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BLADDER HERNIATION
AS CAUSE OF ACUTE URINARY OBSTRUCTION
ALEX E. MELLER,
VALDEMAR ORTIZ, MIGUEL SROUGI
Division
of Urology, Paulista School of Medicine, Federal University of São Paulo,
São Paulo, SP, Brazil
ABSTRACT
Herniation
of a urological structure trough the inguinal canal has been previously
reported, the first case in literature was described by Chauliac in 1363.
This unusual condition represents 1 to 3% of the hernias.
A 63-year-old man presented with uretral
catheterization due to acute urinary retention after a cardiac surgery.
The patient had a 10-year history of symptoms of nocturia, frequency,
poor stream and increase in volume of scrotum. Physical examination revealed
a small benign prostate and a large left inguinal hernia. The patient
reported that the hernia fluctuated in size with voiding. Serum electrolytes
and renal function were normal. Pelvic and scrotum ultrasound and a retrograde
cystography demonstrated a small amount of bladder in the anatomical position
and herniation of the remaining bladder through the inguinal canal into
the scrotum. The inguinal hernia was repaired and a partial cystectomy
was performed. The outcome was uneventful and the patient was discharged
on postoperative day 3 with uretral catheter. The catheter was maintained
for 10 days and after it withdraws spontaneously diurese was achieved.
One month postoperatively the patient had high residual volume confirmed
by ultrasound and a program of intermittent catheterism was necessary.
Key words:
bladder; urinary obstruction; hernia
Braz J Urol, 26: 614-616, 2000
INTRODUÇÃO
A
herniação vesical pelo canal inguinal é considerada
situação clínica pouco comum, e foi descrita pela
primeira vez em 1363 por Chauliac (1). Esta rara condição
clínica corresponde a 1 a 3% das hérnias e apresenta quadro
clínico variado, desde ausência de sintomas até retenção
urinária aguda e insuficiência renal aguda (2). Descrevemos
um caso clínico com breve revisão sobre o assunto.
RELATO DO CASO
Paciente
W.C.A., sexo masculino, 63 anos, apresentava-se com sonda vesical de demora
há 6 meses por retenção urinária aguda após
cirurgia cardíaca, desde então em uso de antibioticoprofilaxia.
Referia aumento progressivo do volume escrotal
à direita há 10 anos, evoluindo para dificuldade de iniciar
a micção há 2 anos, acompanhado de diminuição
do jato e noctúria. Refere também necessitar de manobra
de compressão manual do escroto para melhorar o jato urinário.
Antecedente de coronariopatia, hipertensão arterial, diabetes,
tabagismo (2 maços/dia por 35 anos) e revascularização
miocárdica há 6 meses. O exame físico revelou abdome
flácido, em avental, presença de grande hérnia inguino-escrotal
à direita encobrindo o pênis, testículo palpável
à esquerda e não palpável à direita. O toque
retal revelou próstata com cerca de 40 gramas, fibroelástica
sem nodulações.
Os exames laboratoriais eram normais. A
ultra-sonografia mostrava rins e ureteres normais, escroto direito com
grande quantidade de líquido em seu interior, ausência de
septações, testículo direito normal. A uretrocistografia
retrograda e miccional revelou pequena porção de bexiga
no interior da pelve e a maior porção da mesma localizada
no interior do escroto (Figura).

O paciente foi mantido sondado e submetido
a procedimento cirúrgico para reparo da hérnia utilizando-se
tela de Marlexâ, sendo necessária a ligadura do cordão
espermático e orquiectomia direita devido a aderência ao
saco herniário. A bexiga encontrava-se muito dilatada sendo realizado
cistectomia parcial e colocação da mesma em posição
anatômica na cavidade pélvica.
O paciente evoluiu sem intercorrências
recebendo alta com sondagem vesical de demora no terceiro dia pós-operatório,
que foi mantida por 10 dias. No primeiro mês pós-operatório
o paciente apresentava diurese espontânea com alto resíduo
urinário pós-miccional confirmado à ultra-sonografia,
sendo então instituído programa de cateterismo intermitente
com sucesso.
DISCUSSÃO
As
hérnias vesicais representam 1 a 3% de todas as hérnias
e acometem pacientes a partir da 5a. década de vida. Sua distribuição
em relação ao sexo é de 70% no sexo masculino e 30%
no feminino, e quanto ao lado acometido, é 70% à direita,
10% à esquerda e 20% bilateral (1). A maioria não apresenta
sintomas e, muitas vezes, consiste em achado cirúrgico durante
a correção de hérnias inguinais podendo ocorrer lesão
vesical durante este procedimento (4). As hérnias sintomáticas
causam disúria, polaciúria, infecções urinárias
de repetição, litíase e raramente hematúria
terminal e retenção urinária aguda, podendo evoluir
para insuficiência renal (3). Muitos casos apresentam associação
com hiperplasia prostática que pode agravar o quadro clínico,
às vezes necessitando de desobstrução concomitante
ao procedimento de reparo da hérnia (4).
As hérnias vesicais distribuem-se
em inguinais (60%) e o restante em obturatórias, crurais, isquiáticas
e da linha de Spiegel (1). As formas mais comuns de herniação
são (em ordem de freqüência): bexiga + saco peritoneal,
bexiga + ureter e bexiga herniando intraperitonealmente (1).
O diagnóstico radiológico
consiste na uretrocistografia retrograda e miccional e urografia excretora
para localização dos ureteres. A ultra-sonografia auxilia
o diagnóstico, porém a similaridade com quadros de hidrocele
pode dificultar a conclusão diagnóstica.
O tratamento consiste em cirurgias para
reforço da parede abdominal e reposicionamento anatômico
da bexiga na cavidade pélvica.
REFERÊNCIAS
- Benchekroun
A, Lachkar A, Soumama A, Farih MH, Belahnech Z, Marzouk M, Fari M: Les
hernies inguinales de la vessie: a propos de 6 cas. Ann Urol, 33: 67-70,
1999.
- Laniewski
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- King
LR: Bladder Diverticulum. In: PC Walsh, AB Retik, TA Stamey, ED Vaughan,
Jr. (eds.), Campbells Urology. Philadelphia, WB Saunders, 6th
ed., vol 2, chapt. 44, pp. 1704-1708, 1992.
- Kumon
H, Ozawa H, Yokoyama T, Rivas DA, Watanabe T, Chancellor MB: Inguinal
cystoceles: a previously overlooked etiology of prostatism in men without
bladder outlet obstruction. J Urol, 159: 766-771, 1998.
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Received: August 2, 2000
Accepted after revision: October 23, 2000
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Correspondence address:
Dr. Alex E. Meller
Praça Centenário de Vila Prudente, 143 apto 84
São Paulo, SP, 03132-050, Brazil
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