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LAPAROSCOPIC EVALUATION
AND TREATMENT OF THE IMPALPABLE TESTIS
FRANCISCO T. DÉNES,
FREDERICO A.Q. SILVA, AMÍLCAR M. GIRÓN, SAMI ARAP
Unit of Pediatric
Urology, Division of Urology, School of Medicine, State University of
São Paulo, São Paulo, SP, Brazil
ABSTRACT
Objectives:
To evaluate the laparoscopic technique as a diagnostic and therapeutic
tool in the management of patients with impalpable testis.
Material and Methods: Fifty-nine patients
with mean age of 6.3 years underwent laparoscopy to evaluate 85 impalpable
testes that were classified as absent, canalicular and intra-abdominal.
In the case of testicular absence, the procedure was terminated. In the
case of canalicular testis, open inguinal exploration was performed. In
intra-abdominal testis, either laparoscopic orchiopexy or orchiectomy
was performed. According to the length of the vascular pedicle, orchipexy
was performed either with or without vascular ligature. Post-operatively,
the treated testes were evaluated according to size and location in the
scrotum.
Results: Seventeen (20%) of the 85 impalpable
testes were diagnosed as absent, 21 (24.7%) as canalicular and 47 (55.3%)
as intra-abdominal. Of the canalicular testes, 20 were explored by inguinotomy
and one by laparoscopy. All the intra-abdominal testes were treated initially
by laparoscopy, four being removed due to atrophy, 31 submitted to vascular
ligature and 12 to primary orchipexy. Of those submitted to vascular ligature,
22 underwent a second stage orchipexy, of which 18 laparoscopically and
4 by inguinotomy. Of the 18 testes brought to the scrotum by staged laparoscopic
orchipexy, 15 (83.3%) presented normal characteristics in the late follow-up,
while of the 12 submitted to primary laparoscopic orchipexy, 8 (66.6%)
were normal. There were no perioperative or late complications.
Conclusions: Laparoscopy is a minimally
invasive procedure with low morbidity that enables precise diagnosis of
the impalpable testes. When intra-abdominal testes are found, either immediate
laparoscopic orchiectomy, or primary and staged orchipexy are possible,
with results equivalent to open procedures, with the advantage of smaller
surgical incisions and shorter postoperative recovery.
Key words:
testis;
cryptorchidism; laparoscopy; diagnosis; treatment
Braz J Urol, 27: 380-385, 2001
INTRODUÇÃO
Em
1976 Cortesi descreveu a laparoscopia para avaliação de
testículos impalpáveis, sendo esta técnica posteriormente
incorporada à rotina diagnóstica em casos de criptorquidia
(1,2). Em um trabalho pioneiro de grande repercussão internacional,
Castilho apresentou o método no nosso meio, ressaltando sua acurácia
e contribuindo para a sua divulgação (3). Em pouco tempo,
a laparoscopia deixou de ser exclusivamente diagnóstica, incorporando
técnicas para o tratamento dos testículos intra-abdominais,
que representam 10 a 20% dos casos de criptorquidia (4-7). Atualmente
é um procedimento preconizado não apenas para avaliar os
testículos impalpáveis, mas também para tratar, no
mesmo ato, aqueles eventualmente localizados na cavidade abdominal. Na
literatura nacional não existem relatos adicionais sobre o método,
razão pela qual julgamos oportuna a apresentação
de nossa experiência.
MATERIAL E MÉTODOS
A
laparoscopia diagnóstica foi empregada em 59 pacientes com testículos
impalpáveis, com idade variando entre 14 meses a 22 anos (média
de 6.3 anos). Vinte e seis apresentavam criptorquidia bilateral, 21 unilateral
esquerda e 12 unilateral direita, totalizando 85 testículos impalpáveis.
No pré-operatório, todos foram avaliados por pelo menos
2 examinadores em ocasiões diferentes, inclusive por ocasião
da anestesia, sendo critério de exclusão da casuística
a palpação do testículo em qualquer ocasião.
Três pacientes referiam cirurgias
prévias em outros serviços, exibindo cicatrizes de inguinotomia
(bilateral em 1 caso), porém os testículos eram impalpáveis.
Por falta de informações confiáveis sobre a primeira
cirurgia, foram incluídos na investigação.
Em alguns casos com criptorquidia bilateral,
foi feita avaliação laboratorial prévia, incluindo
dosagens de testosterona antes e após estímulo com gonadotrofina
coriônica, porém devido à inconsistência dos
resultados, esse exame não interferiu na seleção
dos pacientes, tendo sido abandonado. Em 11 foram realizados exames ultra-sonográficos,
que identificaram testículos na região inguinal em apenas
3 pacientes, que mesmo assim foram incluídos na casuística,
por não terem testículos palpáveis. Nenhum foi submetido
à tomografia computadorizada ou ressonância magnética.
Não houve limitação
etária para realização deste procedimento laparoscópico,
sendo que o paciente mais jovem tinha 14 meses de idade. Não houve
necessidade de cuidados pré-operatórios específicos.
A anestesia foi geral com entubação endotraqueal e sondagem
vesical e nasogástrica em todos os casos.
A técnica da laparoscopia exploradora
e os critérios de identificação e caracterização
do testículo foram detalhadamente descritos em publicações
anteriores, não variando com a idade e tamanho do paciente (4-8).
Baseado nesses critérios foram feitos os seguintes diagnósticos
laparoscópicos: a)- ausência testicular, decorrente de agenesia
testicular quando associada à ausência de deferente e vasos
espermáticos ipsilaterais, ou de evanescência, quando são
visualizados os vasos espermáticos e o deferente terminando em
fundo cego, podendo-se presumir a existência prévia da gônada,
que desapareceu devido à torção durante a vida fetal
b)- testículo canalicular, quando o testículo não
é localizado, mas os vasos e o deferente são visualizados
penetrando o anel inguinal interno, presumindo-se a existência de
um testículo localizado no canal inguinal, de palpação
dificultada por obesidade, atrofia ou evanescência c)- testículo
intra-abdominal, localizados e visualizados desde o pólo inferior
do rim até o orifício interno do canal inguinal, sendo caracterizados
morfologicamente, por seu tamanho e características visuais, como
normais ou atróficos. Eventualmente, na presença de uma
hérnia inguinal, alguns se insinuam para o interior do saco herniário
devido ao aumento da pressão intra-abdominal durante o procedimento,
sendo visibilizados apenas ao se comprimir externamente a região
inguinal, quando retornam para a cavidade abdominal. Nesta condição,
são denominados testículos escondidos ou peeping testes.
As condutas e técnicas terapêuticas
referentes a cada achado laparoscópico também foram descritas
previamente (6-9). Resumidamente, no caso de ausência, o procedimento
laparoscópico é encerrado, enquanto no caso de testículo
canalicular está indicada a exploração inguinal,
na qual eliminam-se os atróficos e relocam-se os preservados. No
caso de testículo intra-abdominal atrófico, realiza-se a
orquiectomia, porém se for morfologicamente preservado, está
indicada a orquiopexia. Ambas podem ser feitas com técnica laparoscópica,
sendo a última realizada com ou sem secção do pedículo
vascular, de acordo com a posição inicial do testículo
em relação ao orifício interno do canal inguinal
e comprimento dos vasos espermáticos. No caso de secção
vascular, a orquiopexia pode ser realizada no mesmo ato ou em etapa posterior,
após 6 meses (9).
Após o tratamento cirúrgico
definitivo, os pacientes foram seguidos ambulatorialmente por período
que variou de 2 a 63 meses (média de 17.7 meses), sendo reavaliados
pela incidência de complicações peri ou pós-operatórias,
bem como pela localização, consistência e tamanho
dos testículos intra-abdominais relocados para o escroto. Estes
últimos dados foram obtidos por meio de palpação
seqüencial, pela qual os testículos foram classificados em
normais, quando de tamanho e consistência preservadas e bem localizados
no escroto, atróficos quando de tamanho ou consistência diminuídos
e mal posicionados, quando de localização alta, mas de bom
tamanho.
RESULTADOS
Os
achados da laparoscopia diagnóstica estão apresentados na
Table-1. Em 3 pacientes com criptorquidia bilateral, o diagnóstico
dos testículos não foi coincidente, razão pela qual
estão listados na coluna da esquerda. Nos 23 pacientes na coluna
da direita, ambos os testículos tinham o mesmo diagnóstico.
A conduta terapêutica está
apresentada na Table-2. Em 25.4% dos pacientes (20% dos testículos
impalpáveis) com diagnóstico de ausência testicular
(4 com agenesia e 11 com evanescência), interrompeu-se o procedimento
laparoscópico, sendo os pacientes poupados de exploração
adicional desnecessária. Em 12 desses pacientes, já de maior
idade, foi feita inserção de prótese testicular.
Entre os 27.1% dos pacientes (24.7% dos testículos impalpáveis)
nos quais diagnosticou-se testículo canalicular, em um foi possível
realizar a orquiectomia por laparoscopia, dissecando-se o cordão
espermático pelo anel inguinal. Nos outros casos, encerrou-se a
laparoscopia e realizou-se a inguinotomia exploradora. Em 5 destes pacientes
foram detectados testículos viáveis, imediatamente relocados
ao escroto. Em outros 3 pacientes foram encontradas gônadas atróficas,
que foram removidas. Nos restantes, não se encontraram vestígios
testiculares. Seis pacientes desse grupo foram submetidos a implante de
prótese.
Em 47.5% dos pacientes (55.3%dos testículos
impalpáveis) nos quais foram identificados testículos intra-abdominais,
o tratamento variou de acordo com a morfologia e localização
dos mesmos. Quatro testículos de 3 pacientes (bilateral em um caso)
eram atróficos, sendo removidos laparoscopicamente no mesmo ato.
Nos 43 restantes foi indicada a orquiopexia: em 31 testículos de
19 pacientes optou-se pela técnica estagiada, realizando-se a ligadura
vascular no mesmo ato. Subseqüentemente, 22 destes testículos
(de 15 pacientes) foram submetidos a orquiopexia em um segundo tempo,
6 ou mais meses mais tarde, dos quais 4 (de 3 pacientes) por cirurgia
aberta e 18 (de 12 pacientes) por laparoscopia. Quatro pacientes com ligadura
vascular de ambos testículos e outro com ligadura unilateral não
se submeteram à orquiopexia, sendo 2 por abandono e 3 por não
terem completado o período de espera para realização
do segundo tempo. Os outros 12 testículos (de 11 pacientes) foram
submetidos a orquiopexia primária laparoscópica, dos quais
apenas um com secção vascular.
Na avaliação tardia dos testículos
submetidos à orquiopexia, dos 22 levados ao escroto em 2 tempos,
16 (86.4%) estavam com tamanho preservado e localizados no escroto, e
apenas 3, submetidos ao segundo tempo laparoscópico, evoluíram
para atrofia. Quando se consideram apenas os tratados com segundo tempo
também por via laparoscópica, a porcentagem cai para 83.3%.
Entre os 12 testículos tratados por orquiopexia laparoscópica
primária, 8 (66.7%) estavam tópicos e normais, enquanto
3 evoluíram para atrofia, incluindo o que foi submetido à
ligadura do pedículo vascular, e um, de bom tamanho, não
ficou adequadamente posicionado no escroto, por falha na fixação
escrotal (Table-3).
Nenhum dos pacientes submetidos à
laparoscopia diagnóstica e terapêutica apresentou complicação
intra-operatória, não tendo havido necessidade de conversão
para cirurgia aberta ou transfusão sanguínea. A recuperação
pós-operatória foi normal em todos os casos, com realimentação
no mesmo dia. A alta hospitalar ocorreu em geral no primeiro dia de pós-operatório,
retardando-se para o segundo no caso de orquiopexia. Os pacientes foram
medicados rotineiramente com antibiótico, acrescentando-se analgésicos
e antiinflamatórios apropriados para a idade, conforme necessidade.
Em nenhum paciente foi observada complicação nas feridas
operatórias, incluindo as dos trocares abdominais e escrotais.
Tampouco foi observada hérnia inguinal ou incisional no pós-operatório
tardio.
DISCUSSÃO
As
justificativas do tratamento do testículo criptorquídico
são bem conhecidas, estando relacionadas com o aspecto cosmético,
a perda da capacidade germinativa e possibilidade de malignização.
Esta última é particularmente importante no caso dos testículos
impalpáveis, pela associação freqüente com displasia.
Atualmente recomenda-se que a identificação
e tratamento dos testículos criptorquídicos seja feita antes
dos 2 anos de idade (5). Entretanto, em nosso meio é freqüente
a consulta inicial de pacientes criptorquídicos com mais idade,
o que explica a idade média elevada de nossos pacientes.
No caso dos testículos impalpáveis,
inúmeros testes são empregados para diagnosticar a presença
ou ausência dos testículos e permitir um adequado planejamento
cirúrgico, e evitar cirurgias desnecessárias no caso de
ausência dos mesmos. No caso de criptorquidia bilateral impalpável,
o teste de estimulação com gonadotrofina coriônica
pode ter utilidade. No entanto, seus resultados não são
definitivos, pois a resposta positiva, com aumento dos níveis de
testosterona sérica, embora confirme a existência de pelo
menos uma gônada, não caracteriza seu número nem define
o lado. Além disso, a resposta negativa, embora sugestiva de ausência,
não elimina a possibilidade da presença de uma gônada
displásica (6,10).
A ultra-sonografia tem sensibilidade de
90 a 95% nos testículos de posição intracanalicular
ou pré-pubiana, porém nos intra-abdominais a sensibilidade
é de 0 a 9%. Por outro lado, também ocorrem falsos positivos,
pela presença de gânglios inguinais erroneamente interpretados
como gônadas (6,9,10).
A tomografia computadorizada e a ressonância
magnética têm melhor capacidade de identificação
de testículos intra-abdominais, porém a freqüência
de falsos negativos com estes exames ainda é alta, particularmente
em crianças menores, com pouca gordura retroperitoneal (9,10).
A angiografia por ressonância magnética
com gadolínio, recém introduzida, apresenta resultados promissores,
possibilitando a identificação do testículo pela
caracterização dos vasos espermáticos. Apresenta
sensibilidade de 96% e especificidade de 100% tanto para testículos
intra-abdominais como canaliculares, porém é um exame que
exige sedação, além de ser muito caro e não
rotineiro em nosso meio (10).
A orquiopexia de testículos palpáveis
é preferencialmente realizada através da inguinotomia. A
rigor, este acesso também pode ser empregado para explorar e tratar
testículos impalpáveis, porém a falta de informações
pré-operatórias sobre a presença, localização
e características do testículo pode levar a incisões
e dissecções extensas, eventualmente desnecessárias,
particularmente no caso de bilateralidade.
A laparoscopia é um procedimento
diagnóstico, que embora seja invasivo, tem caráter de mínima
agressividade, fornecendo o diagnóstico preciso da presença
ou não do testículo, sua localização e morfologia.
No caso de bilateralidade, ambos testículos podem ser avaliados
sem necessidade de punções adicionais.
Em 25.4% dos nossos pacientes, com diagnóstico
de ausência de testículo por agenesia ou evanescência,
a laparoscopia foi exclusivamente diagnóstica, poupando-os de inguinotomia
desnecessária. Em outros 27.1%, com diagnóstico de testículos
canaliculares, a laparoscopia orientou para a exploração
inguinal mínima no mesmo ato, que foi ampliada apenas quando se
identificou testículo viável, para realizar a sua pexia.
A grande vantagem da laparoscopia foi evidenciada
no restante dos pacientes, nos quais não apenas foi feita a identificação
dos testículos intra-abdominais, como também iniciado, no
mesmo ato, o tratamento dos mesmos pela orquiectomia, ligadura vascular
ou orquiopexia, com isso abreviando o tratamento.
Nas orquiopexias realizadas exclusivamente
por técnicas laparoscópicas, além do aspecto cosmético,
evidentemente favorável à laparoscopia, também se
ressalta o retorno mais precoce às atividades físicas do
que em cirurgia aberta. Embora seja difícil avaliar de modo objetivo
a intensidade da dor pós-operatória em crianças menores,
existem evidências clínicas sólidas comprovando a
vantagem da laparoscopia sobre a cirurgia aberta em adultos, tanto em
urologia como outras especialidades (11). Mesmo que estes aspectos não
sejam muito relevantes na faixa etária pediátrica, deve-se
considerar que a menor necessidade de cuidados pós-operatórios
em cirurgia laparoscópica permite que os pais sejam liberados mais
precocemente destas tarefas, para reassumir suas atividades rotineiras.
Quanto ao resultado tardio das orquiopexias
realizadas exclusivamente por laparoscopia, obtivemos 83.3% de testículos
tróficos e bem posicionados com a técnica em 2 tempos e
66.7% com a técnica em um tempo. Estes valores são equivalentes
aos da orquiopexia aberta para testículos intra-abdominais, ao
redor de 70.1% em crianças até 6 anos e 64.5% em pacientes
de mais de 6 anos (12). Alguns trabalhos recentes demonstram sucesso de
90% com orquiopexia laparoscópica, porém em grupos etários
significativamente mais jovens que o nosso (13,14).
Em uma análise retrospectiva, é
provável que, por falta de experiência no início de
nossa casuística, tenhamos feito a secção vascular
desnecessariamente em alguns casos. Nesta fase, a orquiopexia foi realizada
em 2 tempos, sendo o segundo aberto. Com maior experiência, passamos
a realizar o segundo tempo também por via laparoscópica,
incluindo testículos cada vez mais altos. Finalmente, eliminamos
o segundo tempo cirúrgico, passando a realizar a orquiopexia laparoscópica
primária, preferencialmente sem ligadura vascular. Atualmente,
esta é feita previamente apenas nos testículos muito altos,
com limitação importante no comprimento do pedículo
vascular.
Em nosso serviço, consideramos atualmente
a laparoscopia imprescindível, suficiente e segura na avaliação
de testículos impalpáveis, tendo dispensado a avaliação
pré-operatória por imagem. Em mais da metade de nossos pacientes,
a laparoscopia foi exclusivamente diagnóstica, tendo demonstrado
com segurança a inexistência de testículos na cavidade
abdominal. Nos restantes, além da identificação precisa
das gônadas, foi possível a complementação
terapêutica parcial ou total por técnica laparoscópica,
com sucesso equivalente à cirurgia aberta, porém com evidentes
vantagens no aspecto cosmético e de recuperação pós-operatória.
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Received: April 23, 2001
Accepted after revision: June 29, 2001
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