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THE RELATIONSHIP
BETWEEN MORPHOLOGY OF
HUMAN
SPERMATOZOA AND HEMIZONA ASSAY
REINALDO J. RAFAELLI,
DEBORAH M.G. SPAINE,
AGNALDO P. CEDENHO, MIGUEL SROUGI
Section of
Human Reproduction, Division of Urology, Paulista School of Medicine,
Federal University of São Paulo, SP, Brazil
ABSTRACT
Objective:
To evaluate the correlation between human sperm morphology and sperm-zona
pellucida binding capacity under in vitro fertilization conditions.
Material and Methods: The semen specimens
were collected from 20 male patients who attended the Human Reproduction
Outpatient Clinic enrolled in the in vitro fertilization program (IVF).
The semen analysis was performed according to the World Health Organization
criteria, while the sperm morphology was evaluated using the criteria
outlined by Kruger. The motile spermatozoa selection was prepared using
a standard swim-up procedure. A Petri dish was prepared by making microdots
in its central part with a disposable hypodermic needle in order to assist
the oocyte fixation at the moment of the cutting. Under a stereomicroscope
and using a microsurgical blade, each oocyte was manually sectioned, resulting
in two identical hemizonae. A hundred microliters of sperm suspension
(0.5 x 106 motile sperm per ml) from the patient under investigation were
added to one hemizona; the other hemizona received the same amount of
motile sperm from the control semen sample. After 4 hours of coincubation
at 37ºC in 5% CO2 in air, the hemizona were rinsed in order to remove
the loosely attached sperm. The number of tightly bound sperm was counted
under an inverted microscope at 400x magnification. The hemizona index
(HZI) was calculated dividing the number of patients bound sperm
by the number of controls bound sperm, multiplied by 100.
Results: From the 20 semen samples in this
study, 7 of them, with sperm morphology < or = 4%, presented HZI <
35% and 13 samples with normal sperm morphology > 4% had HZI was >
35%.
Conclusions: Based on the results obtained
in this research, sperm morphology assessed by strict criteria outlined
by Kruger showed high correlation with the capacity of sperm to achieve
tight binding to the zona pellucida (HZI).
Key words:
spermatozoa; sperm; germ cells; sperm injections
Braz J Urol, 27: 255-261, 2001
INTRODUÇÃO
O
fator masculino na infertilidade conjugal é expressivo e, consequentemente,
deve receber muita atenção por parte de todos os profissionais
da área de reprodução humana. Responsável
isoladamente por 30% das causas de infertilidade conjugal e associado
ao fator feminino em mais de 20%, o componente masculino vem sendo alvo
de muitos estudos e mudança de paradigmas (1).
A análise do sêmen fornece
informações bastante valiosas no processo de investigação
da infertilidade conjugal, porém deve ser considerada apenas o
começo, pois não informa de maneira definitiva se um determinado
indivíduo é fértil ou não: o espermograma
informa apenas sobre o potencial de fertilidade. O entendimento do processo
de interação dos gametas humanos só se tornou possível
com o advento das técnicas de fertilização assistida.
Overstreet & Hembree (2), trabalhando com oócitos obtidos da
camada cortical de ovários de cadáver, perceberam que a
integridade físico-química da zona pelúcida era mantida
por 48 horas pós-morte e permitia que espermatozóides humanos
capacitados in vitro interagissem com ela. Com esta informação,
tornou-se possível estudar, em condições in vitro,
a primeira fase do processo de fertilização, ou seja, a
ligação que ocorre após a reação acrossômica,
entre o segmento cefálico do espermatozóide e a zona pelúcida
do oócito humano. Em pouco tempo, este teste passou a ser utilizado
durante a investigação do fator masculino apesar de apresentar
limitação técnica importante. Os oócitos obtidos
não estão num mesmo estágio de desenvolvimento, portanto,
não apresentam estritamente a mesma composição química
na zona pelúcida, e os resultados podem ser diversos não
apenas em função do gameta masculino em estudo mas das diferenças
entre as zonas pelúcidas.
Em 1988, Burkman et al. (3) desenvolveu
um novo teste que superava essa falha. Com o desenvolvimento da micromanipulação
foi possível cortar ao meio oócitos excedentes do programa
de fertilização in vitro que, embora desprovidos do ooplasma,
mantinham igual capacidade de interação com o gameta masculino.
Este fato trazia, inquestionavelmente, algumas vantagens: permitia trabalhar
com oócitos frescos excedentes que não seriam utilizados
no programa in vitro; com a secção ao meio, inviabilizava
a formação de pré-embriões e evitava todas
as ações anti-éticas decorrentes desse fato e, por
último e muito importante também, permitia um controle intra-ensaio,
pois o sêmen de um doador conhecido era testado com uma metade do
oócito e a outra metade era utilizada para testar o sêmen
do paciente em estudo.
Esse teste permanece em uso até os
dias de hoje. Entretanto, grandes questões começaram surgir
a respeito dos fatores do sêmen que poderiam influenciar no resultado
do teste. Dentre os vários parâmetros, ficou claro que a
motilidade e a forma dos espermatozóides tinham um papel preponderante
(4). No tocante à morfologia dos espermatozóides, uma grande
contribuição para o nosso conhecimento foi introduzida por
Kruger et al. (5,6) quando esses autores estabeleceram uma nova descrição
para a forma normal dos espermatozóides: segmento cefálico
oval, regular e com acrossomo ocupando de 40 a 70% desse segmento; nenhum
defeito na peça intermediária ou cauda. Esse critério
correlacionou-se muito bem com taxa de fertilização quando
a percentagem de formas ovais era superior a 14%. Levando-se em consideração
este novo critério para análise da forma dos espermatozóides,
propusemos esse trabalho com os seguintes objetivos: avaliar o efeito
da forma do espermatozóide humano frente ao teste de penetração
de espermatozóides em hemizona pelúcida humana e se o teste
de penetração teria algum valor preditivo antes do início
do tratamento nos programas de fertilização assistida.
MATERIAL
E MÉTODOS
Foram
envolvidos neste estudo 20 pacientes do sexo masculino, com idade entre
24 e 41 anos, que foram encaminhados para o Setor de Reprodução
Humana durante o período compreendido entre junho e setembro de
1998, com indicação para serem tratados de acordo com o
protocolo do programa de fertilização in vitro.
O sêmen de um único doador,
sem alterações seminais e com paternidade comprovada nos
últimos dois anos foi utilizado como controle.
São aceitos para o programa de fertilização
in vitro clássico no Laboratório de Reprodução
Humana apenas pacientes que apresentam pelo menos 5 x 106 de espermatozóides
móveis por mililitro após o processo laboratorial de seleção
pela técnica de swim-up. Ficou assegurado assim que todos os pacientes
envolvidos nesta pesquisa atendiam com plenitude esse critério.
As amostras de sêmen foram obtidas
por masturbação, após um período de 3 a 5
dias de abstinência sexual. Todas as amostras foram colhidas em
frascos de polipropileno estéril e descartável. Após
a colheita, registrou-se a presença ou a ausência de coagulação
e, os frascos contendo as amostras foram imediatamente colocados em estufa
de ar, à temperatura de 37oC, por um período máximo
de uma hora, para que ocorresse a liquefação do sêmen.
Após a liquefação das
amostras, foram determinados os parâmetros seminais de acordo com
os critérios estabelecidos pela Organização Mundial
de Saúde (1992) (7). Para a forma dos espermatozóides foi
utilizado o critério estabelecido por Kruger et al. que considerada
normal quanto a forma apenas quando mais de 14% dos espermatozóides
apresentassem um segmento cefálico oval e bem regular, região
acrossômica compreendendo de 40 a 70% do segmento cefálico;
segmento cefálico entre 5 a 6 micrômetros (mm) de comprimento
por 2.5 a 3.5mm de largura; nenhum defeito de peça intermediária
ou cauda (5,6).
Seleção
de Espermatozóides pela Técnica de Swim-up
Essa técnica foi preparada removendo-se,
inicialmente, o plasma seminal: 1 ml de sêmen liqüefeito foi
transferido para um tubo cônico graduado estéril e diluído
com 3 ml de meio Human Tubal Fluid (HTF, Irvine Scientific, EUA) suplementado
com 10% de albumina humana (fator V, código 5120, Irvine Scientific,
EUA). O tubo foi colocado em centrífuga por 10 minutos a 1000 rotações
por minuto (rpm); em seguida removeu-se o sobrenadante e, ao sedimento
resultante, foram adicionados 1.5 ml de meio de HTF. O tubo foi novamente
centrifugado e, após remoção do sobrenadante, adicionou-se
cuidadosamente 1 ml de meio HTF, evitando-se a dispersão do sedimento
formado. O tubo, contendo os espermatozóides livres do plasma seminal,
foi incubado em estufa a 5% CO2, 37°C, por uma hora, em ângulo
de inclinação de 30° (8).
Decorrido o período de incubação
aspirou-se, com auxílio de pipeta Pasteur, a porção
superior do meio de cultura que continha a subpopulação
de espermatozóides móveis. Foram determinados os parâmetros
de motilidade e concentração de espermatozóides móveis
segundo critérios da Organização Mundial da Saúde
(1992) (7).
Teste
de Ligação de Espermatozóides com Hemizonas Pelúcidas
de Oócitos Humanos
Todos os oócitos utilizados neste
estudo foram fornecidos pelo Laboratório de Reprodução
Humana; esses oócitos não tinham sido inseminados e eram
excedentes do programa de fertilização in vitro. Após
consentimento de doação assinado pelas pacientes, os oócitos
foram estocados em solução salina Salt Storage Solution
(cloreto de magnésio 1.5 M suplementado com polivinilpirrolidona
0.1% e hepes sódico 40 mM, Sigma, EUA) por um período máximo
de 30 dias (9).
No dia anterior ao teste, um oócito
foi transferido da solução salina para uma gota de meio
de cultura HTF, suplementado com 10% de albumina humana, em uma placa
de cultura de poliestireno 35 x 10 mm previamente preparada com micropontilhados
feitos com uma agulha hipodérmica descartável, a fim de
promover uma melhor fixação do oócito no momento
do corte.
Utilizando-se um estereomicroscópio,
em aumento de 40 vezes, e com auxílio de uma microlâmina,
de 3.5 mm de comprimento por 0.02 mm de largura e ângulo de 30°,
o oócito foi cortado, manualmente, em duas partes simétricas.
Cada hemizona foi aspirada com auxílio de uma micropipeta e, após
ter sido lavada para a retirada de todo o ooplasma, foi transferida para
uma gota de solução salina, recoberta com óleo mineral
e armazenada a 4oC por 24 horas.
Decorrido este período, cada hemizona
foi transferida, separadamente, para uma placa de cultura contendo uma
gota (60ml) de meio de cultura HTF e lavada cinco vezes, com auxílio
de pipeta Pasteur, para remoção da solução
salina. Na primeira placa de cultura contendo uma hemizona foram adicionados
100ml da suspensão de espermatozóides (0.5 x 106 espermatozóides
móveis por ml) do paciente em estudo e, na segunda placa à
outra hemizona foi adicionada a mesma quantidade de espermatozóides
móveis do sêmen controle. Cada gota foi coberta com óleo
mineral (Sigma, código M8410, EUA) para prevenir o movimento destas,
e as placas foram incubadas à 37oC em 5% de CO2 por 4 horas. Após
esse período, transferiram-se as hemizonas, separadamente, para
60ml de meio de cultura (HTF) suplementado com 0.3% de albumina humana,
lavando-se cada hemizona cinco vezes a fim de remover os espermatozóides
aderidos fracamente à hemizona pelúcida.
A contagem dos espermatozóides aderidos
à hemizona foi realizada com auxílio de microscópio
invertido em aumento de 400 vezes. O cálculo do índice de
aderência dos espermatozóides à hemizona (HZI) foi
feito dividindo-se o número de espermatozóides aderidos
do paciente pelo número de espermatozóides aderidos do controle,
multiplicado por 100.
A análise estatística utilizada
constou do teste t para comparação de variáveis de
duas amostras, dos cálculos do coeficiente de Pearson e curva de
regressão linear (com o uso do teste t de significância),
assumindo a probabilidade do erro tipo I em 5%.
RESULTADOS
A
Table apresenta os parâmetros seminais, as idades e os índices
de hemizona obtidos para cada paciente do grupo de estudo. As médias
de volume das amostras seminais, concentração e motilidade
dos espermatozóides estão dentro da amplitude considerada
normal segundo critérios estabelecidos pela Organização
Mundial da Saúde (7), o que não ocorre em relação
à forma (valor de normalidade: > 14% de formas ovais) (5,6).
Nesse estudo, um único doador colhia
uma amostra de sêmen para cada teste realizado, num total de 20
amostras seminais utilizadas como controle do teste. A média e
desvio padrão dos parâmetros seminais foram volume: 1.3 ±
0.3 ml concentração: 138.5 ± 57 x l06 ml; motilidade:
78.6 ± 6.4% e morfologia: l5 ± 3.7% ovais. Houve diferença
significativa entre a forma dos espermatozóides do controle e dos
pacientes do grupo de estudo (p = 0.00003).
Esta tabela também permite observar
que todas as amostras com forma menor ou igual a 4% (7 amostras, 35% do
total) apresentaram índice de hemizona menor que 35%. Note-se também
que, nas amostras com forma superior a 4% (13 amostras, 65% do total),
o índice de hemizona foi superior a 35%. A curva de regressão
linear entre estas variáveis é mostrada na Figure, e pode
ser expressa na equação:
índice de hemizona
(%) = 0.47 + 0.14 x formas ovais (%)
O coeficiente
de correlação de Pearson entre as duas variáveis
foi de 92% (p = 2 x 10-5).
DISCUSSÃO
Quando
o sêmen de um paciente é analisado por um laboratório
especializado, e o laudo do espermograma apresenta um ou mais dos parâmetros
clássicos alterados (concentração, motilidade, morfologia),
esse paciente poderia ter sua fertilidade questionada, segundo os critérios
estabelecidos pelo manual da Organização Mundial da Saúde
(7), no que tange a normalidade seminal.
Para a correta identificação
das alterações seminais, provas funcionais devem ser realizadas
para verificar, de maneira mais apropriada e confiável, a capacidade
de fertilização de uma determinada amostra de espermatozóides.
Tanto em reprodução natural quanto numa inseminação
artificial, na transferência intra-tubária de gametas ou
na fertilização in vitro clássica, a interação
entre o espermatozóide e a zona pelúcida do oócito
é o evento crítico para que a fertilização
ocorra; deficiências no processo interativo dos gametas podem ser
decorrentes tanto dos oócitos quanto dos espermatozóides
e, especialmente neste último caso, de anormalidades do segmento
cefálico, local onde se encontram os receptores específicos
de membrana (10). Enquanto as alterações da zona pelúcida
não foram objeto desta pesquisa, todo o método aqui empregado
foi para verificar a importância da forma dos espermatozóides
nesse processo interativo. E isto só foi possível porque
dispomos, na atualidade, de recursos laboratoriais que aferem esta ligação
com eficácia, como o teste da hemizona pelúcida (3), sem
ferir os princípios éticos e formar pré-embriões
com finalidade de pesquisa (11).
Sabe-se que um paciente com teratozoospermia
(morfologia dos espermatozóides < 14% formas ovais) tem um índice
menor de penetração na zona pelúcida e, consequentemente,
menor taxa de fertilização nos processos in vitro; seu potencial
de fertilidade é diminuído, o que poderia dificultar a concepção
(12-14). De acordo com Franken et al. (15) quando o índice do teste
de hemizona (Hemizona Index HZI) é inferior a 30%, a taxa
de fertilização é muito baixa e pode contra indicar
qualquer técnica em que a interação entre os gametas
seja essencial (16).
Neste estudo, utilizando-se o teste do hemizona
descrito por Burkman et al. (3) e modificado no nosso laboratório,
foi possível verificar o efeito que a alteração na
forma dos espermatozóides causou no índice de aderência,
comparando o sêmen de um doador fértil, conhecido, com pacientes
inférteis que tinham sido encaminhados para o programa de fertilização
in vitro clássico. Este resultado foi considerado significativo
do ponto de vista estatístico, demonstrando-se assim que quando
as formas ovais, numa determinada amostra seminal, estiverem presentes
em menos de 4% a aderência na zona pelúcida será muito
baixa ou não ocorrerá. O que vale dizer que uma taxa baixa
de fertilização deve ser esperada e bastante atenção
deve ser dispensada quanto ao programa a ser indicado para um determinado
casal.
Um outro aspecto importante que deve ser
levantado neste capítulo é o pouco uso deste teste in vitro
que possibilita informações tão valiosas. O hemizona
é um teste laborioso e necessita de protocolo padronizado para
sua execução (17). Desde a sua idealização
até os dias de hoje tem sido realizado com o auxílio de
um micromanipulador (18); exige manutenção pelo laboratório
de um doador fértil, cadastrado e com disponibilidade semanal e,
sobretudo, afinidade do pessoal do laboratório com o teste.
No entanto, trabalhando dentro de um ambiente
universitário e impulsionados pelas dificuldades inerentes, experimentou-se
e se constatou que era possível, mediante treinamento e aplicando
os princípios básicos de microcirurgia e micromanipulação,
cortar manualmente oócitos humanos ao meio sem danificá-los.
Uma vez certificado que o teste realizado com corte manual sob um estereomicroscópio
apresentava os mesmos resultados daqueles obtidos com o micromanipulador,
publicados na literatura (18), passou-se a usá-lo na rotina como
um teste discriminador do potencial de fertilização dentro
do programa de Reprodução Humana da nossa Instituição.
CONCLUSÕES
Os
dados desta pesquisa permitiram as seguintes conclusões: 1)- Amostras
seminais com 4% ou menos de espermatozóides com formas ovais normais
têm um índice de aderência menor que 35% quando submetidas
ao teste do hemizona pelúcida humana; 2)- Amostras seminais com
mais de 4% de espermatozóides com formas ovais normais têm
um índice de aderência maior que 35% quando submetidas ao
mesmo teste.
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____________________
Received: July 27, 2000
Accepted after revision: April 26, 2001
_______________________
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