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HISTOPATHOLOGICAL
ALTERATIONS RESULTING
FROM SUBCUTANEOUS IMPLANT OF COLLAGEN AND AUTOLOGOUS
APONEUROTIC FASCIA: A COMPARATIVE STUDY IN DOGS
PAULO C.R. PALMA,
PAULO C. MARQUES, BENEDICTO C. VIDAL,
CÁSSIO L.Z. RICCETTO, MÍRIAM DAMBROS, NELSON R. NETTO JR.
Division
of Urology, School of Medicine, State University of Campinas, Unicamp,
São Paulo, Brazil
ABSTRACT
Objective:
To compare the tissue reaction when a collagen strip and an autologous
aponeurotic fascia are subcutaneously implanted in dogs.
Materials and Methods: An experimental study
was conducted on six female adult dogs. Three fragments of the aponeurotic
fascia measuring 1.5 cm x 0.5 cm was removed from the dog and subcutaneously
implanted in the abdominal wall of the same animal along with three collagen
strip having the same measurements. Collagen type I was produced in this
institutions Biology Laboratory from bovine tendons and underwent
high purification in order to eliminate immunogenic telopeptide portions.
The implant receptor regions underwent biopsy at 7, 30 and 90 days after
the procedure and were histologically assessed using hematoxylin and eosin
stained slides to verify the presence of inflammatory cells and to conduct
a birefringent study to check for evidence of neoformed collagen.
Results: Seven days after implant, a histological
assessment showed the presence of mononuclear and histiocytic cells in
both the collagen and autologous fascia receptor regions. Thirty days
later, neovascularization was observed proximal to the collagen fragment
and neoformation of collagen had taken place. Intense fibroblastic infiltration
was observed in the autologous fascia region. After 90 days, the implanted
collagen was totally substituted by fibrous tissue (the birefringent study
did not indicate the presence of collagen fibers) and the aponeurotic
fascia was partially absorbed leaving an identifiable aponeurotic strip
surrounded by fibrosis.
Conclusion: The data obtained demonstrated
that purified type I collagen presented low inflammatory reaction with
the implant being totally reabsorbed after 90 days and substituted by
fibrous tissue. After the same period of observation, the autologous fascia
was also surrounded by fibrosis but the implant did not totally disappear.
Key words:
prostheses and implants; sling; collagen; histology
Braz J Urol, 27: 171-177, 2001
INTRODUÇÃO
A
incontinência urinária de esforço na mulher é
patologia freqüente, afetando principalmente mulheres após
a menopausa (1). As opções terapêuticas cirúrgicas
apresentam resultados diversos, variando de acordo com as características
do grupo avaliado. Várias técnicas, inicialmente utilizadas
com entusiasmo, entraram em desuso devido a complicações
e recidiva da incontinência (2).
A correção cirúrgica
da incontinência urinária de esforço através
do sling pubovaginal, utilizando-se diferentes materiais autólogos
ou artificiais, tem sido utilizada desde 1910 (3). Diferentes séries
têm demonstrado resultados duradouros utilizando-se esta modalidade
terapêutica (4-6).
A utilização de material autólogo
para confecção do sling pubovaginal, embora com resultados
satisfatórios (7), pode apresentar dificuldades na sua obtenção.
Eventualmente, torna-se necessária uma incisão abdominal
ampla, principalmente nas pacientes com várias incisões
prévias no abdome inferior, aumentando assim a dor no pós-operatório.
Para conferir características minimamente invasivas a este procedimento
cirúrgico, surgiram os materiais sintéticos que incluem
a utilização de polipropileno, dacron, silastic e material
animal não sintético como a derme de porco e fáscia
de boi (1). Entretanto, o uso destes materiais tem sido associado ao aumento
dos índices de infecção e erosão na bexiga
e uretra (8).
Os autores propõem a utilização
de uma faixa derivada do colágeno, com propriedades biológicas
similares à aponeurose muscular. Neste estudo demonstramos a reação
tecidual local com faixa de colágeno em comparação
à aponeurose autóloga.
MATERIAL E MÉTODOS
Foi
realizado um estudo prospectivo, envolvendo 6 cães fêmeas,
de raça indefinida, com idade média de 12 meses (variando
de 10 a 14 meses). Os animais foram mantidos no biotério da Instituição,
sob as mesmas condições climáticas (temperatura média
de 22°C) e recebendo a dieta própria para idade.
Na véspera dos procedimentos cirúrgicos,
todos os cães foram submetidos a banho e jejum de 12 horas. A anestesia
foi realizada através da injeção intramuscular de
solução de cloridrato de ketamina, na dose de 5 mg/Kg de
peso. Os animais foram mantidos sob ventilação espontânea,
com cateter de oxigênio nasal com fluxo de 2 l/min (9). Foi realizada
imobilização do animal em decúbito dorsal, com abdução
dos 4 membros, proporcionando exposição ideal do abdome.
Imediatamente antes do procedimento realizou-se tricotomia do abdome e
anti-sepsia cutânea, utilizando-se solução alcoólica
de polivinil pirrolidona-iodo a 10%, seguida de colocação
de campos estéreis delimitando a região a ser abordada.
O experimento constitui-se no implante de
6 fragmentos no subcutâneo da parede abdominal dos animais (Figure-1).
Os fragmentos mediram aproximadamente 1.5 x 0.5 x 0.2 cm, sendo que 3
eram formados por colágeno preparado na Instituição
e 3 oriundos de aponeurose do músculo reto do abdome retirado da
região suprapúbica do animal. Para o implante do material
foram feitas 6 pequenas incisões na pele do abdome e dissecado
o tecido subcutâneo para colocação dos fragmentos
que foram fixados no local através de um ponto, em uma das extremidades
da faixa, com fio inabsorvível, para posterior identificação
do local.
O colágeno utilizado neste estudo
foi produzido no Laboratório de Biologia dos Colágenos I
e II e Morfometria do Instituto de Biologia da Instituição,
de acordo com técnica já descrita na literatura (10).
O preparado era composto de colágeno
do tipo I obtido de tendões bovinos, constituído por duas
cadeias alfa-1 e uma cadeia alfa-2, tratado através de técnica
de alta purificação com a finalidade de eliminarem-se as
porções imunogênicas telopeptídicas.
O processo de solubilização
do preparado de colágeno consistiu na refrigeração
por período de 24 horas, dos tendões dissecados imersos
em solução aquosa, contendo 0.01% de ácido clorídrico
e 1 mg de pepsina por grama de tecido. O colágeno obtido era então
reconstituído pela adição de solução
de NaCl 0.9% até a concentração final de 5%. A seguir,
esta solução era estabilizada através de diálise
prolongada em água destilada, por período de 5 a 7 dias.
O objetivo deste procedimento foi obter
um gel de colágeno com características biológicas,
que visavam facilitar sua adesão ao endotélio e o preenchimento
vascular completo, além de permitirem a injeção através
de cateteres de fino calibre.
A esterilização do colágeno
foi realizada através do método de irradiação
com raios gama na dose de 2.5 Mrads, com o objetivo de preservar a estabilidade
estrutural das moléculas (11).
Em 3 momentos diferentes, 7, 30 e 90 dias
após o implante cirúrgico dos fragmentos, foram realizadas
duas biópsias (duas regiões diferentes em cada procedimento),
sendo uma delas em um dos locais receptor do colágeno e outra em
um dos locais receptor da aponeurose. O material retirado foi fixado através
da imersão imediata em formalina a 10%, por um período de
12 horas e, após cortes transversais de 3 mm de espessura, os fragmentos
foram progressivamente desidratados com soluções de etanol
em concentrações crescentes (70% até 100%) e a seguir
imersos em solução de xilol e incluídos em parafina.
Após esta etapa foram confeccionadas lâminas com 5 mm de
espessura, coradas com hematoxilina e eosina.
A análise histológica teve
por objetivo avaliar os seguintes parâmetros: presença de
processo inflamatório linfomonocitário e granulomatoso e
áreas de fibrose cicatrizais, a fim de detectar-se a biocompatibilidade
do enxerto de colágeno e a indução de fibrose após
o implante dos materiais. Para tanto, os parâmetros anatomopatológicos
foram divididos em: ausente, leve, moderado e intenso, de acordo com a
intensidade destes processos em cada animal. A fim de avaliar-se a presença
de neoformação de colágeno nos materiais examinados,
foi utilizado análise dos mesmos através de birrefringência,
com microscópico de luz polarizada, que possibilitou a identificação
de colágeno neoformado.
RESULTADOS
Os
resultados da análise microscópica dos parâmetros
padronizados, relativos a cada área estudada nos diferentes momentos,
encontram-se descritos nas Tables-1,2,3.
A análise histológica das
amostras teciduais obtidas após 7 dias do implante, revelou um
padrão celular semelhante na área receptora de colágeno
e na receptora da fáscia autóloga. Os tecidos implantados
apresentaram migração moderada de células redondas,
presença de partículas de hemossiderina no interior dos
macrófagos, resultantes da fagocitose de hemácias e a presença,
em todos os animais, de células mononucleares, histiócitos
e fibroblastos de intensidade moderada (Figures-2,3).
A avaliação da área
receptora de colágeno, biopsiada após 30 dias do implante,
detectou intensa neovascularização e moderada presença
de fibroblastos e histiócitos nas proximidades do enxerto (Figure-4).
Avaliação com microscópico de luz polarizada mostrou
birrefringência, acusando neoformação de colágeno
autólogo. Não se detectou presença de polimorfonucleares,
necrose e células gigantes, demonstrando a biocompatibilidade do
enxerto e ausência de resposta do tipo corpo estranho. A avaliação
do local receptor da aponeurose evidenciou infiltração moderada
de fibroblastos (Figure-5). Em ambas regiões não foram detectadas
células relacionadas com processo inflamatório crônico.
O material coletado 90 dias após
o implante do material evidenciou, na área com colágeno,
completa substituição do implante por fibroblastos e vasos
neoformados (Figure-6). A birrefringência não detectou partículas
colagênicas, caracterizando absorção total do material
implantado no subcutâneo. No local com aponeurose observou-se intensa
fibrose circundando o enxerto, entretanto, ainda observou-se áreas
onde se identificou aponeurose implantada, demonstrando que a substituição
por fibrose foi mais intensa na área receptora do colágeno
(Figure-7).
DISCUSSÃO
Uma
ampla variedade de materiais tem sido utilizada para confecção
do sling pubovaginal (1). Encontram-se descritos na literatura o uso de
fáscia lata, aponeurose do músculo reto do abdome, polipropileno,
derme de porco, mersilene, todos com resultados iniciais favoráveis,
porém com relatos de complicações (8,12,13). A utilização
de mersilene pode levar a erosão uretral com conseqüente formação
de fístula uretro-vaginal ou ainda estar associado à formação
de cálculos (14). Foram descritos infecção da ferida
operatória utilizando a derme de porco (8) e formação
de granuloma e erosão vaginal com o uso de mersilene (15). Foi
encontrada rejeição ao dacron em 19.3% dos pacientes e ao
Goretex em 30% (16). Recentemente, Martucci et al. (17) demonstraram 90%
de complicações pós-operatórias com a utilização
do sling de pericárdio bovino. Algumas teorias foram propostas
para explicar o mecanismo da rejeição induzida pelos materiais
sintéticos: presença de infecção e reação
do tipo corpo estranho, sendo que a rejeição pode ser um
fator de rejeição precoce (16). A utilização
de material rígido pode levar a formação de úlcera
facilitando a infecção secundária. O material sintético
desencadeia uma reação tecidual, promovendo uma reação
imune de hipersensibilidade tardia, sendo esta resposta maior ou menor
na dependência da biocompatibilidade do material utilizado (16).
Quando se opta pela utilização
do material sintético para a confecção do sling,
o uso de um material que leve a mínima reação do
tipo corpo estranho, pequeno risco de infecção, rejeição
e erosão são necessárias para o sucesso da correção
cirúrgica.
Desenvolvemos um estudo a fim de comparar
as reações teciduais provocadas pelo enxerto livre de aponeurose,
semelhante ao material retirado da região suprapúbica das
pacientes quando submetidas ao sling pubovaginal e de uma faixa de colágeno
do tipo I, purificado e polimerizado, implantados no subcutâneo
de cães.
Na década de 80, o colágeno
bovino foi introduzido para fins cosméticos, particularmente a
correção de pequenos defeitos em tecidos moles. Resultados
temporários (aproximadamente 6 a 18 meses) limitaram seu uso, em
conseqüência da reabsorção precoce do material
injetado (18).
Uma segunda geração de colágeno
associado a 0.0075% de glutaraldeído tornou-se posteriormente disponível,
com o objetivo de prolongar a sobrevida do enxerto e diminuir a resposta
imune celular do hospedeiro. Kligman & Armstrong (19) puderam demonstrar,
em estudos in vivo, que o material implantado é capaz de estimular
a neoformação de colágeno endógeno, produzindo
assim um efeito mais permanente. Nosso estudo demonstrou, através
da birrefringência, a presença de neoformação
de colágeno, já nos primeiros 30 dias após o implante
do colágeno, no subcutâneo da parede abdominal dos cães.
Entretanto, este foi totalmente substituído por fibrose 90 dias
após o implante. A região receptora de tecido autólogo
igualmente promoveu o desenvolvimento de fibrose, embora em menor intensidade,
após o mesmo tempo de observação. Estes dados sugerem
que a fibrose proporciona um importante apoio ao colo vesical e a uretra
média, em pacientes incontinentes submetidas ao sling pubovaginal.
Preparações com colágeno
bovino tem sido utilizada extensivamente em cirurgia plástica,
otorrinolaringologia e cirurgia geral (20). Este material tem-se demonstrado
seguro e efetivo, sendo que, ocasionalmente, ocorre resposta inflamatória
local mínima no implante de colágeno na região suburetral
da bexiga de coelhos (21). Nossa pesquisa comprova esta observação,
já que a avaliação histológica demonstrou
mínima reação inflamatória, com ausência
de células responsáveis pela reação tipo corpo
estranho, demonstrando a biocompatibilidade dos materiais implantados.
O uso do colágeno para correção
de defeitos na derme, não tem demonstrado formação
de granulomas ou reação tipo corpo estranho nos primeiros
meses pós-implante (2). Assim como a injeção subureteral
detectou apenas mínima resposta inflamatória, neovascularização
e presença de fibroblastos (21). Este mesmo estudo não constatou
alteração do colágeno implantado com o tempo: a aparência
era semelhante logo após o procedimento até 12 meses após
(21).
O enxerto de colágeno no subcutâneo
de cães levou a formação de fibrose, com total substituição
do material implantado, após noventa dias do procedimento. Ocorreu
mínima reação inflamatória tipo corpo estranho,
semelhante à resposta produzida pelo enxerto de fáscia autóloga.
Portanto, este estudo demonstra a biocompatibilidade do colágeno,
evidenciada pela ausência de polimorfonucleares, necrose, liquefação
e células gigantes e a capacidade do enxerto de colágeno
de levar a formação de neocolágeno e posterior fibrose,
sugerindo tratar-se de material seguro e resistente para confecção
de sling pubovaginal.
CONCLUSÕES
Nossos
dados permitem-nos concluir que o colágeno do tipo I, purificado,
apresenta reação inflamatória mínima, sendo
o implante totalmente reabsorvido após 90 dias e substituído
por tecido fibroso. A fáscia autóloga igualmente é
envolta por fibrose, entretanto, o processo ocorre mais lentamente, pois
ainda permanecem locais onde se pode encontrar aponeurose implantada,
após o mesmo período de observação.
A despeito do presente estudo tratar-se
de pesquisa experimental, pode-se inferir que o uso do colágeno,
na confecção dos slings pubo vaginais, é capaz de
proporcionar suporte uretral adequado, pois leva a formação
de fibrose que por sua vez é responsável pela continência
obtida nestes procedimentos cirúrgicos.
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Received: May 23, 2000
Accepted after revision: March 30, 2001
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Dra. Míriam Dambros
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