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KIDNEY
LYMPHATICS AND RENAL CELL CARCINOMA
R.Q. SOARES, V.
DELMAS
Section of
Urology, Bichat University Hospital, Paris, France
ABSTRACT
This
article outlines the kidney lymphatic drainage anatomy and its importance
in renal tumors. Also, the current significance of associated lymphadenectomy
for improving results of surgical treatment is discussed.
A review of literature on anatomical and
clinical articles on lymphatics and renal cancer was performed.
The current opinions are not favorable to
the curative value of extensive lymphadenectomy in renal cell carcinoma.
Nevertheless, some results of old series with advanced diagnosed tumors
treated with routine radical extensive surgery are better than present
results of incidentally diagnosed cases treated with more limited surgery,
with no change in morbidity. The comparison of the results is difficult
because of different surgical approaches and lack of randomized controlled
studies. Nowadays, the role of lymphadenectomy in renal cell carcinoma
represents one of the controversial questions in the treatment of kidney
carcinoma. A thorough knowledge on the anatomy of kidney lymphatics is
important to analyze and improving results.
Key words:
kidney, lymphatics, anatomy, kidney neoplasms, surgery, metastasis
Braz J Urol, 26: 354-359, 2000
INTRODUÇÃO
A
cirurgia representa o único tratamento curativo no câncer
renal. A extensão da extirpação cirúrgica,
principalmente no que concerne a linfadenectomia, tem sido uma das grandes
controvérsias no tratamento dos tumores de rim (1-5). A linfadenectomia
retroperitoneal alargada, proposta por Robson em 1963, apesar de possibilitar
sobrevida melhor que em qualquer outra série relatada previamente,
não foi uma prática seguida por muitos centros (6). Grande
parte dos trabalhos publicada posteriormente não apoiava a realização
de uma dissecção linfática extensa, justificando
o fato por considerar a presença de linfonodos positivos um indício
de doença disseminada (3,7,8). Poucos centros conseguiram reproduzir
os resultados de Robson (6), e as séries mostravam que a presença
de metástase visceral ocorria em mais de 80% dos pacientes com
linfonodos acometidos (7,9).
Atualmente, poucos centros ainda realizam
a linfadenectomia alargada no tratamento curativo do câncer renal.
Os autores que defendem este procedimento se baseiam na presença
de metástases linfonodais microscópicas que não seriam
identificadas nas análises de rotina (1,2,6,10). Os resultados
destes autores mostram melhor estadiamento pós-operatório,
menor taxa de recidiva local e melhor sobrevida em pacientes com linfonodos
positivos sem metástases sistêmicas identificadas, sem aumento
da morbidade cirúrgica. No entanto, o número total de pacientes
que pode se beneficiar deste procedimento limita-se aos casos com doença
localmente avançada, sem metástases identificadas (T1-3
Nx Mo) (2,4).
A dificuldade na comparação
dos resultados deve-se a escassez de trabalhos randomizados prospectivos
e às diferentes metodologias utilizadas. Poucos trabalhos descrevem
precisamente a técnica e os limites da linfadenectomia realizada.
As diferentes vias de abordagem cirúrgicas também são
fatores que influenciam os limites da dissecção. A seleção
dos pacientes é o ponto de maior controvérsia. Um único
trabalho randomizado prospectivo multicêntrico (EORTC) não
mostrou diferença significativa na sobrevida com ou sem a realização
da linfadenectomia a curto prazo (8).
A evolução nos métodos
diagnósticos de imagem, bem como uma melhor compreensão
da história natural do câncer renal, possibilitaram diagnósticos
mais precoces e melhor estadiamento, motivando recentes modificações
nos critérios de avaliação prognostica e na utilização
de cirurgias mais conservadoras (4,9,11,12). No entanto, considerando
a sobrevida global, o aumento no diagnóstico precoce de câncer
renal não correspondeu à melhora esperada nas taxas de sobrevida
em relação aos resultados de séries antigas, que
incluíam lesões diagnosticadas tardiamente e tratadas mais
agressivamente (1,6,10,13).
A drenagem linfática no câncer
renal é variável e a realização da linfadenectomia
retroperitoneal não é um procedimento tecnicamente simples
e facilmente reproduzível, que permita uma comparação
exata dos resultados. Apesar das dúvidas persistentes quanto ao
valor terapêutico da linfadenectomia retroperitoneal, a precisa
compreensão anatômica da drenagem linfática é
de fundamental interesse para a avaliação prognostica e
melhora dos resultados no tratamento do câncer renal.
ANATOMIA DOS LINFÁTICOS
RENAIS
Os
canais linfáticos intra-renais podem ser divididos em plexo superficial
e profundo. O plexo superficial subcapsular comunica com o plexo profundo
subcortical e drenam a linfa para os gânglios do hilo renal passando
ao longo dos vasos arqueados e piramidais (14) (Figura-1). Existem de
1 a 4 vasos linfáticos que emergem do hilo pré ou retrovasculares.
Estes linfáticos tem diâmetro inferior a 1mm e anastomosam-se
entre si formando um aspecto plexiforme. Eles drenam para os linfáticos
extra-renais em 3 grupos no rim direito e em 2 grupos no rim esquerdo
(14-17).
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Figura
1 - Linfáticos do rim direito. Injeção de azul de metileno em
cadáver de feto de 8 meses, com demonstração do primeiro linfático
de drenagem localizado na origem da artéria renal direita (seta).
RD: rim direito, VRD: veia renal direita, VRE: veia renal esquerda,
Ao: aorta, U: ureter.
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No
rim direito os canais linfáticos são divididos em posterior,
anterior e médio. Os canais posteriores saem do hilo renal em localização
superior e posteriormente aos vasos e formam a rede de linfonodos retrocava
e inter-aorto-cava de L1 a L3. Podem seguir direção ascendente
atravessando diretamente o diafragma e terminando no ducto torácico
(Figura-2), ou descendente até os linfonodos pré-cava ao
nível da origem da veia cava e da bifurcação da aorta.
Os canais anteriores se dispõem acima da veia renal e drenam também
nos linfáticos pré-cava ou inter-aorto-cava e daí
até o ducto torácico. Os canais médios se dispõem
entre a artéria e a veia renal alcançando os canais anteriores
ou posteriores (14-16).
No rim esquerdo os linfáticos formam
canais posteriores e anteriores. Os canais posteriores passam atrás
dos vasos renais tomando direção ascendente até atravessarem
os pilares diafragmáticos, ou descendente terminando nos linfonodos
lombo-aórticos entre o pólo inferior do rim e a veia renal.
Os canais anteriores se dispõem na borda superior da veia renal
e drenam nos linfonodos situados abaixo da origem da artéria renal
e da artéria gonadal, até a altura da artéria mesentérica
inferior.
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Figura
2 - Linfáticos do rim direito (vista posterior do rim). Demonstração
dos canais trans-diafragmáticos. Alguns canais linfáticos partem
do pedículo renal e atravessam o diafragma formando uma comunicação
direta com o mediastino, sem passar pelos linfáticos do hilo renal
(seta). Ao: aorta, RD: rim direito, D: diafragma, U: ureter.
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Em
resumo, a drenagem linfática renal se dirige para os lifonodos
ao longo dos grandes vasos, podendo tomar várias direções.
No entanto, existe uma via preferencial passando pelos linfonodos da origem
da artéria renal correspondente. A drenagem da porção
renal posterior pode atingir diretamente os linfáticos mediastinais
sem passar por linfonodos retroperitoneais.
METÁSTASES
GANGLIONARES
A
incidência encontrada de metástases ganglionares é
função do estádio tumoral e da extensão da
linfadenectomia, bem como do rigor da análise histológica.
Para os estádios intracapsulares (T1/T2) o comprometimento é
de 1 a 13% em função do tamanho do tumor, e aumenta para
35 a 46% para os estádios T3 (TNM 97) (1,7,10).
A linfadenectomia alargada aumenta de 15
para 30% o achado de linfonodos positivos em relação a linfadenectomia
regional (1,6,10,18).
Uma análise histológica minuciosa
também aumenta a taxa de micro-metástases não identificadas
nas análises de rotina. Algumas séries encontram até
80% de metástases ganglionares microscópicas em pacientes
não metastáticos (1,10,19).
No entanto, a grande parte de comprometimento
ganglionar são associados a metástases viscerais e somente
10 a 15% de casos apresentam linfonodos acometidos isoladamente (4,13).
Esse é o grupo de pacientes que aparentemente pode se beneficiar
de uma linfadenectomia terapêutica.
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Figura
3 - Limites anatômicos da linfadenectomia retroperitoneal associada
à nefrectomia radical. Em preto estão indicados os linfonodos
a serem retirados. A)- Linfadenectomia hilar. B)- Linfadenectomia
regional. C)- Linfadenectomia alargada (ref. 22, com permissão).
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LOCALIZAÇÃO DAS METÁSTASES GANGLIONARES
As
metástases ganglionares no câncer renal não obedecem
a uma localização ordenada. O acometimento de linfonodos
hilares é menos freqüente que de linfonodos para-cava ou para-aórticos.
O acometimento contra-lateral é raro. Nenhum paciente apresenta
linfonodos contra-laterais positivos na ausência de metástases
ipsilaterais. É possível o acometimento a distância
sem acometimento local (7,10,14,16,20). Metástases ilíacas,
supra-claviculares e axilares foram descritas sem acometimento de gânglios
retroperitoneais (15,19-21). Este é um evento raro em caso de tumores
localizados, mas pode ocorrer em presença de trombo venoso, obstrução
ureteral ou grandes tumores. A localização das metástases
ganglionares também varia com a localização da lesão
primária, porém poucos estudos tratam deste assunto.
LINFADENECTOMIA
Em
relação aos limites podemos considerar 3 tipos de linfadenectomia
(Figura-3) (22): 1)- Linfadenectomia hilar ou localizada: é a exerese
dos gânglios do hilo renal realizada em toda nefrectomia radical;
2)- Linfadenectomia regional: é a exerese dos gânglios para
cava à direita e para aórticos à esquerda; 3)- Linfadenectomia
alargada: é a exerese dos gânglios látero, pré
e retrocava e inter-aorto-cava, desde os pilares diafragmáticos
até a origem da veia cava inferior a direita, e látero,
pré e retro-aórticos até a artéria ilíaca
comum a esquerda.
VALOR TERAPÊUTICO
DA LINFADENECTOMIA
A
disseminação do câncer renal se faz principalmente
por via venosa, o que torna discutível o controle da doença
por linfadenectomia. Estudos de autopsia mostram que 80 a 90% dos pacientes
com acometimento de linfonodos apresentavam metástases viscerais
(7). No entanto, a presença de metástases microscópicas
não identificadas é um fator que pode aumentar o grupo de
pacientes com linfonodos acometidos isolados.
Em tumores localizados (T1) não existe
diferença significativa na sobrevida com a realização
da linfadenectomia (3,10,21). No entanto, 5% destes pacientes desenvolvem
metástases após cirurgias conservadoras (21). Algumas séries
relatam melhor sobrevida com linfadenectomia alargada em pacientes com
linfonodos acometidos. As séries comparativas relatam uma sobrevida
de até 50% em 5 anos com linfadenectomia alargada em comparação
a 17% com linfadenectomia regional (1,6,10,19). Essa diferença
desaparece após 5 anos. A taxa de recidiva local também
é reduza de 25 para 11% após linfadenectomia alargada (1).
Entretanto, alguns pacientes desenvolverão metástases, o
que suporta a hipótese de que a presença de linfonodos positivos
é sinal de doença disseminada, e que a linfadenectomia alargada
pode retardar a progressão, mas não curar.
A morbidade e a mortalidade pós-operatória
em caso de linfadenectomia alargada é idêntica à da
nefrectomia radical (1,6). A realização de linfadenectomia
alargada também permite maior precisão no estadiamento e
melhor estimativa de prognóstico.
Apesar dos resultados favoráveis
com linfadenectomia alargada, as séries que os apoiam não
são randomizadas. Considerando a ineficácia de tratamentos
complementares à cirurgia, o benefício de estadiamento preciso
não oferece muito ao paciente. Desde que a incidência de
linfonodos positivos em pacientes sem metástases viscerais é
de 10 a 15%, apenas uma pequena parcela pode se beneficiar da linfadenectomia
alargada. O resultado de um estudo randomizado (EORTC, 759 pacientes)
não demonstrou vantagem terapêutica da linfadenectomia alargada
em pacientes com linfonodos positivos. No entanto, apenas 5% dos pacientes
submetidos à linfadenectomia tinham linfonodos positivos, em comparação
com 23 a 32% encontrado pelos autores que realizam linfadenectomia alargada
sistematicamente (8).
CONCLUSÃO
Os
tumores malignos do rim têm crescimento agressivo e prognóstico
reservado. O tratamento cirúrgico é a única possibilidade
de cura. A presença de linfonodos positivos identificados nas análises
histológicas de rotina é indício de doença
disseminada. A presença de tumores localizados não afasta
a possibilidade de disseminação linfática. Os linfonodos
preferencialmente atingidos encontram-se ao longo dos grandes vasos no
retroperitônio. A linfadenectomia com valor curativo só é
justificada se englobar todos os linfonodos retroperitoneais dos pilares
diafragmáticos até a bifurcação da aorta.
Possivelmente há um grupo de pacientes que pode se beneficiar deste
procedimento, com tumores localizados ou localmente avançados e
metástases linfáticas microscópicas. Não existem
critérios pré ou intra-operatorios que possam definir os
pacientes que se beneficiam de linfadenectomia retroperitoneal alargada.
As chances de cura do câncer renal são maiores com cirurgia
mais agressiva.
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___________________
Received: June 2, 2000
Accepted: June 28, 2000
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Correspondence address:
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