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COMPOSITION CHANGES
OF GLYCOSAMINOGLYCANS IN THE URETHRAL STRICTURE DISEASE
E. ALEXSANDRO DA
SILVA, FRANCISCO J.B. SAMPAIO, M. CRISTINA DORNAS, VALDEMAR ORTIZ, LUIZ
E.M. CARDOSO
Urogenital
Research Unit, State University of Rio de Janeiro, RJ and Division of
Urology,
Federal University of São Paulo, SP, Brazil
ABSTRACT
Purpose:
Glycosaminoglycans (GAGs) are components of the extracellular matrix and
play key roles in the normal physiology and pathology of several tissues.
Recently, we have described the composition of GAGs in the several segments
of the normal male urethra. There is no data, however, on GAGs composition
in the urethral stricture disease.
Material and Methods: Urethral stricture
samples were obtained from 7 patients submitted to end-to-end anastomosis
of bulbar urethroplasties. The patients mean age was 48.0 years (range
18 to 62 years). GAGs in defatted, dry tissue samples were extracted by
papain digestion and cetylpyridinium chloride/ethanol precipitation. The
concentration of total GAGs was assessed by a hexuronic acid assay and
expressed as microgram hexuronic acid per milligram dry tissue, while
the proportions of sulfated GAGs were determined by agarose gel electrophoresis.
The concentration of hyaluronic acid was determined by ion-exchange chromatography.
The control group consisted of 10 bulbar urethra samples obtained from
fresh, macroscopically normal cadavers aged 16 to 38 years (mean 25.6
years).
Results: The mean value of total GAG concentration
in stricture of the bulbar urethra was 1.097 ± 0.186 and was significantly
lower than the control group (p < 0.05). While the most predominant
GAG in the normal urethra was hyaluronic acid (40.7% ± 5.0), dermatan
sulfate predominated in the urethral stricture (39.5% ± 3.1). There
were no significant changes in the relative concentration of heparan sulfate
and chondroitin sulfate between normal and strictured urethras. Hyaluronic
acid relative concentration decreased 45.2% and dermatan sulfate increased
47.4%.
Conclusion: Dermatan sulfate is mostly associated
with fibrillar collagen, and the increased concentration of this GAG in
the urethral stricture disease, together with a decrease of total GAGs,
imply excessive collagen accumulation. These alterations, including a
decrease in hyaluronic acid content, may change the urethral compliance
and would lead to functional changes.
Key words:
urethra; stricture; glycosaminoglycans; proteoglycans; extracellular matrix
Braz J Urol, 27: 394-398, 2001
INTRODUÇÃO
A
matriz extracelular desempenha um papel fundamental na fisiologia e na
biomecânica dos tecidos. Nela existe uma atividade constante devido
à degradação e síntese de seus componentes.
A regulação do depósito de matriz extracelular é
um evento importante em muitas condições, tanto normais
quanto patológicas (1). É fundamental para uma cicatrização
normal, onde as moléculas da matriz necessitam ser rapidamente
sintetizadas durante a formação do tecido de granulação,
na reposição final por tecido conjuntivo e no remodelamento
tardio (2). Portanto, um balanço adequado entre síntese
e degradação é necessário para um funcionamento
normal do tecido. Um balanço inadequado, tanto quantitativo quanto
qualitativo, pode produzir uma diminuição na complacência
do tecido lesado, causando alterações funcionais e conseqüentemente
problemas clínicos (1). A característica fundamental da
estenose de uretra é a fibrose (ou espongiofibrose) que pode obstruir
seu lúmen causando sintomas urinários obstrutivos.
Glicosaminoglicanos
(GAGs) são heteropolissacarídeos complexos que possuem quantidades
diversas de grupamentos carboxila e sulfato, existindo em forma nativa
como glicoconjugados denominados proteoglicanos (3). Proteoglicanos são
componentes importantes da superfície celular e da matriz extracelular,
podendo interagir especificamente com vários outros componentes
matriciais, tais como colágeno, laminina, fibronectina e citocinas
(4). Estas interações são responsáveis pela
organização estrutural da matriz extracelular e regulação
da interação célula-célula e célula-matriz.
Com isso, os GAGs têm um papel fundamental no fenômeno de
cicatrização (5).
Embora
a identificação dos GAGs em tecidos em processo de cicatrização
é conhecido desde décadas passadas (6), suas funções
ainda não estão completamente elucidadas. Além disso,
apenas recentemente foi descrita a composição de GAGs na
uretra masculina normal (7) e não existem dados sobre a composição
deste componente da matriz extracelular em processos patológicos
envolvendo a uretra. No presente trabalho determinamos as alterações
na concentração e composição bioquímica
de GAGs em estenoses da uretra bulbar.
MATERIAL E MÉTODOS
O
presente estudo foi aprovado pelo Comitê local de Ética em
Pesquisa envolvendo seres humanos. Amostras de estenose foram obtidas
de 7 pacientes submetidos a uretroplastia término-terminal da uretra
bulbar. A média de idade dos pacientes foi de 48 anos, variando
entre 18 e 62 anos. A causa das estenoses foi traumática (n = 4)
e infecciosa (n = 2), e em um caso não foi possível estabelecer
a etiologia. O grupo controle consistiu de 10 amostras de uretra bulbar
obtidas de cadáveres frescos e sem alterações relacionadas
ao trato urogenital. A idade média deste grupo foi de 25.6 anos,
variando de 16 a 38 anos. Todas as amostras foram imediatamente fixadas
em acetona e clivadas em fragmentos de aproximadamente 3 x 3 mm. Depois
foram delipidadas por meio de duas trocas de clorofórmio: metanol
(2:1, v/v), e secas a 60°C.
A
extração de GAGs seguiu um protocolo previamente descrito
(8). Resumidamente, cerca de 35 a 155 mg de tecido delipidado e seco foram
incubados em papaína bicristalizada (Sigma, St. Louis, USA) em
tampão acetato 100 mM, pH 5.0, contendo cisteína 5mM e EDTA
5 mM, por 24 horas a 60°C. Após centrifugação,
cloreto de cetilpiridínio (CPC) foi adicionado ao sobrenadante
para precipitar os GAGs. As amostras foram centrifugadas e o complexo
CPC-GAG no pellet foi dissociado com NaCl 2M. Os GAGs foram por fim precipitados
ao se adicionar 2 volumes de etanol absoluto às amostras, que foram
então mantidas a 4°C por 24 horas. Após uma série
de centrifugações e lavagens do pellet com etanol, obteve-se
a preparação final de GAGs totais, a qual foi utilizada
nas análises subseqüentes.
A
quantificação dos GAGs totais foi feita por meio da dosagem
de ácido hexurônico, utilizando o método do carbazol
(9), no qual as amostras purificadas de GAGs são primeiramente
tratadas com ácido sulfúrico a 100°C. A concentração
de GAGs na uretra foi expressa em microgramas de ácido hexurônico
por miligrama de tecido delipidado e seco.
A
quantidade relativa dos GAGs sulfatados (condroitin sulfato, dermatan
sulfato e heparan sulfato) foi determinada por eletroforese em gel de
agarose a 0.5 % em tampão de 1,3-diaminopropano 50 mM, pH 9.0 (10).
Após corrida a 80 V, o gel foi fixado em brometo de N-Cetil-N,N,N-trimetilamônio
0.1%, corado em azul de toluidina 0.1%, e a proporção dos
GAGs foi determinada por densitometria das bandas seguida de integração
dos picos usando o programa Scion Image (Scion Corporation, USA). A identificação
das bandas na placa de agarose foi feita com base na comparação
com a migração de padrões de GAGs comerciais (Sigma,
USA).
GAGs
totais foram fracionados por cromatografia de troca iônica em colunas
de DEAE-Sephacel eluídas com um gradiente linear de 0.1 ® 0.9M
NaCl. Três picos foram obtidos, os quais já foram previamente
identificados (8). O primeiro pico corresponde ao ácido hialurônico
e foi usado para a determinação de sua concentração
relativa.
A
diferença dos dados obtidos entre os grupos foi analisada pelo
teste para duas amostras de Wilcoxon. As diferenças foram consideradas
estatisticamente significativas quando p < 0.05. Os dados são
apresentados como médias ± um desvio padrão.
RESULTADOS
A
concentração de GAGs totais no segmento bulbar estenosado
foi de 1.097 ± 0.186 e foi significativamente (p < 0.05) menor
que no grupo controle. O ácido hialurônico (40.7% ±
5.0) foi o GAG predominante na uretra bulbar normal, enquanto que o dermatan
sulfato (39.5% ± 3.1) foi o GAG predominante na uretra estenosada
(Table). Houve uma diminuição significativa (p < 0.01)
de 45.2% da concentração de ácido hialurônico
nas uretras com estenose. Também foi significativo (p < 0.05)
o aumento de 47.4% na concentração de dermatan sulfato.
Apesar do condroitin sulfato ter apresentado um pequeno aumento de 18.9%
na sua concentração, este aumento não foi significativo
(p > 0.05). A concentração de heparan sulfato manteve-se
estável (p > 0.10).
DISCUSSÃO
Os
tratamentos atuais da estenose da uretra masculina proporcionam resultados
variáveis e às vezes frustrantes para o cirurgião,
fazendo com que a morbidade para o paciente seja alta. Apesar de existirem
alguns estudos sobre a estrutura da estenose da uretra (11-14), sabe-se
pouco sobre as alterações moleculares que ocorrem na matriz
extracelular. Em relação aos GAGs, apenas recentemente foi
descrito a sua composição no tecido esponjoso normal (7).
Como nossos resultados prévios mostraram que a concentração
e a composição de GAGs varia nos diversos segmentos da uretra
esponjosa, no presente trabalho nós decidimos estudar as alterações
que ocorrem na estenose apenas do segmento bulbar, pois além de
permitir uma comparação mais precisa também é
o lugar de maior incidência de estenoses, incluindo as de origem
idiopáticas.
A
cicatrização é um fenômeno que envolve principalmente
a matriz extracelular e uma série de moléculas (citocinas),
algumas ainda não completamente elucidadas. O heparan sulfato,
um GAG de membrana basal, tem uma distribuição irregular
na uretra, chamando a atenção sua alta concentração
na uretra bulbar (7). A heterogeneidade nas cadeias de GAGs associados
a diferentes tipos de proteoglicanos pode providenciar lugares para a
interação de fatores de crescimento com componentes da matriz
extracelular. De fato, domínios estruturais específicos
no heparan sulfato vascular têm demonstrado atividade antiproliferativa
para músculo liso (15). As estenoses da uretra masculina, sobretudo
as que comprometem o segmento bulbar, se caracterizam por um denso tecido
rico em colágeno, pouco vascularizado, e com ausência de
músculo liso uretral. Tudo isso está de acordo com as funções
de proteoglicanos de heparan sulfato envolvidos em processos de cicatrização
e fibrose (16,17).
Em
virtude da bem conhecida interação dos GAGs com o colágeno
e outros componentes da matriz extracelular (18), pode-se inferir que
eles têm participação importante nas propriedades
de complacência uretral, embora tal fato não tenha sido ainda
apropriadamente estudado. Em processos fibróticos ocorre uma diminuição
da complacência do tecido (1), que é a principal característica
da estenose da uretra. As características da complacência
resultantes do processo de cicatrização vão determinar
a clínica do paciente e toda a repercussão urodinâmica
proximal à estenose (19). Decorina e biglican são pequenos
proteoglicanos ricos em dermatan sulfato, enquanto o versican, um proteoglicano
de cadeia longa, apresenta grande quantidade de condroitin sulfato (4).
Estes dois GAGs, que têm uma distribuição predominantemente
intersticial, são os mais comumente encontrados na estenose da
uretra bulbar, como evidenciado por nosso estudo. Além disso, a
grande diminuição na concentração de ácido
hialurônico bem como a de GAGs totais nas amostras com estenose,
também podem estar implicadas com a perda da complacência
uretral. Logicamente que outros componentes da matriz extracelular, que
não foram analisados no presente estudo, também podem estar
implicados na característica final da estenose (13,14).
Maiores
concentrações de ácido hialurônico são
encontradas no início do processo de cicatrização,
sendo substituído progressivamente por GAGs sulfatados (5,20).
Portanto, as maiores concentrações de GAGs sulfatados e
menores de ácido hialurônico na uretra estenosada sugerem
que as estenoses analisadas em nosso estudo se encontravam em uma fase
mais avançada do processo de cicatrização.
Desde
que o controle farmacológico de cicatrizes indesejadas é
teoricamente possível, é imperativo que sejam realizados
estudos enfocando as alterações moleculares da matriz em
resposta à lesão em vários tecidos. Assim, uma vez
descrita essas alterações, pode-se conhecer melhor os eventos
moleculares que ocorrem durante o processo de reparação
especificamente em um determinado tecido, para poder intervir da forma
mais apropriada.
________________________________
Pesquisa financiada por CNPq e FAPERJ
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____________________
Received:June 20, 2001
Accepted:July 25, 2001
________________________
Correspondence address:
Dr. E. Alexsandro da Silva
Unidade de Pesquisa Urogenital
Av. 28 de Setembro, 87, fundos, FCM, térreo
20551-030, Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Fax: + + (55) (21) 587 6121
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