadas anteriormente. Procedeu-se, então, à coleta
de amostras de sangue periférico (plexo retro-ocular) para dosagem
das creatininas séricas de todos os ratos nos tempos de 24, 96
e 192 horas após o término dos procedimentos correspondentes
a cada grupo. Para a coleta de sangue, os ratos foram anestesiados com
éter etílico inalatório.
Para o estudo da interação
entre o NO e as EAO durante a isquemia-reperfusão renal, 58 ratos
foram divididos, aleatoriamente, em seis grupos. Grupo C (controle/n =
9): ratos em que se dissecou o pedículo renal esquerdo, expondo-o
por um período de 50 minutos. Grupo I (isquêmico/n = 9):
animais submetidos apenas à isquemia renal esquerda por 50 minutos.
Grupo I-R (n = 10): grupo submetido ao clampeamento pedículo renal
esquerdo (com exceção do ureter) por um período de
50 minutos, seguida de reperfusão tecidual por 50 minutos. Grupo
L-NAME + I-R (n = 10): animais pré-tratados com L-NAME, 20 mg/kg
(via i.p.), 20 minutos antes da cirurgia renal. Grupo L-arg + I-R (n =
10): grupo pré-tratado com L-arginina, na dose de 200 mg/kg (via
i.p.), 20 minutos antes da cirurgia conforme o grupo anterior. Grupo L-NAME
+ L-arg + I-R (n = 10): animais submetidos ao pré-tratamento com
L-NAME e, em seguida, com L-arginina, 20 minutos antes da cirurgia.
A indução anestésica
foi feita conforme descrição anterior. Após os procedimentos,
realizou-se, em seguida, as nefrectomias totais de todos os rins esquerdos
dos animais, com o objetivo de utilizarmos o tecido renal para análise
da atividade das EAO através do método de quimioluminescência
iniciada por hidroperóxido de tert-butil (QL), que mede, em contas
por segundo por miligrama de proteína (cps/mg de proteína),
a energia luminosa emitida pelo retorno ao estado fundamental de carbonilas
excitadas e oxigênio singlet durante o estresse oxidativo nas células
renais (8).
Os níveis de creatinina sérica
(em mg/dl) e os valores obtidos pela QL (em cps/mg de proteína),
todos representados pela média ± desvio padrão, foram
submetidos à análise de variância de uma via (ANOVA),
seguida pelo teste t de Bonferroni, sempre considerando-se um intervalo
de confiança de 95% (p < 0.05).
RESULTADOS
Os
valores médios de creatinina sérica para cada grupo, nos
diferentes tempos de reperfusão renal, estão representados
graficamente na Figura. Os resultados demonstraram que a isquemia-reperfusão
renal foi responsável por um acréscimo significativo dos
níveis de creatinina sérica nas 24 e 96 horas de reperfusão
(p < 0.05). Entretanto, os níveis de creatinina do grupo I-R
demonstraram-se iguais aos do grupo controle nas 192 horas de reoxigenação
tecidual (0.45 ± 0.07 vs. 0.42 ± 0.01 mg/dl; p > 0.05).
O pré-tratamento com L-NAME não
trouxe um aumento significativo na disfunção renal, durante
a síndrome isquêmica-reperfusional, nos períodos de
24 e 96 horas de recuperação pós-isquemia (p >
0.05); contudo, os níveis séricos de creatinina, quando
comparados as do grupo isquêmico não tratado, mantiveram-se
significativamente elevados ao término de 192 horas de reperfusão
renal (0.70 ± 0.27 vs. 0.45 ± 0.07 mg/dl; p < 0.05).
A administração prévia
de L-arginina diminuiu, significativamente, os níveis de creatinina
sérica após 24 e 96 horas de reperfusão nos animais
submetidos à isquemia renal (p < 0.05). No entanto, tal efeito
benéfico da L-arginina não foi evidenciado após as
192 horas de reperfusão, visto que, neste momento, os níveis
de creatinina demonstraram-se significativamente superiores aos do grupo
isquêmico não tratado (0.61 ± 0.08 vs. 0.45 ±
0.07 mg/dl; p < 0.05).
Quanto à QL, os resultados obtidos
estão arrolados na tabela. A isquemia per se não foi capaz
de aumentar, significativamente, a atividade das EAO quando em comparação
com o grupo controle (6360 ± 715 vs. 3763 ± 633 cps/mg de
proteína; p > 0.05). Durante a isquemia-reperfusão renal,
a expressão das EAO tornou-se significativamente maior em relação
aos grupos isquêmico e controle (p < 0.05). No entanto, a L-arginina
diminuiu, significativamente, o grau de lipoperoxidação
das membranas renais durante após o procedimento de isquemia-reperfusão
(5574 ± 909 vs. 13660 ± 1104 cps/mg de proteína;
p < 0.05).
A administração prévia
de L-NAME provocou um aumento significativo do estresse oxidativo das
membranas renais, medido através da QL, durante o evento isquêmico-reperfusional
(p < 0.05). Contudo, nos animais em que administramos, simultaneamente,
L-arginina e L-NAME, observamos um efeito protetor sobre os níveis
de QL quando comparado ao grupo tratado apenas com L-NAME (5510 ±
767 vs. 17482 ± 4397 cps/mg de proteína; p < 0.05).
DISCUSSÃO
Sintetizando
nossos achados, podemos verificar que a síndrome de isquemia e
reperfusão renal causou um decréscimo importante da função
renal e aumentou significativamente a atividade das EAO quando em comparação
aos grupos controles. Além disso, houve um acréscimo significativo
nos níveis de QL através da inibição da síntese
de NO após a cirurgia (p < 0.05). Notou-se, ainda, que a administração
prévia de L-arginina foi capaz de proteger a função
renal e amenizar a atividade das EAO nos animais submetidos à isquemia-reperfusão
renal. Evidenciamos, também, que os ratos pré-tratados ou
com L-NAME ou com L-arginina demonstraram um retardo na recuperação
da integridade renal após o evento isquêmico, visto que esses
animais apresentaram níveis séricos de creatinina estatisticamente
superiores aos do grupo isquêmico não tratado, após
192 horas de reperfusão.
Durante a isquemia-reperfusão tecidual,
as EAO, como o radical superóxido.
(O2-), o radical hidroxil
(OH-) e o peróxido de hidrogênio (H2O2)
podem produzir injúria celular através das reações
de lipoperoxidação das membranas mitocondriais, lisossômicas
e plasmáticas, alterando, então, a estrutura e a função
dessas membranas (8 + 9). No rim, tais alterações são
responsáveis por um aumento da permeabilidade tubular com perda
das funções de transporte, bem como redução
da fosforilação oxidativa mitocondrial e liberação
inapropriada de enzimas líticas lisossômicas que acelerariam
o processo de degradação celular, com conseqüente diminuição
da função renal (1,9,10).
A integridade da função renal
depende do balanço entre fatores vasodilatadores e vasoconstritores.
Na isquemia renal, o dano sofrido pelo endotélio pode desencadear
um ciclo vicioso de lesão isquêmica pelo aumento da liberação
de substâncias vasoconstritoras (p.ex. endotelinas) e diminuição
de substâncias vasodilatadoras (p.ex. NO) (1). Além disso,
alguns autores supõem que o rim seja mais sensível às
diminuições das reservas de NO do que outros tecidos, visto
que a infusão prévia de L-NAME é capaz de reduzir,
significativamente, a natriurese, a diurese e a filtração
glomerular sem, contudo, causar alteração substancial dos
níveis pressóricos médios (11,12).
Durante a fase de reoxigenação
tecidual, o radical superóxido (O2-) pode
reagir com o NO e formar o peroxinitrito (ONOO-), um importante radical
livre que medeia, ao menos em parte, as reações de lipoperoxidação
das membranas celulares no evento isquêmico-reperfusional (11).
Em nossos experimentos, vimos que a inibição da produção
de NO pode exacerbar e o aminoácido L-arginina pode amenizar o
dano causado pelas EAO durante a isquemia-reperfusão renal em ratos.
Nossos resultados concordam com achados prévios, demonstrando que
precursores do NO, especialmente L-arginina, podem exercer efeitos benéficos
na isquemia-reperfusão tecidual (13,14). Isso talvez demonstra
que a interação entre NO e as EAO seja um tanto benéfica,
ressaltando o fato de que o NO, ao reagir com O2-,
na formação de ONOO-, atuaria como scavenger de O2-,
impedindo, assim, a ação dessa última molécula
sobre as membranas celulares, bem como a origem de outros radicais (H2O2
e OH-), causadores de injúria oxidativa (8,15). Com uma alteração
do balanço na relação NO/O2-,
haveria uma tendência maior na produção de PAF (fator
agregante plaquetário) e LTB4 (leucotrieno
B4), através de reações envolvendo
os radicais O2- e H2O2,
o que estimularia a adesão leucocitária, com conseqüente
aumento da injúria oxidativa decorrente da isquemia-reperfusão
tecidual (15).
A produção basal de NO é
necessária para a manutenção da função
glomerular normal, pois a inibição da síntese de
NO é responsável por aumento da resistência arteriolar
eferente, aumento da pressão dos capilares glomerulares e mudanças
expressivas da histologia renal (4). Tem-se demonstrado, também,
que a inibição do NO exacerba a disfunção
renal, ao mesmo tempo que os precursores do NO são capazes de aumentar
a função renal (16). De acordo com os achados de nosso estudo,
tem-se verificado que o dano funcional do rim causado pela depleção
das reservas de NO é transitório; isto é, após
um período de disfunção renal, o órgão
é capaz de retornar à sua função normal em
poucos dias (11). Tal fato pode-se dever, em grande parte, à grande
reatividade e à pequena duração do tempo de meia-vida
do NO (6,7).
Bhardwaj et al. (1989) demonstraram que
a L-arginina é capaz de diminuir, de modo significativo, a resistência
vascular renal após evento isquêmico em rim isolado (17).
Esse efeito protetor atribuído ao NO pode ser resultante de sua
ação inibitória sobre o acúmulo leucocitário
e da sua propriedade vasodilatadora durante a fase isquêmica (6).
Tendo-se em vista os nossos resultados,
podemos concluir que o NO tem uma função relevante durante
a isquemia-reperfusão renal, pois, com a inibição
da produção de NO, há uma tendência em aumentar
o grau de disfunção renal, bem como exacerbar os índices
de estresse oxidativo ocasionado pelas EAO medido através da técnica
de QL durante o evento isquêmico-reperfusional renal em ratos. Além
disso, o aminoácido L-arginina é capaz de proteger a integridade
funcional e diminuir a lesão provocada pelas EAO em rins pós-isquêmicos.
Resta-nos saber, agora, a real eficácia dos precursores do NO em
preservar a fisiologia renal, garantindo um efeito protetor total na síndrome
de isquemia-reperfusão. Para isso, é preciso a utilização
de novos parâmetros de análise da função renal,
tais como diurese, natriurese, Na+ excretado e depuração
da creatinina endógena, bem como utilização de novas
dosagens e vias de administração do L-NAME e da L-arginina
e emprego de novas técnicas para mensuração da atividade
das EAO e da expressão da via L-arginina/NO durante a isquemia-reperfusão
renal. Todo esse esforço objetivará, em futuro próximo,
o possível emprego benéfico de substâncias moduladoras
da via L-arginina/NO em diferentes situações clínico-cirúrgicas,
especialmente naquelas em que o rim é submetido ao processo de
isquemia e reperfusão.
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Received: April 5, 2000
Accepted after revision: January 11, 2001
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Correspondence address:
Dr. Ernani Luís Rhoden
Rua Jaraguá, 370/302
Porto Alegre, RS, 90450-140, Brazil
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