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URINARY INCONTINENCE.
KNOWLEDGE AND ATTITUDES IN SÃO PAULO
LEILA BLANES, RITA
C.T. PINTO, VERA L.C.G. SANTOS
Nursing School,
State University of São Paulo, USP, São Paulo, Brazil
ABSTRACT
Purpose:
The urinary incontinence (UI) constitutes an important problem that affects
great part of the population. The apparent misinformation about the subject
aimed us to study the knowledge and attitudes of people aged 55 years
or older about the UI.
Material and Methods: Between June and November
1999, 400 men and women, living in São Paulo city had been interviewed.
For this, it was used an Incontinence Quiz validated by Branch et al.
(1994), that consists of 14 statements (6 correct and 8 incorrect) grouped
in 4 UI categories: treatment and effects; causes; relationship of aging
and physician/patient discussion about the UI. These statements could
be answered as: I agree, I disagree or I dont know.
Results: The results show that only for
the two statements we obtained correct indexes of almost 60% (66% for
the affirmative 2, related to the cure and recovery of the UI; and 61%
for the affirmative 5, related to the greater risk of woman to develop
UI), remaining the other between 30% and 41%. For the incorrect affirmative,
the index varied from 23% to 43% of correct answers. Although the higher
level of school age had presented significant statistics association with
the hit of 2 from 14 statements, these are related to specific aspects
of causes and treatments of UI.
Conclusions: The results showed a reality
marked by misinformation and negative attitudes of the interviewed toward
the loss of urinary control, what involves the necessity of educational
interventions for the population, making possible the availability of
solutions for this problem.
Key words:
urinary incontinence; behavioral approach; data collection
Braz J Urol, 27: 281-288, 2001
INTRODUÇÃO
A
incontinência urinária (IU) é definida pela International
Continence Society como a perda involuntária de urina, que é
objetivamente demonstrada como um problema social e higiênico (1).
Estudos revelam que 15 a 35% das pessoas
com idade acima de 60 anos têm incontinência urinária
e que, provavelmente as mulheres representam um número duas vezes
maior que os homens (2). Pesquisa realizada no Rio de Janeiro por meio
de entrevistas com 1044 mulheres acima de 15 anos de idade detectou prevalência
de 30.2% em mulheres com 60 anos de idade ou mais (3). A incidência
de IU pós-ressecção trans-uretral de próstata
é de 0.7 a 1.4% (4), elevando esse número para 5% no primeiro
ano após a cirurgia (5), e de 20% pós prostatectomia radical
(6).
Keller (7) afirma que, aproximadamente,
13 milhões de americanos sofrem de IU, com custos anuais estimados
em 16 bilhões de dólares.
Embora constitua um importante problema,
que afeta um vasto segmento da população com implicações
psicossociais e econômicas de grande alcance, percebe-se um restrito
conhecimento não só da população em geral,
como dos próprios profissionais da saúde acerca dos fatores
causais e do tratamento da IU (8).
Assim, a escassez de literatura, no que
tange à problemática da IU no Brasil, associada à
aparente desinformação sobre o tema, levou-nos à
realização deste estudo com os objetivos de identificar
os conhecimentos e atitudes da população sobre a IU, na
cidade de São Paulo; identificar os aspectos demográficos
e clínicos da população estudada e, verificar as
associações estatísticas existentes entre ambos.
MATERIAL
E MÉTODOS
Este
estudo foi realizado no município de São Paulo, por meio
de entrevistas com 400 homens e mulheres de 55 anos de idade e mais, residentes
na cidade. A amostra foi calculada baseada em informações
de um estudo preliminar, que forneceu uma prevalência estimada de
0.30 para a incontinência e fixando um erro amostral de 0.05, bem
como um nível de confiança de 95%, estabelecendo-se uma
amostra de tamanho igual a 360 indivíduos. A coleta de dados foi
feita no período de junho a novembro de 1999, em locais de fácil
captação da população como estações
do metrô, praças públicas, acompanhantes de pacientes
em ambulatórios ou hospitais. As pessoas abordadas, ao preencherem
os critérios de inclusão, eram, inicialmente orientadas
quanto aos objetivos e conteúdo da pesquisa e, depois de consentirem
em participar do estudo por escrito, eram entrevistadas. A primeira parte
do instrumento utilizado refere-se aos dados demográficos e clínicos
da população. A parte II é constituída pelo
Questionário de Incontinência proposto por Branch et al.
(9). Este, validado pelos autores, foi elaborado a partir das recomendações
da AHCPR (Agency for Health Care Police and Research) e da própria
experiência dos autores com a clientela portadora de IU, e constituiu
um projeto de avaliação dos efeitos de intervenções
educativas relativas à IU sobre o conhecimento, atitudes e práticas
de médicos e populações idosas nos Estados Unidos
(9).
O questionário contém 14 afirmações
sobre a IU para as quais os indivíduos podem responder concordo,
discordo ou não sei. Seis das 14 afirmações são
corretas e devem ser respondidas como concordo e oito são incorretas,
devendo ser respondidas como discordo, e estão aleatoriamente distribuídas
no questionário. Essas afirmações englobam quatro
categorias relacionadas ao tratamento e efeitos da IU, às causas
da IU, à relação do envelhecimento e IU e à
discussão do paciente e o médico sobre a IU (Table-3).
Para a análise estatística
foram utilizados o Teste de Qui-quadrado de Pearson e o Teste Exato de
Fisher, ao nível de significância de 5%.
RESULTADOS
Os
dados da Table-1 mostram que, das 400 pessoas entrevistadas, 258 (64%)
são do sexo feminino, 323 (81%) com idade entre 55 a 74 anos. Os
níveis de escolaridade variaram, estando 56% da população
(225 pessoas) no nível fundamental de ensino (completo e incompleto),
enquanto 12% são analfabetos e 15% com nível superior. Trezentos
e trinta e sete (84%) pertencem à raça branca e 57% (231)
tem companheiro, sendo casados ou não.
Do ponto de vista clínico (Table-2)
observa-se que, enquanto somente 47 mulheres (18%) não referiram
partos, 137 (54%) mencionaram até 3 partos e as demais 74 (28%),
quatro ou mais. A cirurgia ginecológica foi citada por 72 entrevistadas
(28%), sendo que destas, 30 (41%) haviam realizado perineoplastia e 29
(40%) histerectomia. Entre os homens, apenas 18 (13%) mencionaram cirurgia
prostática prévia. Quanto à presença de IU,
foi referida por 142 pessoas (43% das mulheres e 23% dos homens).
Os dados relacionados aos conhecimentos
e atitudes das pessoas sobre a IU, encontram-se na Table-3, agrupados
conforme a veracidade das assertivas e a resposta da clientela.
Quanto às categorias em que as assertivas
foram enquadradas, a primeira delas, ou seja, tratamento e efeitos da
IU está representada na Table-3 por 6 das 14 afirmações,
compondo tanto as assertivas corretas (números 1, 2 e 3) como as
incorretas (números 7, 8 e 9). Verifica-se que, somente a segunda
assertiva obteve 66% de respostas corretas, quando os entrevistados parecem
acreditar que muitas pessoas com IU podem ser curadas e quase todas melhoram
significativamente. Por outro lado, de forma quase paradoxal, apenas 34%
discordaram da sétima afirmativa sobre a não recuperação
freqüente do controle completo das perdas urinárias. As respostas
às assertivas 3 e 8 refletem o baixo conhecimento da população
acerca de algumas formas específicas de tratamento da IU como exercícios
e cirurgias com índices de acertos de apenas 30% e 23%, respectivamente,
além de 46% de respostas não sei para a afirmação
3. O menor nível de escolaridade apresentou associação
estatisticamente significante com o desconhecimento sobre a existência
de exercícios para o controle da IU (p < 0.001) No entanto,
mesmo parecendo não identificar especificamente os tipos de tratamento
da IU, além dos absorventes, fraldas e sondas, 42% discordaram
corretamente da afirmação de que pouca coisa pode
ser feita para tratar ou curar a perda involuntária de urina,
com associação estatística significante com os maiores
graus de escolaridade (p < 0.001).
As causas da IU estão relacionadas,
por sua vez, às afirmações 4, 5, 6 (corretas) e 12
(incorreta) e seus índices de acerto variaram de 31% a 61%. A maioria
dos acertos nesta categoria refere-se ao fato de as mulheres apresentarem
maiores riscos para o desenvolvimento de IU quando comparadas aos homens
(61% de concordância para a assertiva 5).
A multiplicidade de fatores causais associados
às perdas urinárias, dentre os quais muitos medicamentos
de uso comum, é percebida por menos da metade da população
(41% de concordância para a afirmativa 4; 31% de discordância
para a assertiva 12 e 35% de concordância para a afirmativa 6),
mesmo reconhecendo a facilidade de tratamento (41% de concordância
para a afirmação 4). A raça branca e o maior nível
de escolaridade apresentaram associações estatísticas
significantes com a discordância para a afirmativa 12 (p < 0.001
para ambos) e, o menor nível de escolaridade apresentou associação
estatística significante com a discordância com a afirmativa
6 (p = 0.001).
As afirmações de números
11 e 13 referem-se à relação existente entre o envelhecimento
e a IU e obtiveram apenas 38% e 41%, respectivamente, de acertos quando
da discordância dos respondentes. Somente para essas assertivas,
encontramos associações estatisticamente significantes com
o dado clínico da presença da IU (p = 0.049 e p = 0.012,
respectivamente para as afirmações 11 e 13).
Já a última categoria relacionada
à discussão do paciente e médico sobre a IU, engloba
as afirmações de números 10 e 14, com respostas corretas
de 43% e 25% (discordância) dos entrevistados, respectivamente.
DISCUSSÃO
A
IU, como a própria definição que a International
Continence Society (1) propõe, é um problema de elevado
impacto na qualidade de vida das pessoas, especialmente mulheres e idosos.
Os resultados deste estudo acerca dos conhecimentos
e atitudes sobre a IU, a partir de entrevistas com 400 pessoas com idade
igual e superior a 55 anos em São Paulo, mostraram um reduzido
conhecimento sobre a IU, com baixos índices de acerto para a maioria
das assertivas apresentadas, independentemente do nível de escolaridade,
exceto para alguns aspectos dos efeitos benéficos do tratamento
e o maior risco relacionado ao sexo feminino.
A micção é um fenômeno
neurológico e fisiológico complexo. Não é
surpreendente, portanto, que o conhecimento das pessoas a respeito das
causas, origem e mecanismos da IU seja limitado (10), como ocorre neste
estudo.
A alta prevalência de IU em mulheres
a partir dos 60 anos, especialmente do tipo de esforço, deve-se
a alguns fatores como as cirurgias ginecológicas prévias
(por exemplo a histerectomia), a menopausa, número e tipo de partos
(11,12). Os dados da Table-2 mostram uma clientela predominantemente feminina
com queixas de perdas urinárias (110 dentre 258 mulheres), com
história pregressa de 4 e mais partos (28%) e, das 72 mulheres
que fizeram cirurgia ginecológica, 40% submeteram-se a histerectomia
caracterizando os índices de prevalência e fatores associados
à IU nesse sexo e talvez, os acertos relativos a essa questão.
Quanto às drogas, como outro fator
causal transitório, os relaxantes do músculo liso e os depressores
de sistema nervoso central podem acarretar alguns sintomas de IU como
efeitos colaterais, por sua ação no trato urinário
inferior (13). Dentre esses medicamentos, alguns são de uso comum
e, ao dispensarem prescrição médica, podem ter emprego
indiscriminado, especialmente em nossa cultura, onde a automedicação
é prática comum.
Em relação ao tratamento da
IU, embora deva ser baseado no seu diagnóstico e classificação,
atualmente dispõe-se de diversas opções terapêuticas
que devem ser expostas e esclarecidas para a clientela, auxiliando na
tomada de decisão. Dentre as alternativas clínicas, destacam-se
as técnicas comportamentais (14) e o tratamento medicamentoso com
relaxantes da bexiga, os agonistas a adrenérgicos e a reposição
de estrógeno (15).
O tratamento cirúrgico para a IU
em idosos, segundo Mayo (13) é realizado apenas em alguns casos,
principalmente para idosos ativos, mentalmente competentes e em bom estado
geral. Para Sartori et al. (16) representa, a forma terapêutica
principal da IU de esforço. A crença de que a cirurgia é
o melhor tratamento para a IU, conforme constatada para 52% dos entrevistados
neste estudo, que concordaram erroneamente com a afirmação
8, pode constituir uma das causas de afastamento dos serviços de
saúde pelo temor desse procedimento invasivo e com riscos.
Para aqueles pacientes que não obtiveram
sucesso com os tratamentos clínicos ou cirúrgicos, outro
tipo de planejamento deve ser instituído, visando o bem estar e
a melhor qualidade de vida. Admite-se, nesses casos, o emprego de absorventes,
fraldas, cateteres ou outros dispositivos urinários (15) que permitem
a continuidade da interação social, e que foram reconhecidas
praticamente como a única alternativa por cerca de 1/3 dos entrevistados
neste estudo.
A questão da qualidade de vida também
parece estar posta no Questionário de Incontinência, na primeira
afirmativa, quando somente 30% das pessoas concordaram com a perspectiva
dos indivíduos com IU terem uma vida normal. Segundo Mayo (13),
os idosos que procuram tratamento têm melhores resultados no controle
sobre a bexiga, comparativamente àqueles não tratados, que
passam a apresentar todas as formas de isolamento social e, conseqüentemente,
piora em sua qualidade de vida. Para Wyman et al. (17), a IU tem demonstrado
resultados negativos no bem estar emocional e social, sendo uma condição
embaraçosa e com múltiplos efeitos nas atividades diárias
e de relação interpessoal, levando os indivíduos
a limitá-las à medida que não controlam suas perdas
urinárias.
Apontando especificamente a relação
da IU com o envelhecimento, os resultados aqui obtidos parecem demonstrar
que as crenças de que esse processo acarreta a IU como conseqüência
freqüente e natural, permeiam o senso comum. Nesse sentido, estudo
similar realizado por Keller (7) em uma comunidade nos EUA, sobre os conhecimentos
e atitudes de mulheres com 55 anos e mais acerca da IU, mostrou que a
maioria dos entrevistados (58.37%) também acredita que a perda
involuntária de urina é um resultado normal da idade. Embora
o envelhecimento, por si só, não seja a causa da IU, a idade
avançada está relacionada a alterações anatômicas
e fisiológicas no trato urinário inferior e a doenças
sistêmicas que podem atuar como fatores associados à IU (15,18),
justificando essas crenças.
Finalizando, tem-se ainda a questão
do interesse, priorização e mesmo o conhecimento dos profissionais
de saúde sobre a IU, fundamentais para o estabelecimento de intervenções
precoces. Embora, neste estudo, os resultados pareçam indicar que
a maioria das pessoas (60% de concordância com a afirmação
14 - incorreta) conversa com seus médicos sobre a IU ou acredita
que os outros o façam, os entrevistados estão divididos
quanto a crerem ou manifestarem conhecimento acerca da situação
inversa, isto é, que os médicos questionam os pacientes
sobre o controle vesical (48% de concordância e 43% de discordância
para a assertiva 10). A reduzida investigação acerca do
funcionamento urinário por parte dos profissionais da saúde,
especialmente médicos, generalistas ou mesmo especialistas, pode
ser evidenciada em estudo mencionado por Branch et al. (9) e coordenado
pelo primeiro autor, em que 67% dos médicos em atendimento primário
relataram fazer perguntas sobre IU a um quarto ou menos de seus pacientes
idosos. No mesmo estudo, 41% dos médicos, entre ginecologistas
e urologistas, informaram apenas iniciar alguma conversa sobre o tema
com 1 em 10 ou nenhum de seus pacientes, acima de 65 anos.
CONCLUSÕES
Os
resultados deste estudo apontam para uma realidade marcada pelo profundo
desconhecimento e por atitudes negativas dos entrevistados frente à
perda do controle urinário, o que implica na necessidade de intervenções
educativas à população, que possibilitem a busca
de soluções precoces para o problema.
A desinformação e os estereótipos
sobre as causas e a efetividade de tratamentos disponíveis para
a IU revelam-se quando mais de 40% dos entrevistados acreditam que a IU
faz parte do envelhecimento normal e que além de existirem poucas
possibilidades de cura, a cirurgia ainda é a melhor medida terapêutica.
Embora o maior nível de escolaridade
tenha apresentado associações estatísticas significantes
com o acerto de 2 das 14 assertivas, estas estão relacionadas a
aspectos específicos de causas e tratamentos sobre a IU, evidenciando,
mais uma vez, a falta de conhecimentos sobre o tema. Ressalta-se ainda
que, para 4 das 14 assertivas, a resposta não sei obteve
freqüências mais elevadas do que as respostas erradas.
Essas percepções, provavelmente,
têm um efeito negativo na decisão de procurar tratamento,
levando não só idosos como outras pessoas, especialmente
mulheres, a tentativas individuais de ajustar o estilo de vida às
perdas urinárias e, certamente, a não revelarem a problemática
ao médico ou outro profissional de saúde, nas consultas
rotineiras. As tentativas de amenizar os efeitos da IU podem comprometer
as atividades sociais e de lazer, afetando, conseqüentemente, a qualidade
de vida dessas pessoas.
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____________________
Received: July 13, 2000
Accepted after revision: May 11, 2001
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