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THE
LICH-GREGOIR ANTIREFLUX PROCEDURE:
EXPERIENCE FROM 118 CASES
ADRIANO ALMEIDA
CALADO, UBIRAJARA BARROSO JR.,
MÁRCIO EL AMMAR MÜLLER, MIGUEL ZERATI FILHO
Institute
of Urology and Nephrology, São José do Rio Preto, SP, Brazil
ABSTRACT
Introduction:
Various techniques of ureteral reimplantation have been described for
correction of vesicoureteral reflux. We report our experience regarding
the safety and efficacy of the Lich-Gregoir extravesical approach.
Material and Methods: 118 patients aged
6 to 47 years (average 9.4) underwent the extravesical antireflux procedure
(66 with unilateral and 52 with bilateral reflux). A total of 170 vesicoureteral
units were reimplanted. All of the patients underwent ureteroneocistostomy
using a modified Lich-Gregoir technique. The detrusor muscle was opened
up to the mucosa in 3-5 cm length incision was made in the detrusor muscle,
which was then opened up to the mucosa. In the paraureteral region, this
incision ended in an inverted Y shape, in each side of the
ureterovesical junction. The patients were followed with voiding cystourethrogram,
ultrasonography and a radionuclionuclide scan.
Results: The overall success rate of this
operation was 95%, as confirmed by a normal voiding cystourethrogram 3
to 6 months postoperatively. Post-operative complications occurred in
13 patients (11%). Three patients presented wound infection, while urinary
fistula was detected in 7, and ureteral obstruction in 3. All patients
who presented ureteral obstruction underwent new ureteral reimplantation.
Urinary retention developed in 3 patients with bilateral reimplantation
(5.7%) with successful recovery in all after conservative management.
The mean time of follow-up was 67.8 months, ranging from 3 months to 22
years.
Conclusion: The Lich-Gregoir antireflux
procedure is simple, safe, has low morbidity and a high rate of cure,
even in cases of bilateral reflux.
Key words:
ureter, vesico-ureteral reflux, replantation
Braz J Urol, 26: 372-377, 2000
INTRODUÇÃO
O
refluxo vesicoureteral (RVU) é uma patologia freqüente cuja
incidência na população geral varia de 1 a 18.5% (1),
e, pode ser acompanhada de alta morbidade. A história natural do
RVU vem constantemente modificando sua abordagem terapêutica, principalmente
no que diz respeito às indicações da correção
cirúrgica. Conhecimentos recentes indicam que o tratamento deve
ser individualizado. Quando há indicação de cirurgia,
várias técnicas podem ser utilizadas e estes procedimentos
podem ser classificados como intravesicais, extravesicais ou combinados.
Apresentam uma taxa de cura do RVU em torno de 95% dos casos (2). A abordagem
extravesical foi descrita por Lich et al. (1961) (3) e popularizada por
Gregoir & Van Regemorter (1964) (4). Vários autores posteriormente
também obtiveram excelentes resultados com esta técnica.
Os defensores desta técnica têm descrito algumas vantagens
quando comparada com as intravesicais, incluindo diminuição
do espasmo vesical pós-operatório, menor incidência
de hematúria e redução do período de hospitalização
(5,6). Por outro lado, alguns estudos têm demonstrado que sua principal
desvantagem é a retenção urinária ou disfunção
miccional transitória pós-operatória, principalmente
na cirurgia bilateral (6,7).
No
presente estudo relatamos a nossa experiência com a cirurgia de
Lich-Gregoir no tratamento do refluxo vesicoureteral.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram
avaliados retrospectivamente os prontuários de 118 pacientes que
foram tratados pela técnica de Lich-Gregoir, no período
de abril de 1972 a junho de 1998. Dos 118 estudados, 52 eram portadores
de refluxo bilateral, perfazendo um total de 170 unidades renais. Todos
foram submetidos a cistouretrografia miccional (CUM), sendo o refluxo
documentado e classificado (em graus de I a V) de acordo com as normas
do International Reflux Study Comittee (8). No período pré-operatório
eram submetidos a exames laboratoriais e mantidos em quimioprofilaxia.
O parênquima renal era avaliado com estudo radioisotópico
(ácido dimercaptossuccínico - DMSA), urografia excretora
ou ambos. Os pacientes eram levados à cirurgia de acordo com os
critérios habituais (lesão renal importante, infecção
recorrente, aumento de cicatriz renal, difícil seguimento clínico
e grau elevado).
A
técnica cirúrgica adotada foi essencialmente a mesma descrita
por Lich (3) & Gregoir (4), com discretas modificações.
O ureter era abordado através de incisão de Pfannestiel
nos refluxos bilaterais e através de incisão supra-inguinal
nos refluxos unilaterais. Os casos de duplicidade ureteral foram tratados
como unidades simples, isto é, sem a separação dos
ureteres. Após identificação e isolamento do ureter
terminal, a bexiga foi distendida com solução fisiológica
através de sonda uretral. A musculatura detrusora era completamente
seccionada até a mucosa vesical numa extensão de 3 a 5 cm,
terminando a miotomia com um prolongamento em Y invertido
de cada lado da junção ureterovesical. O ureter era colocado
no túnel e a musculatura suturada com pontos separados. O espaço
perivesical era drenado com penrose e uma sonda vesical de Foley era mantida
durante 1 a 3 dias. Todos os operados receberam antibióticos, iniciados
durante a indução anestésica e mantidos por 7 dias.
Após este período os pacientes retornavam à dose
de profilaxia, que só era suspensa depois de comprovada a cura
do RVU. Com 1 mês de pós-operatório eram submetidos
a exames laboratoriais e ultra-sonografia renal. No 3º mês
pós-operatório eram submetidos a nova CUM. Se a CUM mostrasse
persistência do refluxo ou aparecimento de refluxo contralateral,
era mantida a quimioprofilaxia e novo exame no período de 6 meses.
Ultra-sonografia ou cintiligrafia pós-operatórias foram
solicitadas semestralmente enquanto foi mantido o seguimento.
RESULTADOS
Dos
118 pacientes, 12 (10.1%) eram do sexo masculino e 106 (89.9%) do sexo
feminino. A idade média foi de 9.4 anos (6 meses - 47 anos). Com
relação ao quadro clínico que levou ao diagnóstico
de RVU, a infecção urinária foi o principal achado
(88.9%), seguida em menor freqüência por febre inexplicável
em 3 (2.5%), dor lombar em 3 (2.5%), achado antenatal, disfunção
miccional e corrimento vaginal em 2 (1.7%) pacientes cada.
Com
relação aos achados anatômicos renais, 94 pacientes
apresentavam um sistema simples, 3 duplicidade completa bilateral, 9 duplicidade
completa a direita e 12 duplicidade completa a esquerda. Dois pacientes
eram portadores de rim único.
O
refluxo vesicoureteral foi unilateral em 66 pacientes (56%) e bilateral
em 52 (44%). A Tabela-1 mostra a estratificação dos pacientes
por grau de refluxo segundo a classificação do International
Reflux Study Committee (8).

Os
parênquimas renais foram avaliados no pré-operatório
por estudo radioisotópico renal (DMSA) em 22 pacientes e por urografia
excretora em 82 pacientes, sendo que 17 pacientes realizaram ambos. 46
pacientes (39%) apresentavam parênquima renal normal, enquanto que
foram evidenciadas cicatrizes renais em 58 pacientes (49.1%) sendo estas
segmentares em 22, e, generalizadas em 36.
Os
pacientes portadores de disfunção miccional pré-operatória
foram tratados clinicamente com diciclomina ou oxibutinina. Todos apresentavam
melhora ou cura dos sintomas no momento da cirurgia.
Os
critérios para indicação cirúrgica estão
demonstrados na Tabela-2. Em nenhum dos pacientes portadores de refluxo
unilateral foi realizada cirurgia bilateral. No 3º mês após
a cirurgia, quando foi realizada a CUM, 107 pacientes (91%) apresentavam
cura do RVU. Os 11 pacientes que permaneceram com RVU foram mantidos em
acompanhamento clínico, havendo resolução espontânea
em 5 pacientes. Portanto a taxa de sucesso da cirurgia foi de 95%. Dos
6 pacientes restantes, 4 foram submetidos a nova cirurgia e 2 permanecem
em acompanhamento.

Houve
complicação pós-operatória em 13 pacientes
(11%). Três apresentaram infecção de ferida operatória,
fístula urinária foi diagnosticada em 7 e obstrução
ureteral em 3. Aqueles com infecção de ferida operatória
foram tratados com curativos e antibióticos. Dos 7 portadores de
fístula urinária, 5 ficaram curados com sondagem vesical
prolongada e 2 necessitaram de reoperação para resolução
do quadro. Todos que apresentaram obstrução ureteral foram
submetidos a nova cirurgia e reimplante ureteral.
Disfunção
miccional pós-operatória foi observada em 3 pacientes (5.7%),
dentre os 52 que foram submetidos a correção de RVU bilateral.
O tratamento foi conservador e houve resolução espontânea
em todos os casos.
O
tempo médio de acompanhamento pós-operatório foi
de 67.8 meses, variando de 3 meses a 22 anos.
DISCUSSÃO
Hutch
(9) em 1952 demonstrou pela primeira vez os efeitos deletérios
do refluxo vesicoureteral e da infecção na função
renal. Desde então tem-se tentado tratar o RVU com o intuito de
preservá-lo. O objetivo fundamental de quaisquer das técnicas
cirúrgicas propostas para tratar o RVU é restaurar a anatomia
e fisiologia da junção ureterovesical e eliminar a ocorrência
de pielonefrites. Podemos dividir as técnicas cirúrgicas
em: intravesicais, extravesicais e combinadas. A abordagem extravesical
foi pela primeira vez aplicada em humanos por Lich et al. (3), e por Gregoir
& Van Regemorter (4). Em 1977, Gregoir &Schulman (10) obtiveram
97% de resolução do RVU em 409 unidades renais operadas.
Posteriormente diversos outros estudos confirmaram o alto índice
de sucesso, reproduzindo os resultados dos estudos iniciais (11,12). A
técnica de Lich-Gregoir teve grande divulgação na
Europa, porém, na América do Norte sua aceitação
foi limitada pelos baixos resultados publicados por Hendren (13,14). Em
nosso meio, Arap et al. (15) comprovaram os elevados índices de
sucesso, obtendo resultados compatíveis com as publicações
da Europa. Mais recentemente vários autores americanos têm
conseguido bons resultados (5,16). Lapointe et al. (17) realizaram um
estudo prospectivo com 256 pacientes submetidos à cirurgia de Lich-Gregoir
no período de janeiro de 1991 a janeiro de 1996 e obtiveram uma
taxa de cura de 96%. Foram realizadas 41 cirurgias em pacientes com refluxo
bilateral e houve retenção urinária em 8.3%, sendo
temporária e tratada conservadoramente com sucesso em todos os
casos. Os autores sugerem que provavelmente os maus resultados iniciais
de Hendren (13) decorreram de problemas técnicos, e que a confecção
do túnel com adequada dissecção da mucosa vesical,
reduz o índice de complicações pós-operatórias.
Em apenas 2 (0.5%) casos ocorreu obstrução ureteral, sendo
necessário intervenção cirúrgica em um deles.
Os autores atribuem este baixo índice de obstrução
a uma modificação introduzida na técnica cirúrgica:
a miotomia é terminada com um Y invertido, de cada
lado do orifício ureteral, que permite melhor acomodação
da junção ureterovesical.
Em
nossa série de 170 unidades renais operadas obtivemos uma taxa
geral de resolução do RVU de 95%, sendo este índice
compatível com a literatura. Realizamos a cirurgia extravesical
seguindo a técnica original dos autores com uma pequena modificação,
terminamos a miotomia com um prolongamento em Y invertido
de cada lado da junção ureterovesical. Apesar desta modificação
técnica só ter sido descrita em 1998 por Lapointe et al.
(17), já era realizada há alguns anos em nosso serviço.
Nenhum dos pacientes portadores de RVU unilateral foi submetido a cirurgia
bilateral e apenas 4 pacientes (3.3%) apresentaram refluxo contralateral
no pós-operatório. Todos eles foram acompanhados clinicamente,
e, atualmente, 3 estão curados e 1 permanece em tratamento. Concordamos
com a opinião de Marberger et al. (18) que provavelmente a preservação
da unidade ureterotrigonal contribua para este resultado favorável.
A complicação mais séria foi a obstrução
ureteral que ocorreu em 4 casos, todos necessitaram de revisão
e reimplante ureteral.
A
fístula urinária ocorreu em 7 pacientes (5.9%), uma taxa
elevada quando comparada a outros estudos. Todos os casos ocorreram anteriormente
ao ano de 1988, e pensamos ser devido a uma dissecção muito
ampla do ureter terminal. Estes casos foram tratados inicialmente com
sondagem vesical prolongada, com resolução em 5 pacientes,
enquanto que 2 necessitaram de reoperação.
Um
dos principais argumentos contrários à cirurgia de Lich-Gregoir
é a ocorrência de disfunção miccional e retenção
urinária após cirurgia bilateral. Estes achados levaram
alguns autores a contra-indicar a cirurgia extravesical para casos de
RVU bilateral ou indicar a correção em 2 tempos. Vários
estudos recentes publicados abordando este tema (6,7,19), demonstraram
que realmente existe uma maior incidência nos casos de RVU bilateral
submetidos a correção pela técnica extravesical.
No entanto, o comportamento da disfunção é transitório
não havendo diferenças nos resultados a longo prazo e permitindo
que a cirurgia bilateral extravesical permaneça como opção
cirúrgica nestes casos. Alguns trabalhos tentam relacionar a extensão
da dissecção do detrusor e as variações introduzidas
na técnica original. Barrielas et al. (20) em uma recente publicação
analisando 220 pacientes portadores de RVU bilateral submetidos à
cirurgia de Lich-Gregoir obtiveram uma taxa de 8.4% de retenção
urinária quando a técnica é modificada e usa-se a
detrusotomia em Y contra 15.2% desta complicação
quando a modificação utilizada é a liberação
total do ureter através de uma miotomia circunferencial. No entanto
esta diferença não foi estatisticamente significativa. Em
nosso estudo foram realizadas 52 cirurgias para tratamento de RVU bilateral
e ocorreram 3 casos de retenção urinária pós-operatória
(5.7%). A disfunção miccional teve caráter transitório
em todos os casos, o que permite a técnica extravesical permanecer
como opção viável no tratamento do RVU bilateral.
CONCLUSÃO
Os
pacientes portadores de refluxo vesicoureteral podem ser tratados com
sucesso através da técnica de Lich-Gregoir. A cirurgia extravesical
é simples, segura, de baixa morbidade e apresenta alto índice
de cura. Aqueles que a utilizam nos pacientes portadores de refluxo bilateral
devem esperar uma taxa de retenção urinária transitória
em torno de 6% dos casos.
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________________________
Received: February 15, 2000
Accepted after revision: July 7, 2000
RESUMO
CIRURGIA
DE LICH-GREGOIR NO TRATAMENTO DO REFLUXO VÉSICO URETERAL.
ANÁLISE DE 118 CASOS
Objetivo:
O refluxo vesicoureteral (RVU) é uma patologia freqüente cuja
incidência varia de 1 a 18.5%, e, pode ser acompanhada de alta morbidade.
A história natural do RVU vem constantemente modificando sua abordagem
terapêutica, principalmente no que diz respeito as indicações
do tratamento cirúrgico. Várias são as técnicas
cirúrgicas descritas para tratamento do RVU. A abordagem extravesical
foi popularizada por Lich et al. (1961) e por Gregoir & Van Regemorter
(1964). No presente estudo relatamos a nossa experiência com esta
cirurgia no tratamento desta patologia.
Material
e Métodos: Foram avaliados retrospectivamente os prontuários
de 814 pacientes portadores de RVU, dos quais 213 foram submetidos a cirurgia
e destes 118 foram tratados pela técnica de Lich-Gregoir, no período
de abril de 1972 à junho de 1998. Dos 118 pacientes estudados,
52 eram portadores de RVU bilateral, perfazendo-se, portanto, um total
de 170 unidades renais estudadas. A técnica cirúrgica foi
modificada, pois a miotomia terminava em Y, prolongando-se
de cada lado da junção uretero-vesical.
Resultados:
A taxa total de cura do RVU foi de 95%. Houve complicação
pós-operatória em 13 pacientes (11%). Três pacientes
apresentaram infecção de ferida operatória, fistula
urinária foi diagnosticada em 7 e obstrução ureteral
ocorreu em 3. O tempo médio de acompanhamento pós-operatório
foi de 67.8 meses, variando de 3 meses a 22 anos. Em nossa série
foram realizadas 52 cirurgias para tratamento de RVU bilateral e ocorreram
3 casos de retenção urinária pós-operatória
(5.7%), todos tratados com medidas conservadoras.
Conclusão:
A cirurgia de Lich-Gregoir no tratamento de RVU é simples, segura,
de baixa morbidade e apresenta alto índice de cura, mesmo nos casos
de refluxo bilateral.
Unitermos:
ureter, refluxo vesicoureteral, reimplante
Braz J Urol, 26: 372-377, 2000
_______________________
Correspondence address:
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