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ANALYSIS OF THE
ASSOCIATION BETWEEN HUMAN PAPILLOMAVIRUS WITH PENILE CARCINOMA
ANTONIO O. GIL,
ANTONIO C. L. POMPEO, PAULO J. GOLDSTEIN, LUIZ B. SALDANHA, JOSÉ L. B.
MESQUITA, SAMI ARAP
Division
of Urology, General Hospital, School of Medicine, State University of
São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brazil
ABSTRACT
Objective:
To determine the incidence and which type of human papillomavirus (HPV)
was more prevalent in penile epidermoid carcinoma. To determine the influence
of HPV in the biological behavior of the tumor in relation to the following
variables: coilocitosis, clinical and pathological staging and histological
grading. Prognostic factors like survival curve and death risk from the
tumor are also studied in relation to the presence of HPV.
Material and Methods: Fifty-five patients
with penile epidermoid carcinoma, surgically treated between 1979 and
1995, were retrospectively studied. The mean follow-up was 31.6 months.
The presence of HPV was studied by polymerase chain reaction (PCR) on
the most representative surgical specimens of the primary tumor and metastasis.
The patients whose tumors had HPV type-16 were placed into groups separated
from those uninfected by the virus and those infected by any other viral
type.
Results: Patients having HPV type-16 in
their tumors were submitted to major surgical procedures to remove the
primary tumor (p = 0.04). The relative risk of death for patients with
HPV type-16 was 7.59 times greater than that for the virus negative group.
Also, patients presenting HPV type-16 in the tumor presented a lower tendency
for survival (without statistical significance). Coilocitosis was detected
in 12 patients, presenting a significant correlation with the presence
of HPV type-16 (p = 0.026).
Conclusion: The infection by HPV was strongly
associated with penile epidermoid carcinoma (30.9%). Also, the presence
of coilocitosis is strongly associated with viral infection. The presence
of HPV type-16 in the tumors was associated with increased tumor-related
mortality.
Key words:
penis; penile carcinoma; epidermoid carcinoma; tumors; human papillomavirus
Braz J Urol, 27: 461-468, 2001
INTRODUÇÃO
O
câncer de pênis constitui neoplasia rara, correspondendo a
0.4% das neoplasias malignas no homem em países desenvolvidos (1).
No Brasil a incidência varia conforme a região estudada,
de 5.5% a 16% nas regiões Norte e Nordeste e de 1 a 4% nas regiões
Sul e Sudeste (2).
A
incidência maior de câncer de pênis ocorre entre a quarta
e sétima décadas de vida (3), com 97% dos casos representados
pelo carcinoma epidermóide (CE).
Apesar
de não haver provas inequívocas da associação
da infecção pelo Papilomavírus humano (HPV) e carcinoma
de pênis, alguns trabalhos publicados na literatura demonstraram
associação de 30% a 50% do HPV, principalmente o tipo 16,
com este tumor (4,5).
A
presença do HPV em carcinoma de pênis foi demonstrada pela
primeira vez em 1983, por Durst et al. (6). No Brasil, Mccance et al.
(7) e Villa & Lopes (8) encontraram o vírus em 8 de 18 e 27
de 53 pacientes, respectivamente.
Os
HPVs de alto risco, particularmente os tipos 16 e 18, são capazes
de produzir proteínas que alteram a função normal
de replicação das células. A proteína E6 dos
HPVs de alto risco tem a capacidade de complexar e inativar a proteína
supressora de tumores p53, inibindo a resposta normal de parada do ciclo
celular, favorecendo o acúmulo de mutações e deterioração
maligna (9).
O
CEP é doença com disseminação regional, e
sua extensão no pênis e em linfonodos inguinais e/ou ilíacos
tem relação com o prognóstico e sobrevida dos pacientes.
As
diversas formas de tratamento dessa neoplasia visam sobrevida livre do
tumor com mínima morbidade e poucas seqüelas funcionais após
o tratamento.
O
intuito desse trabalho foi determinar a prevalência do HPV em células
de carcinoma epidermóide de pênis, avaliando a influência
do HPV nestes tumores quanto ao estádio clínico inicial,
estádio patológico, graduação histológica,
presença de coilocitose nas células adjacentes ao tumor
e a influência do HPV no prognóstico e sobrevida dos pacientes.
CASUÍSTICA
E MÉTODOS
Foram
estudados retrospectivamente 55 pacientes com diagnóstico de carcinoma
epidermóide primário de pênis, tratados cirurgicamente
de janeiro de 1979 a dezembro de 1995. Em todos os casos havia material
anátomo patológico e prontuários para análise.
A
faixa etária dos pacientes variou de 23 a 80 anos e o tamanho das
lesões penianas de 1 a 8 cm no maior eixo, com médias de
57.20 anos e 3.40 cm.
Dos
55 pacientes, 48 tiveram seguimento pós-operatório satisfatório,
que variou de 5 a 120 meses, com média de 31.6 meses.
Todos
os pacientes foram submetidos a estadiamento clínico do tumor com
exame físico, ultra-sonografia abdominal, radiografia de tórax
e, em alguns casos, tomografia computadorizada de abdome.
Para
avaliação do estádio clínico foram utilizados
os critérios propostos por Jackson (10), com a seguinte distribuição:
estádio I - 17 casos (30.9%), estádio II - 22 (40.0%), estádio
III - 14 (25.5%) e estádio IV - 2 casos (3.6%). Esta foi adotada
pois a classificação TNM ainda não era adotada universalmente
no início deste trabalho e, conforme alguns relatos, existe grande
correlação entre estas classificações no CEP
(11).
A
amputação de pênis foi realizada em todos os pacientes,
sendo parcial em 44 casos, total em 8, e 3 emasculações
com ressecção parcial de escroto. Nos casos de amputação
total do pênis ou emasculação, uretrostomia perineal
foi realizada.
Trinta
e nove pacientes foram submetidos à linfadenectomia inguinal bilateral
pelo menos 1 mês após o tratamento do tumor primário,
e 2 à linfadenectomia ilíaca (11).
O
diagnóstico histopatológico das peças cirúrgicas
foi revisado por um único patologista, utilizando para a graduação
histológica a classificação de Broders (12).
Após
essa análise, foram selecionados os blocos de anátomo-patológico
mais representativos dos tumores e realizados novos cortes para estudo
da prevalência de infecção pelo HPV pela técnica
de reação de cadeia de polimerase (PCR) segundo a seguinte
metodologia (13):
1)- Realizou-se 1 corte de 12 micra no bloco de parafina e tratou-se a
amostra para desparafinização da mesma e posterior exposição
do DNA da amostra;
2)- As lâminas de corte foram trocadas após cada corte para
se evitar contaminação das peças;
3)- Verificou-se a qualidade da amostra, realizando-se, inicialmente,
a técnica de PCR para a presença de beta-globina, fazendo-se
a amplificação do gene e análise em gel de acrilamida
corado pela prata. A amplificação para os genes do HPV é
realizada com 1 par de iniciadores: MY09 e MY11 que reconhecem todos os
tipos de HPV conhecidos (Perkin Elmer, Foster City, Ca, USA). Como controle
positivo, utiliza-se DNA extraído de linhagem celular SIHA, derivada
de carcinoma de colo uterino, e também um controle negativo e outro
com nenhum DNA. Para se aumentar a sensibilidade do teste, foi utilizado
também nos cortes inicialmente negativos para a presença
do HPV, a amplificação com um segundo tipo de iniciador,
que é capaz de identificar um fragmento menor de DNA, que aqueles
observados pelos iniciadores MY09 e MY11. A identificação
do tipo de HPV foi realizada por aplicação em gel de poliacrilamida
do produto da digestão dos casos positivos com 7 enzimas de restrição.
Após a eletroforese os fragmentos foram visualizados por coloração
em nitrato de prata e análise das bandas conforme os mapas de restrição
dos diversos tipos de HPV (Figures- 1 e 2).
Os
outros fatores analisados como: graduação histológica,
estádio clínico e patológico, coilocitose e óbito
pelo tumor também foram estudados em relação à
presença do DNA do HPV.
A
análise estatística visou determinar fatores associados
com a apresentação clínica desses tumores e também
fatores prognósticos, utilizando-se o teste de c2 (qui-quadrado)
ou o teste exato de Fisher. Para comparação de comportamento
dos 2 métodos de avaliação do estadiamento foi utilizado
o índice de reprodutibilidade Kappa.
A
expectativa de sobrevida foi avaliada por meio das curvas de sobrevida
de Kaplan-Meier, com relação à presença do
HPV.
Para
a obtenção de fatores preditivos de óbito pelo tumor
foi utilizada a regressão logística. Os resultados das análises
dos riscos de óbito foram obtidos segundo a técnica de regressão
de Cox.
O
nível de significância utilizado para os testes foi de 5%.
RESULTADOS
Durante
o estudo de 48 pacientes com seguimento houve 14 óbitos (30.4%),
sendo 12 (27.3%) relativos ao tumor.
Das
41 linfadenectomias realizadas, 19 apresentaram metástases para
linfonodos (46.3%), sendo 11 unilaterais e 7 bilaterais para linfonodos
inguinais e 1 para linfonodos ilíacos. Este paciente com metástase
para linfonodos ilíacos apresentou metástases inguinais
previamente. Durante o estudo, ocorreram 3 recidivas (5.4%) em penectomias
parciais e 4 recidivas em leito de linfadenectomia.
A
presença do HPV foi detectada em 17 pacientes (30.9%), sendo 18.2%
com infecção pelo tipo 16, e o restante dividido entre os
outros tipos de vírus (Figure-3).
A
maior parte dos tumores tinha graduação baixa ou intermediária,
sendo 18 casos (32.7%) com grau I, 26 (47.3%) grau II e 11 casos (20.0%)
grau histológico III. Os pacientes com HPV 16 nas células
tumorais apresentaram tendência maior à histologia desfavorável,
porém esses dados não obtiveram significância estatística
(p = 0.221).
Não
houve diferença significante quanto aos estádios clínico
ou patológico em relação à presença
do HPV, conforme as Tables-1 e 2.
A
coilocitose foi detectada em 12 pacientes, tendo associação
estatisticamente significativa com a presença do HPV 16 (p = 0.026).
O
óbito pelo tumor também foi influenciado pela presença
do DNA do HPV, tendo os pacientes com o HPV 16 pior prognóstico
que os outros grupos (Table-3).
Os
pacientes com o HPV 16 foram submetidos a operações maiores,
com significância estatística quando colocados no mesmo grupo
os pacientes submetidos a emasculação e penectomia total.
A Table-4 mostra estes resultados.
Os
pacientes com presença do tipo 16 do HPV nos tumores apresentaram
risco relativo de óbito 7.59 vezes maior que o grupo negativo para
a presença do vírus.
As
curvas de sobrevida mostram prognóstico pior para os pacientes
com presença do tipo 16 do HPV, porém sem significância
estatística. (Figure-4).
DISCUSSÃO
O
índice de associação do CEP com o HPV pode variar
de acordo com a metodologia aplicada para a detecção do
vírus, tendo a análise de material a fresco positividade
maior que o material parafinado (14). No nosso estudo, a porcentagem de
casos onde não foi possível a obtenção de
DNA para análise mesmo após amplificação foi
de 5.53%.
Kulski
et al. (15), utilizando hibridização in situ, encontraram
DNA do HPV em 2 de 10 espécimes de carcinoma de pênis. Villa
& Lopes (8) encontraram o vírus em 8 de 18 pacientes, utilizando
a técnica de Southern blot.
A
infecção pelo HPV foi determinada nesse estudo pela PCR,
método mais sensível atualmente, identificando o vírus
em 17 dos 55 pacientes ou 30.9%, sendo compatível com a literatura
(16).
Chan
et al. (17), estudando a presença do HPV pela PCR em 34 pacientes
com carcinoma epidermóide de pênis encontraram os tipos 16
e/ou 18 em 6 pacientes (17.6%).
Gregoire
et al. (18) estudaram 117 pacientes com carcinoma de pênis e encontraram
o HPV por meio da PCR em 26 casos (22.2%), sendo estes associados a tumores
mais indiferenciados. Na nossa casuística encontramos vários
tipos, porém o tipo 16 foi o mais prevalente, sendo detectado em
60% dos pacientes positivos, correspondendo a 18.2% de todos os casos.
Todos
esses estudos têm demonstrado freqüência maior dos HPVs
de alto risco, principalmente o tipo 16, à exceção
do trabalho de Villa & Lopes (8) que encontraram o tipo 18 na maioria
dos casos.
O
estudo da influência do HPV na apresentação clínica
e características anatomopatológicas do carcinoma de pênis
é importante pois estes podem apresentar maior anaplasia quando
associados à infecção viral (19).
Esses
dados são conflitantes, pois Wiener et al. (16) estudaram 29 pacientes
com carcinoma de pênis invasivo, encontrando positividade para o
HPV nesses tumores de 31%, porém nenhuma diferença estatisticamente
significante com respeito à graduação histológica
ou presença de metástases foi encontrada.
O
CEP, conforme a literatura, é neoplasia que se caracteriza por
apresentar diferenciação boa ou moderada na maioria dos
casos (19). A graduação histológica dos tumores na
nossa população segue esses dados, tendo 80% dos casos histologia
bem ou moderadamente diferenciada, e apenas 20% tumores indiferenciados.
O grupo positivo para infecção pelo HPV 16 apresentou-se
com tumores mais anaplásicos que os outros grupos, porém
sem significância estatística.
Chan
et al. (17) encontraram apenas 15% de 41 pacientes com positividade para
o DNA do HPV, que foram dos tipos 16 e 18 exclusivamente, e os tumores
menos diferenciados também apresentaram maior prevalência
do vírus.
A
maior parte dos pacientes em nossa casuística apresentava-se com
moléstia localizada quando vistos da primeira vez, reproduzindo
dados da literatura (20). O estádio patológico comprovou
estes achados, pois 65.5% dos pacientes estavam nos estádios I
e II de Jackson e 34.5% nos estádios III e IV.
Observamos
tendência dos pacientes com HPV 16 nas células tumorais apresentarem
moléstia metastática, tendo 50% desses estádios III
e IV, contra 31.58% dos pacientes negativos e 28.58% dos pacientes positivos
para outros tipos. Wiener et al. (16) não encontraram essa tendência,
havendo distribuição homogênea entre os pacientes
com e sem metástases, e infecção pelo HPV nos tumores.
Merece
destaque a correlação significativa encontrada entre coilocitose
e presença do HPV. Sob o ponto de vista prático, estas alterações
histológicas devem ser interpretadas como muito sugestivas de infecção
pelo HPV.
A
nossa casuística compreendeu pacientes com amputações
parciais ou totais, com índice de recidiva local de 5.4% apenas
nas amputações parciais. Quando se agruparam as operações
de maior porte no tumor primário em um mesmo grupo, pudemos verificar
que os pacientes com HPV 16 são freqüentemente submetidos
a procedimentos maiores, portanto com maior morbidade, sendo esta tendência
estatisticamente significativa.
Durante
o período de estudo, a sobrevida total dos pacientes foi de 70.8%,
havendo 12 óbitos relacionados ao tumor. A presença do HPV
16 nos tumores influenciou negativamente o prognóstico dos pacientes,
pois de 9 pacientes positivos para o tipo 16 com seguimento, 5 morreram
devido ao tumor no período de seguimento, correspondendo a 41.67%
do total de óbitos pela neoplasia. Estes dados obtiveram significância
estatística e, como pudemos ver na curva de sobrevida dos pacientes
com relação à presença do vírus, os
pacientes com positividade para o HPV 16 tendem a ter menor sobrevida
que os outros grupos (Figure-4). A odds ratio para óbito nos pacientes
com tipo 16 foi de 7.59, com intervalo de confiança de 95%.
A
busca de fatores prognósticos para pacientes portadores de neoplasia
tem sido uma das metas da medicina, visando a melhora na qualidade e aumento
na expectativa de vida. No caso do CEP, dados da literatura e os demonstrados
neste trabalho mostram a importância da presença do HPV em
relação ao comportamento biológico desses tumores.
CONCLUSÕES
O
HPV demonstrou associação significativa com o carcinoma
de pênis (30.9%), com maior prevalência do tipo 16.
Existe
correlação expressiva entre coilocitose e infecção
viral.
A
presença do HPV 16 demonstrou tendência a influenciar negativamente
a evolução dos pacientes, os quais apresentaram maior mortalidade
e menor tempo de sobrevida.
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_________________________
Received: November 23, 2000
Accepted after revision: September 29, 2001
_______________________
Correspondence address:
Dr. Antonio Otero Gil
Rua Cotoxó, 611 / 105
São Paulo, SP, 05021-000, Brazil
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