|
CHRONIC PELVIC
PAIN SYNDROME: UROLOGICAL ASPECTS
ARCÍLIO
J. ROQUE, MIGUEL SROUGI
Division
of Urology, Paulista School of Medicine, Federal University of São
Paulo, SP, Brazil
ABSTRACT
Objectives:
Urologists are paying more attention to the chronic pelvic pain syndrome
due to its unclear definition, poor understanding of the etiology and
pathology, and difficulty in treating patients involved by the condition.
In this article, we review the literature and present concepts and treatment
modalities.
Material and Methods: We selected 44 published
studies which were critically evaluated concerning the etiology, physiopathology,
clinical aspects, and treatment of the pelvic chronic pain syndrome in
men and women.
Results: An explanation is given why interstitial
cystitis, prostatodynia and urethral syndrome have been grouped together
concerning clinical symptoms, although occurring in different organs,
and also an explanation is presented for the orchialgia and penile pain
with a neurological and/or psychological origin.
Conclusions: The association of multidisciplinary
specialists (urologists, gynecologists, proctologists, neurologists, psychologists
and pain specialists) is needed at the present time to broaden the understanding
and to improve the treatment and the quality of life of chronic pelvic
pain syndrome patients.
Key words:
pelvis; pain; interstitial cystitis; prostate; urethra; testis; penis
Braz J Urol, 27: 60-71, 2001
INTRODUÇÃO
Recentemente
Collins (1) demonstrou que a síndrome da dor pélvica crônica
(SDPC) ocorre na prática clínica de forma freqüente
e somente a prostatodinia representa aproximadamente 15% das consultas
urológicas. Habitualmente o paciente refere mais de 6 meses de
história, e a descrição clínica dos sintomas
é complexa.
As manifestações clínicas
são bastante variadas, pouco definidas e mesmo utilizando o arsenal
diagnóstico avançado, poucas vezes podemos identificar a
doença primária. Alguns autores preconizam que esta síndrome
seja causada por distúrbios psicossomáticos, entretanto,
outros autores identificaram uma causa orgânica associada a muitos
destes casos (2). Esta dificuldade diagnóstica acarreta confusão
e é frustrante tanto para os pacientes quanto para os médicos.
Entre as principais doenças envolvidas
na SDPC, destacamos a cistite intersticial (3-5), prostatodinia, síndrome
uretral, orquialgia, dor peniana, dor perineal, vulvodinia, coxigodinia
e proctodinia (2). Assim sendo, para melhor avaliação da
SDPC recomenda-se uma abordagem multidisciplinar com urologista, ginecologista,
proctologista, neurologista e psicoterapeuta. Este fato tem propiciado
diversos trabalhos com novos conceitos e novas estratégias de abordagem
diagnóstica e terapêutica desta síndrome, a fim de
elaborar um tratamento mais adequado para cada caso.
Neste artigo, descreve-se a visão
atual das doenças urológicas envolvidas na SDPC, pois segundo
Wesselmann o primeiro passo importante para os pacientes que sofrem
da síndrome dolorosa crônica, é encontrar um médico
que saiba que ela exista (2).
CISTITE INTERSTICIAL
A
cistite intersticial (CI) é caracterizada basicamente por desconforto
suprapúbico, dor pélvica ou perineal, dor vesical, polaciúria,
urgência miccional e noctúria (3,5), ocorrendo de modo cíclico
e crônico.
A etiopatogenia permanece pouco conhecida,
apesar das diversas pesquisas nesta área, sendo considerada uma
síndrome dentro de outra mais abrangente que é a SDPC.
A estatística mais recente nos EUA
demonstra que mais de 700 mil americanos sofrem de CI (6) e o estudo epidemiológico
feito por Curhan et al. (7) revelou que a prevalência da CI situa-se
aproximadamente em 60/100 mil habitantes, sendo 50% maior que as descritas
anteriormente, e 3 vezes maior quando comparadas às estatísticas
européias. As referências clássicas demonstram uma
incidência de 90% nas mulheres e 10% nos homens, entretanto tem
havido uma tendência de alteração desses números
em razão do crescente diagnóstico de CI em homens com diagnóstico
prévio de prostatodinia (3,5,8).
Etiopatogenia
A etiopatogenia da CI ainda não está
definida, apesar das muitas teorias propostas e estudadas. É consenso
entre os pesquisadores que distintos fatores isolados ou associados possam
ser responsáveis pelos sintomas. As teorias mais aceitas são:
a agressão vesical persistente por diferentes substâncias
tóxicas presentes na urina; a ação de toxinas bacterianas
decorrentes de infecções urinárias crônicas;
doença auto-imune ou imuno-alérgica; hipóxia em razão
de espasmos vasculares decorrentes de reflexos simpáticos anômalos
e, finalmente, a teoria mais recente é sobre o aumento da permeabilidade
epitelial, decorrente de defeitos na sua camada protetora constituída
pelos glicosaminoglicanos (GAGs) sulfatados (3,9).
Maskell (10) e Naber (11) sugerem o fator
infeccioso como principal fator etiopatogênico da CI e da síndrome
uretral. O papel da infecção na CI permanece indefinido,
porém Naber acredita que o desenvolvimento de técnicas mais
sensíveis, como a biologia molecular, permitirá a detecção
do DNA ou RNA de microrganismos responsáveis pela CI (11).
Outra teoria seria aquela na qual infecções
urinárias sucessivas levariam a lesão da camada dos GAGs
do urotélio, promovendo um processo inflamatório inespecífico
reacional e favorecendo uma reação auto-imune na bexiga
(12).
Parsons (9), em 1990, apresenta a teoria
de que um defeito na barreira de proteção urotelial constituída
pelos GAGs tais como: ácido hialurônico, heparina, sulfatos
de condroitina, dermatina e queratina, seja o principal fator envolvido
na etiopatogenia da CI. Esta camada de mucopolissacarídeo teria
duas funções básicas: evitar a aderência bacteriana,
prevenindo infecções urinárias, e evitar a penetração
de toxinas urinárias ou de outros produtos presentes na urina que
sejam agressivos ao tecido vesical. A causa primária desta deficiência
das GAGs ainda não está elucidada, entretanto Moskowitz
et al. (13) e Bushman et al. (14), em 1994, demonstraram, respectivamente,
que alterações da glicoproteína GP1 da superfície
de mucina e anomalias do DNA do epitélio vesical estariam envolvidas
neste defeito da camada protetora da bexiga.
Quanto à presença de mastócitos
nos processos inflamatórios, tidos antigamente como patognomônicos
da CI, já se tem demonstrado sua presença em diversas outras
doenças (15). Entretanto, ocorre infiltrado mastocitário
comprovado em 20% das cistites intersticiais não ulceradas e em
60% daqueles com úlcera de Hunner (3). A importância deste
fenômeno é que a histamina liberada pela de granulação
dos mastócitos provoca hipercontratilidade detrusora, hiperemia
e fibrose na bexiga. Atualmente, considera-se que a mastocitose deva estar
envolvida na patogênese da CI, embora não seja patognomônica,
será identificada num subgrupo bem definido destes pacientes (3,15),
visto que a CI é considerada uma síndrome causada por vários
fatores.
A teoria auto-imune na CI ainda não
está definida, podendo ser apenas um fator secundário e
circunstancial na opinião de diversos autores, com destaque para
os estudos de Anderson (16) & Miller (17). Porém é importante
dar ênfase à associação da CI com doenças
auto-imunes, tais como lúpus eritematoso e esclerodermia, onde
a CI é 20 a 30 vezes mais prevalente do que na população
em geral (18).
As alterações neurológicas,
psicológicas e hormonais na mulher podem constituir outros fatores
envolvidos na etiopatogenia da CI, ainda que necessitem de um número
maior de pesquisas que comprovem estes fatos (3).
Diagnóstico
Na atualidade, o diagnóstico da CI
é feito por exclusão de outras doenças vesicais ou
das estruturas pélvicas relacionadas. Deve-se considerar o quadro
clínico já mencionado, persistente, mesmo após algumas
tentativas frustradas de tratamento e os critérios do Instituto
Nacional de Diabetes, Doenças Digestivas e Renais (NIDDK). Após
uma proposta inicial em 1987, o NIDDK realizou vários seminários
objetivando estabelecer critérios de consenso para o diagnóstico
da CI, sendo definidos em 1988 como são relatados a seguir (3,19):
Critérios
de Inclusão
Glomerulações e/ou úlcera de Hunner à cistoscopia
com hidrodistensão, dor associada ao enchimento vesical e urgência
miccional.
Critérios
de Exclusão
1)- Capacidade da bexiga acima de 350 ml à cistometria
2)- Ausência de forte desejo de urinar com mais de 150 ml à
cistometria
3)- Demonstração de contrações não
inibidas à cistometria
4)- Duração dos sintomas menor que 9 meses
5)- Ausência de noctúria
6)- Alívio dos sintomas com antibióticos, anti-sépticos,
anticolinérgicos ou anti-espasmódicos
7)- Freqüência urinária diurna menor que 8 vezes
8)- Diagnóstico de cistite bacteriana ou prostatite no período
de 3 meses
9)- Cálculo vesical ou ureteral
10)- Herpes genital ativo
11)- Câncer do útero, colo uterino, vagina ou uretra
12)- Divertículo uretral
13)- Cistite química ou pela ciclofosfamida
14)- Cistite tuberculosa
15)- Cistite actínica
16)- Tumores benignos ou malignos da bexiga
17)- Vaginites
18)- Idade inferior a 18 anos
Estes
critérios têm sido considerados úteis para uniformizar
pesquisas e comparar resultados, porém são muito rígidos
para serem aplicados na prática clínica. O grupo de estudos
do Banco de Dados da Cistite Intersticial (ICDB), Hanno et al. (19) têm
aconselhado uma análise mais flexível e menos rigorosa dos
dados, podendo-se assim diagnosticar casos mais brandos e tratá-los
com melhores resultados.
O exame físico ajuda pouco, revelando
o sítio da dor apenas em alguns casos. Os exames de urina, urocultura,
citologia oncótica e ultra-sonografia são sempre solicitados
na avaliação subsidiária. Um diário miccional
por 3 dias é importante, no qual o paciente deve anotar o volume
e o número das micções, pois, além de ajudar
no diagnóstico, facilita o controle do tratamento (20).
O estudo urodinâmico revela hipersensibilidade
vesical, sensação de dor, desconforto hipogástrio
ou vaginal e forte desejo de urinar, com enchimento ao redor de 100 ml.
Estes sintomas são mais intensos com a distensão vesical
progressiva, sem a presença de instabilidade detrusora e de déficit
de complacência, porém com capacidade máxima abaixo
de 350 ml em mais de 90% dos pacientes (3,20).
A cistoscopia com hidrodistensão
e biópsia, sob sedação, constitui-se em eficiente
método diagnóstico. A cistoscopia poderá revelar
a úlcera de Hunner que ocorre na freqüência de 6 a 8%
(20) e possíveis cicatrizes de biópsias anteriores. A hidrodistensão
é feita com infusão lenta de soro fisiológico colocado
a uma altura de 80 a 100 cm do púbis até atingir a distensão
máxima da bexiga, devendo permanecer assim por 2 a 5 minutos (3,20).
Anota-se o volume e a seguir faz-se o esvaziamento sob visão endoscópica
direta. O volume vesical dos pacientes com CI e sob sedação
poderá atingir 800 a 1.100 ml (4), mesmo com a referência
de urinar em média 120 ml e a cistometria registrar tolerância
inferior a 350 ml. A visualização da úlcera de Hunner
e/ou glomerulações difusas em pelo menos 3 quadrantes da
mucosa vesical, mesmo não sendo específicas, na prática
definem o diagnóstico de CI (3). A intensidade dessas lesões
é inversamente proporcional à capacidade vesical, tanto
na cistometria quanto na cistoscopia sob sedação (4). A
biópsia deve ser feita após a hidrodistensão, não
apresentando alterações específicas e mesmo sendo
normal não afasta a CI. Por outro lado, pode revelar carcinoma
in situ em alguns pacientes.
Na investigação diagnóstica,
às vezes, as avaliações ginecológica e neurológica
são importantes, e podem identificar doenças que simulam
a CI tais como: endometriose, cervicite, vulvodinia, neuropatias, tumores,
etc.
A avaliação psicológica
em alguns casos é de grande valia para o diagnóstico e para
a orientação terapêutica.
Tratamento
O objetivo da terapia da CI é sintomático
e não curativo, já que na maioria das vezes o agente etiológico
não é encontrado. Como orientações gerais,
recomenda-se que o paciente controle o estresse, faça exercícios
de relaxamento, banhos quentes e mantenha sua atividade habitual. Na dieta
devem ser evitados cafeína, alcoólicos, alimentos ácidos
ou condimentados e indicar uma leve alcalinização do pH
da urina.
Em alguns casos, a hidrodistensão
diagnóstica associada à biópsia em 4 pontos aleatórios
promove benefícios sintomáticos iniciais. Mas a hidrodistensão
terapêutica deve ser feita em média por 8 minutos e a remissão
ou alívio dos sintomas pode chegar até 50% dos casos nos
3 meses seguintes (3). Para os casos de recidiva ou para os de grande
desconforto inicia-se a terapia medicamentosa. Indica-se a amitriptilina
na dose de até 75 mg administrada em uma vez à noite, conforme
a necessidade, associada ou não a 5 mg de diazepínico pela
manhã. A amitriptilina possui algumas propriedades importantes:
ação anticolinérgica central e periférica;
bloqueio pré-sináptico reduzindo a liberação
de serotonina e noradrenalina; efeito sedativo central e anti-histamínico.
Alguns autores relataram bons resultados em 60% a 90% dos casos, obtidos
a partir de 4 a 8 semanas de tratamento (21).
A hidroxizina (antagonista H-1) é
um anti-histamínico eficiente na dose inicial de 25 mg e conforme
a aceitação poderá ser utilizada até 75 mg,
sendo 25 pela manhã e 50 à noite. Os benefícios podem
ser observados em 25% a 50% dos casos (3), em 4 a 6 semanas, sobretudo
se for associado a anticolinérgicos como oxibutinina ou tolterodina.
O polissulfato de pentosano sódico
(Elmiron), medicamento sintético similar aos GAGs, constitui eficiente
opção na terapia da CI e já foi liberado pelo FDA.
Está amplamente testado com resultados recentemente publicados
por Ho e Parsons (22) , na dosagem de 100 mg, 3 vezes ao dia, promovendo
cura ou alívio importante em 55% dos casos, sem efeitos colaterais
significativos.
A L-arginina, favorecendo a síntese
do óxido nítrico (miorelaxante), foi recentemente testada
na dosagem de 1.500 mg ao dia e proporcionou 30% de melhora dos sintomas
(23).
Analgésicos simples, opiáceos,
antinflamatórios, anti-espasmódicos e anticolinérgicos
usuais não têm eficácia terapêutica na CI.
A terapia intravesical como segunda linha
de opções tem boa indicação na falha da terapia
oral. Atualmente o produto mais indicado é o dimetilsulfóxido
(DMSO), com propriedades antinflamatórias, analgésicas,
anti-histamínicas e atravessa a membrana mucoepitelial, agindo
na dissolução do colágeno e relaxando o detrusor.
O método consiste em introduzir por cateter vesical 50 ml da solução
a 50%, por 15 minutos, uma vez por semana durante 6 semanas, quando os
resultados deverão ser avaliados e se positivos, o procedimento
deverá ser repetido mensalmente por 4 a 6 meses. Os resultados
são satisfatórios em 55% dos casos aproximadamente, mas,
existem publicações de até 90% de cura ou alívio
dos sintomas, sobretudo, se associado à solução de
heparina, esteróides ou bicarbonato de sódio (3,20).
Se ao longo do tempo houver fracasso terapêutico
com as medidas anteriores, iniciam-se as opções de terceira
linha, onde na maioria das vezes a doença já se encontra
em evolução crítica. O oxicloroseno sódico
(Cloropactin WCS-90) é uma droga para instilação
vesical, devendo ser aplicada sob rigorosos cuidados e anestesia, pois
é agressiva e dolorosa, sendo poucas vezes utilizada, visto que
pode promover acentuados efeitos colaterais e seus resultados são
duvidosos. Para sua aplicação, deve-se introduzir a sonda
de Foley com o balão tracionado sobre o colo vesical para impedir
o extravasamento, depois injetam-se 200 ml da solução a
0.4% que devem permanecer na bexiga por 15 a 25 minutos. Após retirar
o medicamento pela sonda, a bexiga deve ser irrigada com soro fisiológico
por algumas horas e o paciente recebe alta, permanecendo com a sonda por
1 a 2 dias. Apesar da piora inicial, 50% referem alguma melhora após
4 a 6 semanas (3,20).
A lidocaína e outras drogas tais
como BCG, doxorubicina, capsaicina, cromolyn sódico, etc., estão
ainda em fase experimental.
Quando a evolução é
precária, deve-se considerar a opção cirúrgica:
fulguração ou RTU das úlceras de Hunner; derivação
urinária; cistectomia supratrigonal que muitas vezes fracassa ou
cistectomia total, um método de exceção definitivo
e eficiente (3).
PROSTATODINIA
Esta
patologia, que hoje tende a ser classificada como quadro clínico
indistingüível ou semelhante à prostatite não
bacteriana, é quase sempre lembrada na SDPC do homem. É
a patologia prostática mais diagnosticada, representando aproximadamente
95% dos quadros de prostatite (1,24). A prostatodinia caracteriza-se por
queixa persistente de urgência urinária, disúria,
redução do jato urinário, dor à ejaculação
e desconforto ou dor uretral (peniana), além de dor perineal, suprapúbica,
sacral e virilha, podendo estes sintomas dolorosos apresentarem-se isolados
ou associados. Habitualmente é uma condição pouco
compreendida, porque os sinais e sintomas não são característicos
e freqüentemente é tratada de modo inadequado, podendo causar
desconforto tal em alguns pacientes que prejudica sua qualidade de vida.
Em geral, estes pacientes são ansiosos primária ou secundariamente,
em razão da dificuldade diagnóstica e freqüente insucesso
terapêutico. Entretanto, a fisiopatologia da prostatodinia e/ou
prostatite não bacteriana tem novos conceitos que esclarecem melhor
a etiopatogenia desta doença, e permite uma abordagem mais adequada,
tornando possível se não a cura destes pacientes, pelo menos,
o alívio de sua sintomatologia. Este fato se deve em especial ao
NIDDK que criou em 1995 um grupo de estudos multicêntrico nos EUA
denominado Chronic Prostatitis Collaborative Research Network (CPCRN).
Eles publicaram recentemente um trabalho profundo e amplo, criando um
índice e um escore de sintomas envolvendo 3 aspectos: dor, função
miccional e qualidade de vida (25). Outros estudos deverão avaliar
sua aplicabilidade clínica, colaborando para melhor orientação
a nossos pacientes.
Etiopatogenia
As pesquisas desde a década de 70
foram exaustivas em múltiplos centros, procurando evidenciar a
presença de bactérias desconhecidas nos pacientes com prostatodinia.
De la Rosette et al., em 1992, tratando com antibioticoterapia 409 casos
de prostatodinia demonstraram alívio dos sintomas em 36% dos pacientes
e cura em 24% (26). No entanto, aqueles pacientes que não receberam
antibióticos tiveram resultados semelhantes: 32% melhoraram e 30%
estavam curados, no mesmo período de observação.
Os estudos de Doble et al. (27) apontaram falhas na metodologia dos trabalhos
anteriores e com investigação mais apropriada não
demonstraram a existência de qualquer tipo de bactéria envolvida
na etiologia da prostatodinia. A tendência moderna é validar
estas conclusões, porém outros estudos continuam buscando
possíveis bactérias desconhecidas relacionadas à
prostatodinia.
Na atualidade, a etiologia da prostatodinia
mais aceita é a prostatite química, assim denominada por
Meares (24). O mecanismo proposto relaciona-se com aumento da pressão
da uretra posterior, provocando o refluxo da urina para os canalículos
prostáticos e para o conduto ejaculador, podendo atingir as vesículas
seminais, deferentes e epidídimos. Deste modo, além do desconforto
pela distensão dos canais seminíferos pode ocorrer a agressão
química aos tecidos. Este mecanismo é comprovado pela video-urodinâmica
e também foi demonstrado de modo irrefutável por Kirby et
al. (28) que instilou solução de partículas de carbono
na bexiga de 10 pacientes que iam ser submetidos à RTU da próstata
e na bexiga de cinco homens com prostatodinia. Após 3 dias, o carbono
foi encontrado no tecido prostático de 70% dos pacientes submetidos
à RTU e nos macrófagos da secreção prostática
de 100% daqueles com prostatodinia.
Este refluxo de urina também justificaria
muitos casos de calculose próstato-vesicular associados à
prostatodinia. Ramirez et al. (29) fez um estudo com análise cristalográfica
de vários casos de cálculos prostáticos e encontrou
componentes exclusivamente urinários tais como: uratos, fosfatos
e cistina. As obstruções totais ou parciais dos canalículos
e ductos seminais, primárias ou secundárias a inflamações,
cistos ou cálculos também podem causar a prostatodinia (24).
As causas imunológicas e alérgicas,
isoladas ou associadas ainda carecem de mais pesquisas e melhor esclarecimento.
Miller et al. (30), partindo da idéia de que a CI é causa
freqüente de mialgia pélvica ou SDPC na mulher, fizeram um
estudo interessante: selecionaram 20 homens com prostatodinia e neles
fizeram a cistoscopia com hidrodistensão e biópsias randomizadas.
Petéquias ou glomerulações na mucosa foram desenvolvidas
em 12 casos (60%) e as biópsias foram inespecíficas. Estes
pacientes evidenciaram nítida melhora dos sintomas apenas com a
hidrodistensão diagnóstica. Fizeram, então, a analogia
entre CI e prostatodinia por apresentarem sintomatologia e possível
mecanismo etiopatogênico semelhantes incidindo em órgãos
distintos. Recentemente, o estudo de Berger et al. (31) com 60 casos de
prostatodinia e o trabalho de Novicki et al. (5) com 29 casos de CI em
homens comprovaram também como esses quadros clínicos são
parecidos, induzindo a confusões diagnósticas e erros terapêuticos.
Alguns pesquisadores vêm tentando
comprovar o envolvimento neurológico do plexo hipogástrico
inferior e do nervo pudendo associado ou não a alterações
ortopédicas na região sacro-coccígea (2). Estas neuropatias
podem desencadear um quadro clínico semelhante ao da prostatodinia,
porém, ainda hoje existe dificuldade de precisar este diagnóstico.
Em alguns casos, a eletromiografia pode registrar espasmos do esfíncter
externo ou do assoalho pélvico e, em outros, mais raramente, a
ressonância magnética pode demonstrar a presença de
cistos meningeais e meningeomas de medula lombo-sacra. A osteíte
púbica que não é tão infreqüente nos
esportistas, também pode mimetizar os sintomas de prostatodinia
(32).
Finalmente existe quase uma unanimidade
entre os pesquisadores e urologistas quanto à interferência
decisiva do fator psicossomático. O estresse ou perturbações
psiquiátricas podem ser os agentes primários que determinam
as alterações urodinâmicas já mencionadas ou
agir secundariamente sobre as doenças pélvicas existentes,
intensificando ou perpetuando a sintomatologia. Berghuis et al. (33) identificou
a presença de angústia e depressão em aproximadamente
60% dos pacientes portadores de prostatodinia.
Diagnóstico
Na avaliação diagnóstica
da prostatodinia, o exame físico da próstata freqüentemente
é normal e, às vezes, há referência de dor
prostática de intensidade variada. Alguns casos apresentam pequeno
aumento de leucócitos, mas não se detecta supuração
ou bactérias no exame da secreção prostática
ou na urina colhida após massagem da próstata.
A ultra-sonografia transretal da próstata
e a ressonância nuclear magnética, poucas vezes solicitada,
além de revelarem a próstata normal, são úteis
para afastar a presença de outras patologias associadas.
A cistoscopia pode revelar esfíncter
externo espástico, hipertrofia do colo vesical, graus variados
de trabeculação vesical e ausência de outras patologias
vésico-prostáticas. Nos casos em que houver dúvida
da presença de CI, deve ser indicada também a hidrodistensão
diagnóstica.
A avaliação urodinâmica
ou a video-urodinâmica, são consideradas muito importantes
para o diagnóstico da prostatodinia. Os achados principais são
a redução do fluxo urinário, relaxamento incompleto
do colo vesical e uretra prostática, pressão máxima
de oclusão uretral anormalmente elevada em repouso, abertura parcial
do esfíncter externo durante a micção e refluxo prostático
ou para o ducto ejaculador registrados pelo vídeo.
A investigação neurológica
deve ser indicada nos casos suspeitos de presença de neuropatias.
A avaliação psicológica é muito importante
num subgrupo de pacientes, já que alterações emocionais
são constatadas com muita freqüência (33).
Tratamento
As novas perspectivas para o tratamento
da prostatodinia fundamentam-se nos novos conhecimentos, sobretudo nos
diagnósticos diferenciais e no planejamento terapêutico multidisciplinar.
Alguns autores ainda recomendam o uso de
pelo menos um ciclo de 20 a 30 dias de antibióticos (quinolonas
ou sulfas), face aos 60% de melhora ou cura já mencionados (26),
entretanto não há base científica para tal procedimento.
Existe um consenso na literatura e também é nossa opinião
que se faça uma adequada investigação da condição
clínica em cada caso estudado e, nessa condição,
devem-se escolher os medicamentos mais apropriados. Em razão das
alterações urodinâmicas descritas, o tratamento deve
ser iniciado com um bloqueador alfa-adrenérgico por 6 meses tal
como a doxazosina 4 mg ou a tansulosina 0.4 mg em dose única diária.
A associação de ibuprofem 600 mg 3 a 4 vezes ao dia, por
7 a 10 dias, promove um alívio mais rápido dos sintomas
(24). Se houver reincidência do quadro clínico, a medicação
deverá ser repetida, toda vez que for necessário. Em pacientes
estressados e portadores de mialgia tensional do assoalho pélvico,
o diazepam 5 mg 3 vezes ao dia ou a amitriptilina 25 mg 2 a 3 vezes ao
dia, proporciona bons resultados e poderá ser prescrito isoladamente
ou associado aos alfa-bloqueadores (24). Medidas simples como banhos quentes
e exercícios de relaxamento podem ajudar. Se não houver
sucesso e na possibilidade do fator neurogênico estar presente,
os neurologistas aconselham técnicas de biofeedback, eletro-estimulação
ou modulação mioneural, até ser conseguido o equilíbrio
tensional do assoalho pélvico (2).
É imprescindível conscientizar
sempre os pacientes de que eles não são portadores de doença
grave, apesar da frustração de alguns tratamentos mal sucedidos.
Outra atitude importante é indicar a psicoterapia objetiva ou de
suporte toda vez que for necessário.
SÍNDROME
URETRAL
A
síndrome uretral (SU) é outro quadro crônico bem definido
de expressão dolorosa pélvica identificada principalmente
na mulher. Foi conceituada pela primeira vez em pacientes que além
dos sintomas dolorosos apresentavam polaciúria, disúria,
urgência e hesitância miccional e nos quais não se
definiu qualquer patologia urológica (3). A SU também pode
ser episódica e a literatura refere que pelo menos uma vez por
ano aproximadamente 25% das mulheres apresentam sintomas irritativos vésico-uretrais
transitórios, sendo a análise de urina e a urocultura normais
(3,34).
Para alguns autores a SU apresenta quadro
clínico sobreposto à CI, podendo mesmo ser seu estágio
inicial (3,34). Desta forma existe na SU, tal qual na CI, a mesma complexidade
de compreensão da etiopatogenia e as mesmas dificuldades diagnósticas
e terapêuticas.
Etiopatogenia
A etiologia da SU ainda permanece indefinida.
Diversos autores tentaram e não conseguiram demonstrar a teoria
infecciosa nos casos crônicos (3). As investigações
visaram identificar microrganismos habitualmente não detectados
como a clamídia, micoplasma, gonococo, tricomonas, fungos e herpes
genital determinantes de possíveis uretrites.
A teoria obstrutiva é a que tem mais
defensores, porém sem existir ainda uma consistência científica
na avaliação de Hanno (3). A fibrose periuretral com acúmulo
de colágeno e perda das fibras musculares como causa de obstrução
infravesical, ainda não foi comprovada. A estenose uretral na mulher
é rara, e a obstrução dinâmica em razão
da hipertonia esfincteriana, facilmente demonstrável pela urodinâmica,
poderia sugerir o envolvimento neurogênico na SU. Entretanto estas
alterações sofrem influência da ação
voluntária e, assim, a interpretação destes dados
fica comprometida.
Como em outras síndromes dolorosas,
na ausência de patologias orgânicas demonstráveis,
a teoria psicogênica é sempre considerada. Baldoni et al.
(35) demonstraram alta incidência da SU em pacientes ansiosos, depressivos,
histéricos, hipocondríacos e nos submetidos a altos níveis
de estresse.
Diagnóstico
Por ser doença de exclusão,
o diagnóstico é feito com base na sintomatologia já
mencionada e afastando outras doenças urinárias por meio
de exames de urina, citológico, ultra-sonografia, cistografia,
urodinâmica e cistoscopia.
Os exames laboratoriais habitualmente são
normais e a ultra-sonografia exclui algumas doenças urológicas,
evidenciando volume vesical normal. A cistografia na fase miccional pode
revelar divertículo uretral e estenose da uretra ou do meato uretral,
simulando os sintomas da SU.
A cistoscopia simples pode excluir patologias
uretrovesicais e a cistoscopia com hidrodistensão, sob sedação,
é indicada nos casos crônicos e resistentes ao tratamento
inicial, pois, às vezes, revela alterações inerentes
à CI já descritas.
O estudo urodinâmico ou video-urodinâmico
na SU demonstra os seguintes dados: pressão máxima de fechamento
uretral instável e elevada, baixo fluxo urinário, abertura
incompleta do colo vesical, calibre da uretra distal reduzido durante
a micção, ausência de discinergia vésico-esfincteriana
e capacidade funcional da bexiga normal (36). Estas alterações
típicas da SU e semelhantes às da Pd definem o diagnóstico
diferencial com a CI. A eletromiografia quando realizada concomitante
ao estudo urodinâmico ou, eventualmente, na avaliação
neurológica, pode registrar contrações espásticas
da musculatura estriada do assoalho pélvico ou do esfíncter
uretral, presentes em algumas neuropatias (36).
As avaliações ginecológica
e psicológica sempre que necessário também são
importantes.
Tratamento
Na estratégia do tratamento desta
síndrome, recomenda-se iniciar com medidas conservadoras e só
após o fracasso destas, avaliar a necessidade de métodos
invasivos.
Diversos autores aconselham (3), para casos
recentes ou ainda não tratados, um ciclo de antibioticoterapia
com doxiciclina, eritromicina, trimetoprim-sulfametoxazol ou metronidazol,
objetivando tratar eventuais bactérias não detectadas pelos
exames habituais. Em mulheres menopausadas a suplementação
estrogênica pode ser efetiva, mas é necessário cuidado
com uso rotineiro e persistente da estrogenoterapia local. Para os pacientes
nos quais a urodinâmica revele nítido aumento da pressão
uretral e colo vesical, a doxazosina 2 a 4 mg ao dia ou a tansulosina
0.4 mg ao dia, entre os diversos alfa-bloqueadores disponíveis,
promove a melhora do fluxo urinário com alívio da sintomatologia
(3). Se houver um nível de estresse significativo, a associação
do diazepam, de 5 a 15 mg ao dia, proporciona bom equilíbrio tensional
do assoalho pélvico. Nos casos de espasticidade do esfíncter
uretral e/ou hiperatividade do assoalho pélvico, deve-se indicar
um agente miorrelaxante, tal como o baclofeno na dose inicial de 5 a 10
mg ao dia e aumento progressivo a cada 3 dias até atingir 10 mg
3 vezes ao dia. Ele atua como inibidor da contração do músculo
esquelético, diminuindo o espasmo do diafragma urogenital por ação
medular. Nestes pacientes, associar um diazepínico como já
descrevemos também é muito eficaz (2).
Para os casos de evolução
crônica, em que o quadro sintomático é semelhante
à CI ou à Pd nos homens, deve ser considerada a estratégia
terapêutica já descrita anteriormente para tais patologias,
com benefícios imprevisíveis, até por haver muitas
resoluções espontâneas.
Em razão da crença de que
a constrição por fibrose em torno da uretra distal era a
causa da SU, a dilatação uretral foi por muito tempo a principal
terapêutica urológica (3). Atualmente poucos serviços
ainda adotam este procedimento, pois não há base científica
para utilização de tal método.
Procedimentos cirúrgicos referidos
por Hanno (3) em sua revisão da literatura, como uretroplastia
externa da uretra distal, fulguração ou criocirurgia para
eliminar supostas uretrites, somente devem ser indicados em situações
extremas.
Os melhores resultados terapêuticos
ocorrem nas abordagens multidisciplinares, incluindo a psicoterapia, essencial
para muitos pacientes em que é notória a presença
do fator psicogênico (35).
ORQUIALGIA
A
dor crônica nos testículos, constante ou episódica,
sem causa orgânica definida, quase sempre é um problema de
difícil.
A incidência e a prevalência
deste problema são desconhecidas, mas a média de idade da
maioria dos pacientes é ao redor dos 30 anos (37). A dor testicular
pode ser uni ou bilateral, pode estar circunscrita ao escroto ou irradiar-se
para a virilha, pênis, períneo, abdome, pernas ou dorso.
Em raros casos há referência de disfunção erétil
concomitante. A dor surge, em geral, espontaneamente, sem um fator desencadeante,
sobretudo se ela é primária. A orquialgia crônica
muitas vezes é secundária a várias doenças
que devem ser lembradas como hérnia inguinal, varicocele, hidrocele,
espermatocele, infecção crônica, processo inflamatório
traumático repetido do escroto (moto, bicicleta, cavalo, calça
apertada, etc.) e torção parcial do testículo. Também
poderá ocorrer no pós-operatório de cirurgias do
testículo e bolsa escrotal, inclusive vasectomia (37). Wesselman
et al. (2) revisou a literatura e citou outras doenças que podem
estar envolvidas na orquialgia: patologias ureterais distais; neuropatias
primárias do nervo ilio-inguinal, iliofemural ou do plexo hipogástrico
superior e inferior (nervos que suprem os componentes escrotais); neuropatias
dos nervos citados em razão de aneurisma da aorta ou da artéria
ilíaca comum; hérnias de disco; diabetes e 8% a 25% das
fibroses retroperitoniais abdomino-pélvicas. Os envolvimentos da
varicocele, hidrocele e espermatocele são questionáveis
e considerados achados coincidentes.
A história cuidadosa, o exame físico
geral e o exame urológico criterioso podem nos induzir ao diagnóstico.
Exames de Rx, ultra-som, tomografia e ressonância são importantes
para diagnosticar ou excluir algumas doenças pélvicas que
possam justificar a orquialgia.
Se apesar dessa ampla avaliação,
o diagnóstico primário não for feito e houver persistência
da dor, torna-se necessário uma detalhada avaliação
neurológica. No entanto, deve-se ter em mente que aproximadamente
25% dos pacientes continuarão sem diagnóstico etiológico
(2). A avaliação psicológica é fundamental,
pois com certa freqüência a etiologia pode ser excesso de estresse
e/ou fatores depressivos, que além da dor também influenciam
o comportamento e até a vida sexual dos pacientes.
O tratamento visa identificar a causa da
síndrome dolorosa e tratá-la adequadamente sempre que for
possível. Nos pacientes nos quais não se detecta a causa
primária, o urologista precisa tomar cuidado para não realizar
cirurgias desnecessárias que podem levar ao insucesso. Costabile
et al. (37) estudaram 48 pacientes com orquialgia crônica, nos quais
já tinham sido feitas 74 cirurgias, ou seja, em média 1.6
cirurgias por paciente sem sucesso. As cirurgias foram: epididimectomia
em 11, varicocelectomia em 11, exploração inguino-escrotal
em 10, orquiectomia em 10, vasectomia em 9, herniorrafia inguinal em 7,
ressecção transuretral da próstata ou colo vesical
em 3 e outros procedimentos (não especificados) em 13.
Antes de qualquer medida invasiva e irreversível,
deve-se tentar o tratamento clínico. O uso de antibióticos
e antinflamatórios não tem base clínica e não
leva a bons resultados. A indicação mais apropriada são
os anti-depressívos, ansiolíticos ou opiáceos com
resultados satisfatórios. Nos pacientes em crise dolorosa não
controlável, pode-se optar pelo bloqueio lombar simpático
ou do cordão espermático com anestésico local. O
bloqueio lombar simpático é indicado ocasionalmente e pode
ser realizado por especialista em caráter ambulatorial (38). O
bloqueio do cordão espermático é mais habitual e
facilmente realizado ambulatorialmente pelo urologista, injetando cerca
de 5 ml de cloridrato de bupivacaína a 0.5% sem vasoconstritor,
associado ou não a 2 a 3 ml cloridrato de lidocaína a 2%,
sem vasoconstritor, no trajeto dos elementos do cordão. Mesmo sem
comprovação evidente, a associação de 40 mg
de metilprednisolona aos anestésicos citados parece proporcionar
resultados melhores e mais duradouros (39). Se não houver sucesso
com as terapias conservadoras seqüencialmente, indica-se a denervação
completa do cordão espermático, preferencialmente, por microcirurgia
(40). A denervação por via laparoscópica parece propiciar
os melhores resultados, de acordo com o estudo recente de Cadeddu et al.
(41). Epididimectomia e orquiectomia são medidas lembradas, porém
somente devem ser utilizadas como último recurso (37,39).
Finalmente, a psicoterapia é imprescindível
para o apoio terapêutico e para o alívio dos transtornos
depressivos em situações mais complexas.
DOR PENIANA
Contrastando
com a síndrome dolorosa crônica dos outros órgãos
genitais, a dor peniana crônica parece ser rara, quer seja primária
ou secundária. Existem poucas referências na literatura sobre
a dor crônica do pênis. Os episódios agudos são
mais freqüentes como conseqüência de diversas formas de
traumatismo, parafimose, priapismo, doença de Peyronie, herpes
genital e injeção de drogas por disfunção
erétil (42,43). Todos estes quadros, tratados ou não, raramente
se tornam crônicos. Entretanto, os pacientes com implante de prótese
peniana, que em geral evoluem com discreta dor transitória, poderão
sofrer de dor crônica em razão de rejeição
ao material ou por causa da deformidade da prótese (43). A hérnia
inguinal, provavelmente promovendo a irritação constante
do nervo ilio-inguinal que supre a base do pênis, é outra
causa possível de dor persistente (44). A dor peniana crônica
pode ser um sintoma associado às queixas de prostatodinia. Outras
causas possíveis são os traumatismos e inflamações
persistentes do nervo pudendo ou a existência de outras doenças
neurológicas regionais. O envolvimento específico de fatores
psicológicos é desconhecido, sendo pouco comum a coexistência
de disfunção erétil.
O diagnóstico da dor peniana crônica
visa a determinação da causa, pois o tratamento dela quando
identificada, em geral, soluciona o problema. Raramente há dificuldades
terapêuticas que exijam medidas drásticas como, eventualmente,
ocorrem nas demais doenças que ocasionam a síndrome da dor
pélvica crônica.
REFERÊNCIAS
- Collins
M, Stafford R, Barry M: How common is prostatitis? A national survey
of physician visits. J Urol, 159: 1224-1228, 1998.
- Wesselmann
U, Burnnet AL, Heinberg LJ: The urogenital and rectal pain syndromes.
Pain, 73: 269-294, 1997.
- Hanno
PM: Interstitial Cystitis and Related Diseases. In: Walsh PC, Retik
AB, Stamey TA, Vaughan ED, Wein JA (eds.). Campbells Urology.
Philadelphia, WB Sanders Company, pp. 631-652, 1998.
- Nigro
DA, Wein AJ, Foy M, Parsons CL, Williams M, Nyberg LM Jr., Landis R,
Cook YLM, Simon LJ, The ICDB Study Group: Associations among cystoscopic
and urodynamic findings for women enrolled in the interstitial cystitis
data base (ICDB) study. Urology, 49: 86-92, 1997.
- Novicki
DE, Larson TR, Swanson SK: Interstitial cystitis in men. Urology, 52:
621-624, 1998.
- Ratner
V, Taylor N, Wein AJ, Hanno PJ: Epidemiology of interstitial cystitis:
population based study (Letters to the Editor). J Urol, 162: 500, 1999.
- Curhan
GC, Speizer FE, Hunter DJ, Curhan SG, Stampfer MJ: Epidemiology of interstitial
cystitis: a population based study. J Urol, 161: 549-552, 1999.
- Berger
RE, Miller JE, Rothman I, Krieger JN, Muller CH: Bladder petechiae after
cystoscopy and hydrodistension in men diagnosed with prostate pain.
J Urol, 159: 83-85, 1998.
- Parsons
CL: The role of the glycosaminoglycan layer in bladder defense mechanisms
and interstitial cystitis. Int Urogynecol J, 4: 373-379, 1993.
- Maskell
R: Broadening the concept of urinary tract infection. Br J Urol, 76:
2-8, 1995.
- Naber
SP: Molecular Pathology: diagnosis of infections disease. N Engl J Med,
331: 1212-1215, 1994.
- Warren
JW: Interstitial cystitis as an infectious disease. Urol Clin North
Am, 21: 31-39, 1994.
- Moskowitz
MO, Byrne DS, Callahan HJ, Parsons CL, Valderrama E, Moldwin RM: Decreased
expression of a glycoprotein component of bladder surface mucin (GP1)
in interstitial cystitis. J Urol, 151: 343-345, 1994.
- Bushman
W, Goolsby C, Grayhack JT, Schaffer AJ: Abnormal flow cytometry profiles
in patients with intersticial cystitis. J Urol, 152: 2262-2266, 1994.
- Galli
SJ: New concepts about the mast cell. N Engl J Med, 328: 257-265, 1993.
- Anderson
JB, Parivar F, Lee G, Wallington AG, MacIver AG, Bradbrook RA, Gingell
JC: The enigma of the intersticial cystitis: an autoimmune disease?
Br J Urol, 63: 58-63, 1989.
- Miller
CH, Mac Dermott JP, Quattrocchi GA, Broderick GA, Stone AR: Lymphocyte
function in patients with intersticial cystitis. J Urol, 147: 592-595,
1992.
- Wroclawski
ER: Envolvimento vesical no lupus eritematoso sistêmico. (Tese
de Doutorado, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo),
1987.
- Hanno
PM, Landis JR, Matthews-Cook Y, Kuzek J, Nyberg L Jr., The Interstitial
Cystitis Database Study Group: The diagnosis of interstitial cystitis
revisited: lessons learned from the National Institutes of Health Interstitial
Cystitis Database study. J Urol, 161: 553-557, 1999.
- Bruschini
H, Simonetti R: Cistite intersticial. In: Schor N, Srougi M (eds.).
Nefrologia e Urologia Clínica. São Paulo, Savier, pp.
176-180, 1998.
- Hanno
PM: Amitryptiline in the treatment of interstitial cystitis. Urol Clin
North Am, 21: 89-92, 1994.
- Ho NJ,
Koziol JA, Parsons CL, Barlow W, Weis NS: Natural history of interstitial
cystitis in 274 patients receiving sulfated polysaccharide therapy.
Urology, 53: 1133-1139, 1999.
- Korting
CE, Smith SD, Wheeler MA, Weiss RM, Foster HE Jr.: Randomized double
-blind trial of oral L-arginine for treatment of interstitial cystitis.
J Urol, 161: 558-565, 1999.
- Meares
EM Jr.: Prostatitis and related disorders. In: Walsh PC, Retik AB, Stamey
TA, Vaughan ED, Wein JA (eds.). Campbells Urology. Philadelphia,
WB Sanders Company, pp. 618-628, 1998.
- Litwin
MS, McNaughton-Collins M, Fowler FJ, Nickel JC, Calhoun EA, Pontari
MA, Alexander RB, Farrar JT, OLeary MP, Chronic Prostatitis Collaborative
Research Network: National Institute of Health chronic prostatitis syndrome
index development and validation of new outcome measure. J Urol, 162:
369-375, 1999.
- De La
Rosette JJMCH, Hubregtse MR, Karhaus HFM, Debruyne FMJ: Results of a
questionnaire among Dutch urologists and general practitioners concerning
diagnostics and treatment of patients with prostatitis syndrome. Eur
Urol, 22: 14-19, 1992.
- Doble
A, Thomas BJ, Walker MM: The role of chlamydia trachomatis in chronic
abacterial prostatitis: a study using ultrasound guided biopsy. J Urol,
141: 332-337, 1989.
- Kirby
RS, Lowe D, Bultitude MI, Shuttleworth KED: Intra-prostatic urinary
reflux: an antibiological factor in abacterial prostatitis. Br J Urol,
54: 729-732, 1982.
- Ramirez
CT, Ruiz JA, Gomez ZA, Orgaz RE, Del Rio Samper S: Crystallographic
study of prostatic calculi. J Urol, 124: 840-843, 1980.
- Miller
JL, Rothman I, Bavendam TG, Berger RE: Prostatodynia and interstitial
cystitis: one and the same? Urology, 45: 587-589, 1995.
- Berger
RE, Miller JE, Rothman I, Krieger JN, Muller CH: Bladder petechiae after
cystoscopy and hydrodistension in men diagnosed with prostate pain.
J Urol, 159: 83-85, 1998.
- Buck
AC, Crean M, Jenkins IL: Osteitis pubis as a mimic of prostatic pain.
Br J Urol, 54: 741-744, 1982.
- Berghuis
JP, Heiman JR, Rothman I, Berger RE: Psychological and physical factors
involved in chronic idiopathic prostatitis. J Psychosom Res, 41: 313-325,
1996.
- Wilkins
EGL, Payne SR, Pead PJ, Moss ST, Maskell RM: Interstitial cystitis and
the urethral syndrome: a possible answer. Br J Urol, 64: 39-44, 1989.
- Baldoni
F, Baldaro B, Ercolani M, Emili E, Trombini G: Urethral syndrome: a
study in psychosomatic urology. Psychoter Psychosom, 52: 114-118, 1989.
- Barbalias
GA, Meares EM Jr.: Female urethral syndrome: clinical and urodynamic
perpectives. Urology, 23: 208-212, 1984.
- Costabile
RA, Hahn M, Macleod DG: Chronic orchialgia in the pain prone patient:
the clinical perspective. Am Urol Ass, 146: 1571-1574, 1991.
- Plancarte
RB, Velazquez R, Patt RB: Neurolytic Blocks of Sympathetic Axis. In:
Patt RB (eds.). Cancer Pain. Philadelphia, JB Lippincott Company, pp.
404-425, 1993.
- Yamamoto
M, Hibi H, Katsuno S, Miyake K: Management of chronic orchialgia of
unknown etiology. Int J Urol, 2: 47-49, 1995.
- Levine
LA, Matkov TG, Lubenou TR: Microsurgical denervation of the spermatic
cord: treatment of chronic orchialgia. J Urol, 155: 1005-1007, 1996.
- Cadeddu
JA, Bishoff JT, Chan DY, Moore RG, Kavoussi LR, Jarrett TW: Laparoscopic
testicular denervation for chronic orchialgia. J Urol, 162: 733-736,
1999.
- Godschalk
M, Gheorghiu D, Katz PG, Mulligan T: Alkalization does not aliviate
penile pain induced by intracavernous injection of prostaglandina E1.
J Urol, 156: 999-1000, 1996.
- Moncada
I, Hernández C, Jara J, Hernández L, Lafuente J, Lledó
E, Rodriguez E, Tejada IS: Buckling of cylinders may cause prolonged
penile pain after prosthesis implantation: a case control study using
magnetic resonance imaging of the penis. J Urol, 160: 67-71, 1998.
- Corder
AP: Penile pain and direct inguinal hernia. Br J Hosp Med, 42: 238,
1989.
_______________________
Received: February 1, 2000
Accepted after revision: November 13, 2000
_______________________
Correspondence address:
Dr. Arcílio De Jesus Roque
Alameda dos Jurupis, 455, Cj. 64 / 65
São Paulo, SP, 04088-001, Brazil
Fax: ++ (55) (11) 5052-1965
|