GLEASON SCORE. COMPARATIVE STUDY BETWEEN TRANSRECTAL PROSTATE BIOPSY AND RADICAL PROSTATECTOMY SPECIMEN

IOANNIS M. ANTONOPOULOS, ANTONIO C. L. POMPEO, LUIZ B. SALDANHA, MARCO A. ARAP, ALEXANDRE DANILOVIC, SAMI ARAP

Division of Urology, School of Medicine, State University of São Paulo, SP, Brazil

ABSTRACT

     Objectives: We prospectively studied 46 patients with localized prostate cancer and compared the Gleason score of transrectal prostate biopsies to those of radical prostatectomy specimens in order to evaluate how precisely Gleason grading of prostate biopsy could predict definitive Gleason score of radical prostatectomy specimen.
     Material and Methods: PSA and digital rectal examination were used for screening 2,815 patients for prostate cancer. Patients whose PSA were greater than 4.0 ng/ml and/or had abnormal digital rectal examination underwent transrectal prostate biopsy. The biopsy Gleason score of 46 patients operated upon in our service was compared to the Gleason score of the correspondent radical prostatectomy specimen. Wilcoxon test was used to verify if discrepancies found between biopsy and prostate cancer specimen were statistically significant.
     Results: It was found coincidence of Gleason score in 20 patients (43.5%). Gleason score of radical prostatectomy specimen was underestimated by biopsy in 21 patients (45.6%) and overestimated in 5 patients (10.9%). It was also observed that discrepancies were higher in those cases classified by biopsy as “well differentiated cancer”.
     Conclusions: Accuracy of histological grading (Gleason score) of prostate biopsy specimens is reasonable. Nevertheless, its limitations should be taken into account when choosing therapeutic options, particularly in cases of apparently “well differentiated cancer”.

Key words: prostate; prostatic neoplasm; biopsy; prostatectomy; neoplasm staging
Braz J Urol, 26: 609-613, 2000

INTRODUÇÃO

     A graduação histológica do tecido retirado por meio da prostatectomia radical é de grande importância na definição do prognóstico do paciente (1-4). A técnica introduzida por Gleason & Mellinger ganhou aceitação mundial e é considerada padrão na graduação histológica do CaP (3). No entanto, o escore de Gleason da biópsia é freqüentemente diferente daquele observado na peça cirúrgica o que pode resultar em inadequações na avaliação da doença e do tratamento (5-7). Essas diferenças podem ser devidas à subjetividade do método de avaliação da biópsia sendo comuns resultados discrepantes quando uma biópsia é analisada por diferentes patologistas e mesmo quando um determinado patologista analisa duas vezes seu próprio material (8). Isto pode ser particularmente importante nos casos de subestimação do grau de Gleason pela biópsia, situação na qual poderia ser indicado tratamento conservador para um tumor que se mostra bem diferenciado quando, na verdade, a doença é mais agressiva do que aparenta. O objetivo deste trabalho foi verificar a precisão da biópsia na determinação do escore de Gleason do produto da prostatectomia radical de pacientes que tiveram CaP diagnosticado em programa de rastreamento para esta doença.

MATERIAL E MÉTODOS

     De 30 de março a 3 de abril de 1998 foram convocados 3000 homens assintomáticos com idade compreendida entre 50 e 70 anos por intermédio dos meios de comunicação de massa para rastreamento gratuito de CaP. Compareceram 2815 pacientes que foram submetidos a dosagem de PSA total e exame físico prostático (EFP). Os pacientes com PSA maior que 4.0 ng/ml, EFP anormal ou que apresentaram ambas as condições foram orientados a realizar biópsia transretal de próstata. Os pacientes com diagnóstico de adenocarcinoma de próstata foram clinicamente estadiados sendo proposta prostatectomia radical para os casos em que o estadio clínico era T1C e T2. Apenas pacientes sem tratamento prévio para CaP foram incluídos no estudo. O escore de Gleason dos fragmentos da biópsia foi comparado com o da peça cirúrgica da prostatectomia radical de 46 pacientes operados (idade variando entre 51 e 71 anos com média = 63,2) dos quais 38 (82,6%) eram da raça branca e 8 (17,4%) da raça negra. Para efeito de comparação, os tumores foram também subdivididos quanto ao escore de Gleason em grupos: 2-4; 5-6 e 7-10 sendo chamados respectivamente de bem diferenciados, moderadamente diferenciados e indiferenciados. Feito isto, verificou-se em quantas situações houve mudança de classificação do tumor quanto ao grau de diferenciação. Os resultados foram estatisticamente analisados por meio de do teste de Wilcoxon.

RESULTADOS

     Foi diagnosticado CaP em 78 homens dos quais 46 foram submetidos a prostatectomia radical em nosso serviço. O escore de Gleason dos fragmentos das biópsias foi comparado com o escore obtido na peça cirúrgica e os resultados podem ser vistos na Tabela-1.



     Por meio da mesma comparação, verificou-se que houve subestimação pela biópsia em 21 casos (45,6%), superestimação em 5 casos (10,9%) e coincidência de grau nos 20 casos restantes (43,5%).
     A comparação do grau de Gleason da biópsia e da peça cirúrgica da amostra total está apresentada na Tabela-2.



     A discrepância numérica que ocorreu nos 26 casos em que não houve concordância entre biópsia e peça cirúrgica pode ser vista na Tabela-3.



     Quando subdividimos os tumores diagnosticados em bem diferenciados (Gleason 2-4); moderadamente diferenciados (Gleason 5 e 6) e indiferenciados (Gleason 7-10), notamos que em 28 casos houve coincidência de classificação entre a biópsia e a peça cirúrgica, havendo 17 casos de subestimação e apenas 1 caso de hiperestimação.

DISCUSSÃO

     A graduação de Gleason da peça cirúrgica da prostatectomia radical é um importante fator prognóstico para pacientes com CaP. Quando estamos diante de uma biópsia pré-operatória diagnóstica com resultado de câncer, a decisão a ser tomada baseia-se, em parte, na desejável boa correlação entre a graduação histológica da biópsia e da peça cirúrgica. No entanto, o CaP é sabidamente uma doença multifocal o que leva à possibilidade de erros no processo de amostragem (1). De fato, o escore de Gleason da biópsia freqüentemente é diferente daquele verificado no produto da prostatectomia radical (1,5-7). Mesmo Gleason, estudando seu próprio material, notou erros de subestadiamento em até 50% das biópsias analisadas (8). A análise de nossos resultados mostra que vários problemas potenciais precisam ser levados em conta quando se usa o escore de Gleason de uma biópsia para se tomar decisões pois mudanças de grupo (bem diferenciado, moderadamente diferenciado e indiferenciado) ocorreram em 37% dos casos. Grandes discrepâncias na graduação de Gleason (diferenças iguais ou maiores que 2 pontos) foram notadas em 28,6% dos casos, sendo as diferenças de pontuação encontradas entre biópsia e peça cirúrgica estatisticamente significantes. Além disso, pudemos verificar que 100% dos tumores que se mostravam bem diferenciados (Gleason 4) na biópsia provaram ser mais indiferenciados no resultado anatomopatológico final (Gleason 5, 6 ou 7).
     O risco de conduta inadequada parece ser mais alto justamente nos tumores aparentemente bem diferenciados pois quanto mais indiferenciado se apresenta um tumor na biópsia, maior a coincidência no estadiamento patológico final, fato já demonstrado por Steinberg que comprovou que 64% das biópsias com grau 5-6 apresentavam coincidência com a peça cirúrgica (9) . Quando se analisa o que acontece com biópsias cujo escore de Gleason é maior ou igual a 7, a coincidência na prostatectomia radical chega a 87,5%. Em nosso material, nos 17 casos classificados pela biópsia como indiferenciados, houve confirmação na peça cirúrgica em 16 casos (94,1%) e apenas 1 caso foi reclassificado como sendo de tumor moderadamente diferenciado. Conclui-se disto que os achados eventualmente preocupantes numa biópsia (escore³7) podem na realidade ter grande chance de mudarem para escala maior (8-10). Achados favoráveis na biópsia prostática não nos dão segurança de que o tumor da peça cirúrgica não possa ser mais agressivo do que aparenta ser na biópsia.
     A importância da interpretação adequada dos achados da biópsia reside no fato de alguns autores sugerirem conduta expectante num tumor de escore de Gleason mais baixo e níveis menos elevados de PSA (10,11) quando talvez a melhor estratégia terapêutica nos levasse a recomendar tratamento mais agressivo.
     Existem vários motivos para explicar os erros de interpretação do grau de Gleason de uma biópsia. O primeiro deles é o erro do próprio patologista especialmente no que toca a subestimação do referido grau (8,12). Steinberg et al., reanalisaram 87 biópsias com tumores classificados como Gleason 2-4 encaminhadas de outros serviços de patologia, verificando que apenas em 4 casos (4,6%) o escore se manteve em 2-4, enquanto que 68 casos (78,2%) foram classificados como escore 5-6. Em outras palavras, quando recebemos do patologista a informação de que o câncer numa biópsia tem escore 2-4, é praticamente certo que o escore real seja pelo menos 5-6 (9).
     Outra fonte de discrepância entre o grau atribuído ao tumor na biópsia e na peça cirúrgica é o achado, na biópsia, de tumores com características limítrofes entre um grau e outro provocando confusão na leitura da lâmina pelo patologista e aumentando a variação inter-examinador.
     Finalmente, a fonte de discrepância pode estar em erros de amostragem. Um exemplo comum deste tipo de erro ocorre quando existe uma área na próstata onde o tumor apresenta grau elevado e esta área não é atingida pela agulha de biópsia. Tipicamente isto ocorre na biópsia cujo resultado é escore 6 (3+3) e existe uma área na próstata com escore 4 o que resulta num laudo final na peça cirúrgica de 7 (3+4). O erro de amostragem reverso também pode ocorrer quando uma biópsia atinge por acaso uma pequena área onde o tumor tem escore 7 (3+4) e a peça cirúrgica revela que o tumor tem escore 6 (3+3) em 99% do volume com uma minúscula área onde o escore é 7.
     A vantagem de um sistema de graduação como o de Gleason é permitir estabelecer um prognóstico. Usando a graduação de Gleason da biópsia, o PSA e o estadio clínico os urologistas são capazes de estimar o estadio patológico usando as tabelas de Partin e mesmo avaliar a probabilidade de cura após a cirurgia (13,14). A desvantagem reside nos fatores expostos acima e que podem induzir a erros na escolha da melhor alternativa terapêutica em algumas situações.

CONCLUSÕES

     A confiabilidade da graduação de Gleason nas amostras teciduais obtidas por biópsia transretal, apesar de razoável, demanda atenção para suas limitações merecendo especial cuidado os casos que se mostram bem diferenciados quando se trata de discutir opções terapêuticas. A comparação de resultados de tratamentos baseada exclusivamente em dados de biópsias também precisa ser vista com ressalvas.

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Isac Castro realizou a análise estatística.
Alexsandro G. da Silva e Fátima Jesus forneceram
apoio em informática.


REFERÊNCIAS

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  2. Epstein JI, Pizov G, Walsh PC: Correlation of pathological findings with progression after radical retropubic prostatectomy. Cancer, 71: 3582-3593, 1993.
  3. Gleason DF, Mellinger GT: The Veterans Administration Cooperative Urological Research Group: prediction of prognosis for prostatic carcinoma by combined histological grading and clinical staging. J Urol, 111: 58-64, 1974.
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  9. Steinberg DM, Sauvageot J, Piantadosi S, Epstein JI: Correlation between needle biopsy and radical prostatectomy Gleason grade in academic and community settings. Am J Surg Pathol, 21: 566-576, 1997.
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Received: August 18, 2000
Accepted after revision: September 11, 2000


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